terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O HOMEM SÓ


O HOMEM SÓ

Pelo meio fio o homem arrasta os seus sapatos gastos.
Parece contar mentalmente - um sim, um não, um sim, um não - os seus tristes passos.
Caminha entre a tristeza e a solidão amarga de quem não possui ideal e vive um dia de cada vez.
Anda na ponta dos pés e na ponta do mundo gira a vida de acordo com o vento - norte ou sul, tanto faz. A ordem dos instantes e os momentos se acabam na próxima esquina ou no próximo bar?! Sabe disso. Até ousa um pensamento, mas acaba engasgado no desatino que antecede a embriaguez. Este tempo é seu -, é nada mais que um esquadrinhar de horas convidando-o, a mais um gole. Será este o prazer do infinito descanso?!
Ele queria fugir. Fugir com a bailarina do circo e beijar-lhe a boca vermelha apenas por um segundo [perpétuo?], lamentável é o turbilhão de sonhos que ficaram para trás, onde as suas mãos jogaram a última garrafa vazia, de uma bebida barata.
O circo se foi. A bailarina coberta de purpurina também se foi. Não houve o beijo. Não houve nada.
Entediado, escuta os latidos do vira-lata sarnento que o acompanha  lambendo-lhe as mágoas.
Brinca com ele. 'Sancho' -, é assim que o chama desde que se tornaram amigos de caminhadas, amigos de ruas e calçadas.
São figuras quixotescas-, o homem esmolambado e seu fiel escudeiro sarnento, mas feliz enquanto sonha odores e carinhos.
O homem olha seu olhar sobre o mundo e sorri. É assim mesmo - "tudo um imenso nada!"
Sente um vazio no estomago igual ao das Carmelitas Descalças que jejuam e o fazem pela fé. Fé em quê?! Seria  nestas noites frias que se avizinham das cegas janelas e  não atravessam as casas onde ele não pode se abrigar com seu cão sarnento?! Seria Fé nestas portas pesadas dos templos e igrejas sempre fechadas ou nas palavras espremidas entre dentes e bigodes aparados e bocas de riso amarelo?!
Não, ele não tem fé, tem fome! Uma fome desencontrada, melancólica e dolorida.
Tem fome de vida, tem fome de pão, fome de 'pinga', tem fome de ser gente.
Mas ele sabe que é melhor não pensar e manter olhar entre o o meio fio e o asfalto e brincar com os dois. Pisar em falso, ora num ora noutro. E pensando nisso, arruma a touca puída e o cachecol no pescoço. Afaga a cabeça do cão e se vai pisando o meio fio - um sim, um não, um sim, um não...
Tenho fome, não tenho. Sou gente, não sou...