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domingo, 19 de dezembro de 2021

A ILUSÓRIA DA LUZ


Um dia eu resolvi me calar. Examinar os aspectos da vida pode levar anos e, todos os pensamentos fragmentados serão novamente avaliados de forma um pouco mais madura. Sei perfeitamente que nem assim, as nossas virtudes serão maiores que nossos defeitos - isso aos olhos de quem nos vê e, contudo, não nos enxerga. Daqui, onde eu me encontro, posso dizer que finalmente me encontrei. Houve um processo interior, um desapego existencial não aflitivo, não sofredor mas, necessário na linha evolutiva vertical. Por outro lado, a geometria sagrada presente em todas as coisas me revestiu de um forte sentimento de compaixão - posso finalmente olhar e enxergar  sem transgredir as leis naturais mas, isso não me torna melhor do que ninguém, apenas não mais  vinculada a uma condição ilusória que oferece brilho para quem não sabe acender a própria luz.


imagem: Sossego

                                                                                        aquarela s/papel Canson

       Luciah Lopez

   


terça-feira, 15 de maio de 2018

A Santa Deusa de Cada Dia


A Santa Deusa Nossa de Cada Dia

Uma toalha de renda sobre a mesa tosca e as mãos daquela mulher pacientemente trabalhando o papel e criando as rosas marmorizadas.  Os raios de sol bordavam crivos pelo chão acendendo pequenos vaga-lumes na poeira da tarde. Seria uma ousadia qualquer palavra dita -, qualquer som que pudesse romper a magia daquele momento. Então me calei. Haveria tempo para as palavras, mas não o tempo da comunhão. Guardar aquela imagem era o mais certo a fazer, e até mesmo o velho carrilhão se recusava a anunciar as horas. Ela estava linda em sua ocupação de enfeitar o mundo com as suas rosas. Como eu queria participar daquela liturgia - ela era a santa, a mulher, a origem, a deusa - ela era a mãe. E o meu olhar a perscrutar-lhe o semblante, reconhecia a semelhança, assim como a argila reconhece o oleiro. Naquele instante eu percebi que possuía o maior mundo e até mesmo nas batidas do meu coração aceleraram quando ela se virou para mim e disse sorrindo: Oi filha, veio ajudar a mamãe?! Eu sei fazer rosas de papel, mas não sei fazer o tempo voltar e isso é com certeza, uma das maiores, senão a maior saudade que eu já senti - da minha mãe.


para minha mãe Dª. Ira 


domingo, 6 de maio de 2018

A mulher e o Prazer de Ser Mulher


A mulher e o Prazer de Ser Mulher 

imagem: Andy Warhol - Birth of Venus -1984

Ao ler ‘Os Estatutos do Homem’ do poeta Thiago de Mello, percebi a abrangência do poema e como ele nos posicionar dentro deste universo que mantém vivos-, os preconceitos arcaicos que só fazem dilapidar a referida obra poética. É lamentável, que nos dias atuais existam indivíduos não capazes de compreender a diferença entre gênero e espécie da palavra homem dentro do contexto. Penso, que, baseados nesta pequena confusão, estes indivíduos reúnam aspectos totalmente primitivos assumindo uma posição bastante controversa em relação à mulher e o seu papel na sociedade atual. Coube à mulher, ao longo da história da humanidade uma participação irrelevante, mesmo algumas se sobressaindo, outras eram imediatamente caladas e assim sucessivamente até que aconteceu essa explosão de informações que libertou a mulher definitivamente, não numa conquista individual, mas dando a ela o empoderamento coletivo, atitude esta que fez da mulher uma das peças fundamentais tanto na grande engrenagem chamada Vida, como no imensurável poema citado: “Artigo IX   - Fica permitido que o pão de cada dia tenha no homem o sinal de seu suor. Mas que sobretudo tenha sempre o quente sabor da ternura.” A ternura que é peculiar à mulher e tão necessária na atitude do homem.




domingo, 29 de abril de 2018

PRIMEIRA


Quando eu me sentei no topo do mundo, imediatamente alguém feito um louco alucinado me perguntou aos gritos: cadê as suas velhas tristezas? Mas quem ouve, escuta atento; e já sabendo de todas as condenações me coloquei no desvio do apedrejamento. Cá em cima, eu cismando com meus botões, ignorei as baratas revoltosas em sua cegueira, celebrando o sensacionalismo torpe que não se ler em livros pois os diamantes são para o cérebro e não para as más línguas. E quando a noite não se fez de rogada escancarando o céu da boca, o dia começou a pintar motivos decorativos na linha dos ciprestes e a ocupação das Horas pareceu-me resplandecer. Desse modo, fui-me à contemplação e a olhar a rua e seus esquálidos transeuntes. O casario tomando forma no pratinho de porcelana - era o retrato do que eu via. A Vida e as migalhas não menos valiosas sendo varridas pelo pincel carregado de tintas. E neste ínterim, as  bocas mudas  seguem preenchendo a superfície da Terra na tentativa vã de intensificar o simples diante do avantajado. Por fim, uma criança vestida com roupas puídas solta o pássaro e orienta o olhar que se encontra com o meu.





terça-feira, 17 de maio de 2016

MAIO





MAIO

Na lareira, o crepitar da lenha faz voar vagalumes incandescentes que festejam o meu olhar enquanto o chocolate quente faz a vez dos seus beijos. Na janela, a cortina entreaberta, deixa uma réstia de céu e a palidez da lua de outono desenha a copa dos pinheiros. O silencio é quebrado pelo canto das garças em seus ninhos, nas árvores da praça. É outono-, e tudo está diferente, até a minha vida está diferente. Entre um gole e outro do chocolate quente, eu percebo um gosto suave deixado pela pitadinha de noz moscada, esse pequeno detalhe me faz imediatamente, lembrar de você. A pergunta surge na hora _Será que ele gosta de chocolate com noz moscada?! _, e pensando assim, me vejo tomada por um sorriso e um suspiro profundo acompanhados de um 'levantar de ombros' simulando um abraço, que me deixa muito mais feliz. Descobrir os seus gostos está sendo maravilhoso e cada detalhe é especial, porque o Amor é assim____especial e as nossas diversas idades são como a pitadinha de noz moscada, é o que nos torna singularmente claros aos olhos de quem nos observa, não por curiosidade, mas porque nos ama. Os vagalumes saem das chamas e são tão lindos que eu ficaria a noite toda, aqui, olhando o crepitar do fogo, não fosse o frio dessa noite de maio e a urgência de sonhar com o calor do seus braços.



segunda-feira, 16 de maio de 2016

CONSIDERAÇÕES


CONSIDERAÇÕES
Há um riacho que separa os tempos e um sol inclemente que acende o olhar dos djins, enquanto o coração grita, tentando entender o significado das palavras____escritas de sangue na poesia da pele. O vento castiga os ramos do salgueiro e chora ante o sono que encerra cada sofrimento fazendo marejar os olhos do velho mulá de barba branca. Em seu coração, ela ouve-, enquanto com seus lábios ela diz: " Se você se for, eu morro. Simplesmente eu morro". A mulher nuvem_____inatingível, intocável em sua dor, desenha um dragão que carrega as suas esperanças dispostas em prateleiras, empilhadas e escondidas em casas de barro. A noite atapetada, toma impulso na lua que cochila e cobre com seu véu, a cabeça dos noivos, aproximando os olhares no falso espelho d'água. Os cabelos crespos, o miolo da maçã a aliança a boneca de pano, o anel de pedra da lua... O doloroso grito e a voz para sempre muda. Uma pedra. Duas, três, quatro... Um corredor, uma estrada longa demais para ser percorrida sem alguém que lhe sustente a mão. Saudade... Que choro é esse, que só chora em ângulo reto?! Mariam jo... Um ritual diário de sonhar acorrentada por debaixo da burqa, risca e rabisca um nome de luz e o seu próprio nome - o MEM, o REH, o YA e chora a própria existência enquanto tenta entender a história beijando a fotografia no porta retrato. Harami! Harami! Quem pode culpá-la por ser bastada, se Deus a fez assim, aldeã e mulher?! Que sentido efêmero tem um beijo repartido ao meio qual asas de borboleta?! Um beijo pendendo do varal da boca... da boca?! Porquê, afinal, Mariam costura olhos de boneca esperando por uma lufada de vento seco? Seiscentos e cinquenta quilômetros é a distancia?! Não! Muito mais. Três mil quilômetros são poucos para esta distancia. -Onde está o meu coração?! Ouço o seu choro e o meu agora..."A Allah pertencem o leste e o oeste, e para onde quer que vos volteis lá encontrareis a face de Allah..." Nunca se esqueça disso, porque agora, lambem-me, as línguas de fogo e sangue e nas calçadas de pedra, o grito ecoa - escrevendo num pergaminho aveludado todas as lendas que o mensageiro trouxe. A cidade é vermelha agora e a sombra corre solta pela rua envolvendo os minaretes, descobrindo a poesia de Nezami porque os séculos se repetem. Apenas se repetem...Mulher do sonho, mãos de anjo, Mariam jo colhe as pedras e as joga fora antes de criarem raízes. A primavera não quer mais chegar, mas foi Deus quem plantou as flores verdes enquanto ela ainda dormia.Quem plantou os sonhos? Quem?! Não é adequado sonhar enquanto os mísseis ainda estão nas tuas mãos e ainda explodem no meu peito como estrelas, revirando as páginas desta história, fazendo a pele arder na carícia da chibata.Os mortos são os inocentes que sangram em silencio... Mariam jo, agora sabe disso e improvisa um sorriso fechando os olhos e os sonhos. O silencio e as borboletas... Milhões delas. Borboletas lhe contam histórias sobre um lugar que não existe, assim como ela Mariame jo, que também não existe mais. Aperta as mãos e sente o anel de "pedra da lua"...Abre os olhos enquanto caminha pisando na própria sombra e na sombra de seu carrasco. É silencio agora.


segunda-feira, 9 de maio de 2016

AS PERGUNTAS SE RESPONDEM

AS PERGUNTAS SE RESPONDEM

O destino pode ate querer o seu fim, mas é o princípio do ser humano que carrega o significado da Vida. É um código entre Deus e o Homem. As perguntas se respondem  a medida que evoluímos e passamos a crer em nós mesmos. Os monstros que guardamos no armário tem exatamente o tamanho da nossa fé.


segunda-feira, 18 de abril de 2016

DIVINDADE INTERIOR


Divindade Interior

O verbo abre-se na rosa e as andanças pelo mundo em busca de uma sociedade tolerante e livre de dogmas, já não se faz necessária. A casa do silêncio é tomada por cores e sons emitidos pela consciência cósmica, cuja força desencadeia o conhecimento adormecido nas câmaras da alma humana.
Alfa e Omêga, a matéria, o espírito e a possibilidade de abrir ao homem, o mundo não perceptível  e a restauração  da harmonia entre a criação e o criador. A divindade trabalha dentro de si mesma e a rosa é o fogo que não queima - mas ilumina o olhar que deseja enxergar além das linhas que desenham figuras em paredes nuas. O silêncio é na casa, o silêncio é a casa.



imagem: google

sábado, 16 de abril de 2016

A PRIMEIRA VOCÊ NUNCA ESQUECE



A Primeira Você Nunca Esquece

"Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto". Kafka


Acendo a luz (argh!), lá esta ela dentro da caixa de papelão! Com seus olhos compostos – nada mais nada menos que 2000 lentes, enquanto nossos olhos humanos, apenas duas! Percebo que ela me olha, antenada e lustrosa limpando das patas dianteiras os farelos da última refeição – migalhas do meu biscoito favorito. Imediatamente penso: “Devia ter levado o lixo para fora!”, mas de onde surgiu este representante pré-histórico blindado – Elo Pedido?! Não sei o que fazer, ela continua quieta apenas olhando, talvez até sorrindo com sua boca sem dentes, mas capaz de 'mastigar' tudo que encontra e que tenha cheiro de comida. Movo meus braços e ela se move! Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...
Volto!Ela se move! Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...Talvez essa barata tenha assistido algum filme de Bang-Bang dos anos 70 - do tipo: O Biscoito Furado, Uma Barata Chamada Cavalo, Doze Baratas e Um Destino porque eu me senti diante do inimigo, pronta para um duelo ao por do sol: Calamity Lucy and the Cockroach! Cadê minha “Doze”?! Tem que ser uma “doze” e de cano serrado. O tiro tem que ser fatal! Matar elefante no Kenya é moleza, agora mata uma barata, mata! Numa única chinelada não tem quem acerte! Parece que a maldita usa Óxido Nitroso e tem tantos cavalos-motor que nem o Alonso pode alcançá-la quando resolve sair em disparada vindo sempre ao encontro dos nossos pés... Quem já sentiu os pezinhos cabeludos de uma barata subindo pelas pernas?! É igual Du Loren – você nunca esquece!! Resolvi sorrir para ela, já que não podia fazer mímica nem sinais de fumaça – “Mim Pokahontas, você Barata, amiga?!” Não deu resultado! Melhor incorporar The Flash e tampar a caixa... Foi o que eu fiz e gastei um rolo de fita crepe [larga] para isolar qualquer saída. Ela que se FD! Coloquei a caixa na lixeira, esfreguei as mãos e sorri...




sábado, 24 de novembro de 2012

TATOO


TATOO

Sinto a contração do tempo como se fosse a respiração do dragão tatuado em minha pele – as vezes olho o dragão que me crava as garras e me pergunto se não teria sido melhor ter feito uma flor?!
Mas uma flor sem perfume não me dá a sensação de torpor e excitação que sempre acompanha as flores por mais simples que sejam, mas o dragão que um dia já foi carpa, e que já subiu os rios vencendo as corredeiras, fez da vida uma superação e pode respirar a minha respiração e se alimentar do meu sal e da minha inesgotável paciência
de tentar ver as coisas como elas são, e não como eu gostaria que elas fossem. 

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

PROSTITUTOS OLHARES



PROSTITUTOS OLHARES

Ainda não foi desta vez que a boca cuspiu a saliva
nem as vísceras gelatinosas.
Só mais um pouco – mais um pouco e a turbulência das coisas obscenas se aglutinam em forma de cuspe e então – lá vem o escarro certeiro.
Ninguém vê direito através do vidro das janelas, dos bares e botequins. Ninguém vê a cor do cuspe no canto da boca e nem o resto de batom barato que contorna os lábios escancarados das prostitutas de plantão. Elas têm lábios?!
Onde ficam os verdadeiros lábios das prostitutas que cospem a sua presença  assediando o pensamento encarquilhado dos velhos?!
Agora a pouco, uma sirene assuntou as bocas (arquibancadas de andarilhos) e os olhares se compromissaram. Quem viria a seguir?! Um garçom nu? Um advogado vestindo uma toga vermelha? Uma outra prostituta?! Não!! Os passos na calçada são dissimulados e espremidos nas coxas como passos de moça virgem e ansiosa das coisas. As outras cospem no chão e bafejam no vidro enquanto tentam ver a moça solitária com seus livros embaixo do braço. Só uma moça pisando leve com seus saltos finos.
As bocas de lábios verdadeiros e caras de lua cheia se esparramam coladas no vidro encardido e observam. Observam! Temem por sua estapafúrdia existência enquanto olham e ouvem os passos lá fora. A obscenidade de cada pensamento entreabre a boca dos homens fazendo com que suas mãos (direita/esquerda) desçam para o meio das pernas e os façam machos e donos de uma virilidade sem sentido. E o cuspe escorre no canto das bocas e os olhares descendo a ladeira das coxas espremidas e úmidas, vão até o chão onde eles se manifestam decidindo o rumo e a razão.
Os sapatos vermelhos e uma moça de olhos cor de mel atravessam o imaginário das prostitutas cheirando a naftalina e escorregam na alucinação dos homens forçando a saliva grossa de encontro aos lábios finos.
A noite em alguns lugares é assim...


quarta-feira, 21 de novembro de 2012

AS PALAVRAS SÃO DE VIDRO



AS PALAVRAS SÃO DE VIDRO

Hoje eu passei o dia caminhando pelas trilhas entre as araucárias, quaresmeiras, bracatingas e outras árvores das quais eu não sei o nome... São apenas árvores erguendo seus braços/galhos em direção às nuvens (algodão no céu).
No silêncio da quase “mata” Atlântica, só o canto de alguns pássaros e o que quebrar de galhos secos( ! )...Talvez um tigre!! Shere Khan!!! Meu coração dispara. Penso em correr - mas, quem corre mais eu ou Shere Khan??! Sinto a adrenalina no meu sangue. Sangue?! Tigre fareja sangue e medo. Tenho medo... Fico em silêncio por longos minutos. Não ouço mais os passos apenas um farfalhar na grama seca... Um coelho! É isso. O coelho branco. Seguido pelo Chapeleiro Maluco enquanto Ceshire mostra o sorriso e as listras... Estou no MUNDO DE ALICE!

Uma sombra no chão... Uma ave gigante?! Harpias??!! Nãaaaooo! Apenas Aladim e seu tapete mágico. Uffffaaaaaaa! Ainda bem! Ali Babá, por aqui?! Cadê o tesouro?! Sou a Princesa?! Siiiiiiiiimmmmmmmmm!! Este mundo é meu!!
Tem Principe montado num cavalo branco. Não, o meu cavalinho é vermelho... Eu guardei o cavalinho para você?! Você é o Príncipe! Nosso país é real.
Aqui, não existe idade, tudo acontece! Era uma vez...Uma estórinha que virou verdade. A maçã alimentou a Princesa, assim como as palavras de vidro que o Príncipe falou... Palavras de vidro refletem na luz do sol... São tesouros - preciso guardá-las num baú... Meu coração/cofre/baú esta bem guardado, longe do gancho do Capitão onde só eu sei. Gravei um X no mapa que guardei para você. Siga-o. Meu coração será sempre seu...
Hoje, andei nos meus próprios rastros... Andei de mãos dadas com a criança que ainda mora dentro de mim e que ainda acredita nas suas palavras de Príncipe Encantado!



RODA D'ÁGUA



RODA D'ÁGUA


Da boca do fogão à lenha vinham os chiados e estalidos da madeira meio verde sendo consumida pelo fogo na pressa do calor e na mansidão de cozer o leite e assar o pão.
No arrastar dos chinelos de couro e no vai e vem do avental branco, um ramo de salsa cai ao chão enfeitando os ladrilhos vermelhos da velha cozinha. 


Na chapa quente o tostar do queijo faz dual com o café escorrendo do coador de pano [tão escuro de tantos banhos]e ainda mantendo o sabor dos grãos minuciosamente selecionados, torrados e moídos.

O crepitar da lenha faz voar vaga-lumes ardentes e entre dentes, um sorriso. No olhar brilhando, o alumínio das panelas. E do fio da faca, caem as cascas e nascem as doces: estrelas de laranjas, quadrados de mamão verde e no vidro quente - o colorido das compotas de goiaba, araçá, marmelo e carambola.
Um queijo, um beijo, goiabada e paixão – a vida de cheiros agridoce entre as tampas e o velho pilão. Nas réstias de alhos e cebolas, uma trança e um limão. 

Das gamelas sobre a mesa, o verde das folhas do agrião escondem os doces - caju, goiabas suculentas, graviolas e frutas do conde. Um pano branco bordado com os dias da semana, marca o tempo que não passa no calor dessas horas e da janela, o sol espia e se enfia no aconchego de um abraço entre um beijo estalado, um biscoito "casado" e um sorriso de maria-mole.
Água fria descansada no gosto do barro, escorre entre os goles, doces goles do vermelho das romãs. E das cinzas do borralho, surge o gato Mal me quer, que nada quer, a não ser dormir e sonhar odores.
O tempo e suas escamas coloridas brilham no olho do boi enquanto tudo gira num silêncio onde fermentam as saudades guardadas nas gavetas e nos armários. E no quintal as galinhas ciscam o chão descobrindo o segredo de germinar minhocas.
A roda d’água gira sem parar, gira sonhos, gira vida,
gira o tempo de todos nós.


quinta-feira, 15 de novembro de 2012

SONRISAL E HALL'S



SONRISAL E HALL'S


Não dá para explicar o que é felicidade, refiro-me a essa sensação inebriante que sentimos após o impacto de uma “boa noticia”, uma surpresa agradável aos olhos, essa destilação de carinho.
Ficamos avessos a tudo, só o “alvo” de nossa felicidade é importante e então vem a tal sensação, parece que engolimos um Sonrisal inteiro e um Hall´s extra forte!! O peito quase explode, ferve, esfria, esquenta, esfria de novo... Um calor latejante em algumas partes do corpo e o famoso sorriso de quem esta apaixonada. Não... É mais que apaixonada. Amando, querendo, desejando, respirando, decifrando a pessoa  amada.
É assim, quero você, suas mãos, suas pernas, sua boca... Você todo, com seu alfabeto, com seus sonhos e tudo que faz parte.
Se você me perguntar agora, como isso aconteceu, eu não saberia responder... sei apenas que você “ligou” meus neurônios no instante primeiro em que minha alma passeou pelo teu jardim de rosas azuis e borboletas vocálicas e em estado de êxtase roubei teu mais lindo por do sol, recortei seu rosto e coloquei num, porta retratos, junto ao meu...coisa de criança?! Rsrsrs - Até pode ser, mas e daí?! Sou feliz assim, te quero assim, te quero de manhã, ao meio dia, a meia noite, a toda hora!!!!
Ah, mas eu só queria te dizer, agora, entre um suspiro e um sorriso, dizer obrigada por essa felicidade que me embriaga na hora de meu trabalho e me deixa nas nuvens, com essa cara de lua cheia, cheia de amor, vazando, transbordando amor, todo... todinho só para você.
Queria dar um beijo na sua boca, um não... vários, muitos, muitos,muitos...quero você!!!



O QUE É REAL?!



O QUE É REAL?!


Hoje tive um sonho... 
Eram pessoas com máscaras, destas máscaras venezianas. Talvez um baile não sei, mas passavam e esbarravam em mim vestidas de diabo... Tive medo. Corri... caí!
Caí aos pés de alguém. Senti meu corpo em calafrios quando mãos fortes me ajudaram a me levantar. Tentei ver o rosto, mas a máscara não me permitia, então me fixei nos olhos...Era você!!!Tinhas também uma máscara a cobrir-lhe o rosto. Tentei retirar, mas surgiam outra e outra e outra... Mas seus olhos me fitavam e sua voz me dizia “estou aqui”.
Meu olfato e ouvidos e demais sentidos me fazem entregar-lhe meu ser - corpo e alma rendidos sem inútil reação. És a ilusão tão bela e mascarada, tua carícia é uma aragem leve que de passagem me arrebata e aprisiona.
Escancaro sorrindo toda minha fantasia e você corre por minhas veias em minhas entranhas a diluir-se todo num oceano que nem sei explicar - apenas sentir e depois purificar meu corpo neste prazer que de ti, me foi dado inesperadamente como um sol fecundo.
Terei que acordar um dia...
...mas a vida e o sonho são iguais na febre desta loucura! 



segunda-feira, 12 de novembro de 2012

FLAGRANTES DA VIDA REAL



FLAGRANTES DA VIDA REAL


Na esquina onde me sentei para olhar o mundo, passa um gato faminto, um cachorro sarnento e um moleque perebento. Um balão de gás sobe ao céu enquanto uma boca se arreganha e chora um choro irritante de vogais nasaladas. A esquina se torce em cólicas – menstruais?!  Cólica também sente o travesti caricato que desceu do ônibus vindo do subúrbio e vai fazer ponto em frente ao Passeio Público junto com as “putas pobres” que cobram o “trabalho” em VT ou VR. A esquina sorri quando um pombo lança um “míssil” no ombro de mais desavisado que caminha pela calçada buscando a sobra das árvores. O Homem Nu olha de soslaio quando a ninfeta passa retocando os lábios com “glóss” purpurinado. O fotografo (retratista oficial do Passeio), tem um novo cavalinho, atrelado a uma charretinha e atende a mulher gorda, vestida de verde limão e  usando sapatilhas de plástico e batom rosa pink que trouxe a sua incontável prole de carinhas iguais, para dar comida aos macacos e tirar foto para mandar aos avós. A pequena charrete fica com as rodinhas “arriadas” tamanho é o peso dos risonhos "carinhas de lua" No ar, o cheiro de pipoca com bacon gorduroso, atiça até mesmo os pombos que se juntam aos bandos esperando pelos grãos de milho que não estouraram e serão jogados ainda quentes, quase atingindo os pés dos visitantes. Um grupo de “manos” vestindo roupas cor de rosa e tênis com cadarços gigantescos, se sentam na Ponte de Pedra e tomam “tubão” junto com as “manas” com seus pompons brancos nos cabelos e falam um idioma ininteligível.
Um bêbado ainda ressaqueado caminha pela grama procurando um lugar tranqüilo para dormir. Do lado de fora, além das grades e do portal centenário, um pastor tenta inutilmente chamar atenção dos transeuntes para a pregação das 18:00 hrs.
E lá no "Pasquale", o chope geladinho convida...mas todas as mesas estão ocupadas. Melhor mesmo é ficar só olhando a “tela” dantesca e ouvir os gemidos da esquina se dobrando de cólica.



terça-feira, 31 de janeiro de 2012

O HOMEM SÓ


O HOMEM SÓ

Pelo meio fio o homem arrasta os seus sapatos gastos. Parece contar mentalmente - um sim, um não, um sim, um não - os seus tristes passos. Caminha entre a tristeza e a solidão amarga de quem não possui ideal e vive um dia de cada vez. Anda na ponta dos pés e na ponta do mundo gira a vida de acordo com o vento - norte ou sul, tanto faz. A ordem dos instantes e os momentos se acabam na próxima esquina ou no próximo bar?! Sabe disso. Até ousa um pensamento, mas acaba engasgado no desatino que antecede a embriaguez. Este tempo é seu -, é nada mais que um esquadrinhar de horas convidando-o, a mais um gole. Será este o prazer do infinito descanso?! Ele queria fugir. Fugir com a bailarina do circo e beijar-lhe a boca vermelha apenas por um segundo [perpétuo?], lamentável é o turbilhão de sonhos que ficaram para trás, onde as suas mãos jogaram a última garrafa vazia, de uma bebida barata. O circo se foi. A bailarina coberta de purpurina também se foi. Não houve o beijo. Não houve nada. Entediado, escuta os latidos do vira lata sarnento que o acompanha  lambendo-lhe as mágoas. Brinca com ele. 'Sancho' -, é assim que o chama desde que se tornaram amigos de caminhadas, amigos de ruas e calçadas. São figuras quixotescas-, o homem esmolambado e seu fiel escudeiro sarnento, mas feliz enquanto sonha odores e carinhos. O homem olha seu olhar sobre o mundo e sorri. É assim mesmo - "tudo um imenso nada"! Sente um vazio no estomago igual ao das Carmelitas Descalças que jejuam e o fazem pela fé. Fé em quê?! Seria nestas noites frias que se avizinham das cegas janelas e  não atravessam as casas onde ele não pode se abrigar com seu cão sarnento?! Seria Fé nestas portas pesadas dos templos e igrejas sempre fechadas ou nas palavras espremidas entre dentes e bigodes aparados e bocas de riso amarelo?! Não, ele não tem fé, tem fome! Uma fome desencontrada, melancólica e dolorida. Tem fome de vida, tem fome de pão, fome de 'pinga', tem fome de ser gente. Mas ele sabe que é melhor não pensar e manter olhar entre o o meio fio e o asfalto e brincar com os dois. Pisar em falso, ora num ora noutro. E pensando nisso, arruma a touca puída e o cachecol no pescoço. Afaga a cabeça do cão e se vai pisando o meio fio - um sim, um não, um sim, um não... Tenho fome, não tenho. Sou gente, não sou...


segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A TEIA


 TEIA


A aranha tece sua teia enquanto eu olho o mundo tentando entender sua grandeza e comparando minha pequenez diante de tudo até mesmo da aranha. Tudo se encaixa perfeitamente neste fervilhar de ideias onde a energia torna-se parte real da nossa existência consolidada na teia da aranha. Fazemos parte dessa teia, assim como a aranha esta integrada em seu tear, fiando e tecendo seu próprio destino. Nós fiamos e tecemos nossas dores e nossas alegrias em grandes teares, assim como aranhas. Nós somos as aranhas verdadeiras. Penduradas em fios e alimentando a nossa diminuta existência na energia capturada em cada fio dessa teia. Assim, tecemos mais a cada dia e mais fiando, aumentamos a teia e mais energia será capturada, então, quanto mais capturamos, mais geramos e mais somos capturados fechando o ciclo da energia emanada de uma fonte semelhante – amor.



domingo, 23 de outubro de 2011

LIBERDADE


LIBERDADE


Às vezes penso que ser livre nos dias de hoje, me mantém mais presa que antes. O preço da liberdade é salgado e doloroso.
Afinal, a liberdade é uma bandeira que sempre desejamos levantar. Liberdade é vento, ventania e isso é divinal!
Ir e vir sem ter porque, sem ser questionado nem questionar, é o sonho azul de cada um. Era o meu sonho também. Eu imaginava assim...
Acordar, ver a “cara” do dia, respirar, tomar banho, comer e vestir meu belo jeans desbotado, tênis e camiseta e arrumar os cabelos... ah, meus cabelos tão longos e cacheados, soltos ao vento em protesto contra tudo que era liso e simétrico emolduravam um puro olhar. Um inocente olhar...
Meu perfume! Esse ainda é o mesmo, o meu cheiro, marca registrada -"Tamango", questão de gosto, pois existem outros.
Depois, ouvir música. De Jimmy Cliff e Bob Marley a Gilberto e Caetano, transitoriedades urbanas!
A porta se abre! Uma voz, um andar, um olhar incisivo...
E eu ali sentada, calada “bolada”, enquanto meu avô lia versículos do Alcorão - e eu pensando – “ que merda é essa” ?! Era a liberdade de poder pensar e pensar que mais tarde viria o padre rezar o terço e eu tinha que “comer” a Hóstia. Que conflito! Deus ou Allah?! Biquini ou hijab?!
Que merda é essa?! Eu não sabia o que pensar, pode?!
Hoje eu posso falar e pensar tudo que quiser, usar calça jeans rasgada, cabelos com luzes ou mechas, ir e vir, ponderar e decidir se vou dormir ou teclar mas, e daí?! O que mudou? Nada. Nada muda, é tudo sempre tão igual, meu avô ainda lê o Alcorão, crianças ainda são violentadas, ainda as guerras derrama sangue inocente,novas prisões são levantadas bem na nossa cara. Então a liberdade é só o poder de pensar “que merda”?! Mesmo assim, ainda dói porque tem que saber quando pensar e em quem pensar, senão, “ta fudido”! E como sou livre, posso gozar a sensação de dizer isso de boca cheia, sem ter os olhos de minha avó me fitando ou dedos em riste me dizendo - "Isso não pode". Mas ser livre para quê? De que me vale essa pseudo liberdade se estou presa a outras coisas, tantas regras, pode não pode! E o pior, é que estou presa pelo coração e essa é a pior prisão que existe, pois você nem me vê!
Nada mudou... saudades da minha avó sempre... véus que não caem...palavras que não são ditas...
Ah, só meus cabelos eu cortei!




sábado, 22 de outubro de 2011

TANATOS



O que eu vi, eu não sei se estava lá. Eu apenas distingui aquele escorrer vermelho, viscoso e frio num filete d’água diluindo-se no ladrilho branco até sumir pelo ralo levando o meu olhar e o meu silêncio. A vida restringia-se à larvas brancas contorcendo-se em desespero, boiando na água fria, deixando à vista apenas a cabeça escura e a fome voraz. O que eu conhecia por viver e estar viva disponibilizava somente um leve comentário sobre aquilo tudo. Não havia maneira de exteriorizar um sentimento ou mesmo um espanto – então me calei! Deixei o cheiro acre revelar-me a ausência purificada da Vida e o rasgar em tiras que, expondo a planura branca dos ossos nos dentes da serra e no fio da rugina me trouxe a presença da morte. Era uma questão de tempo. Mas o tempo é tão fragmentado que se dissipa ao menor disparo, transformando tudo, até o silêncio frio e branco da morgue e o revelar de fatos e "causa mortis". Nunca consegui entender o que existe de fato por trás daquelas portas e das fotos tiradas sem o menor pudor nem sinal de vida. Associando uma estranha presença de carne e sangue e restos de uma podridão onde as larvas fazem sua ceia, senti o quanto nos inquietamos diante da morte e do morrer. E ainda sem argumentações e acreditando na fragilidade da matéria, questionei-me sobre a projeção do espírito e esta lamurienta escuridão que nos afasta da compreensão e do esplendor do saber. O que seria apenas uma tarefa fácil, tornou-se uma questão crucial – a fragilidade e vulgaridade da matéria contrastando com a verdadeira existência daquilo que chamamos “alma”, e que, na realidade é uma imensa nebulosa de vibrações e significados que devemos aprender a ler enquanto matéria. Dando ainda uma última olhada naquele amontoado de proteínas e aminoácidos pulverizados deixei aquela sala fria e voltei para a luz do sol.



Ad Infinitum...