segunda-feira, 28 de novembro de 2011

A TEIA


 TEIA


A aranha tece sua teia enquanto eu olho o mundo tentando entender sua grandeza e comparando minha pequenez diante de tudo até mesmo da aranha. Tudo se encaixa perfeitamente neste fervilhar de ideias onde a energia torna-se parte real da nossa existência consolidada na teia da aranha. Fazemos parte dessa teia, assim como a aranha esta integrada em seu tear, fiando e tecendo seu próprio destino. Nós fiamos e tecemos nossas dores e nossas alegrias em grandes teares, assim como aranhas. Nós somos as aranhas verdadeiras. Penduradas em fios e alimentando a nossa diminuta existência na energia capturada em cada fio dessa teia. Assim, tecemos mais a cada dia e mais fiando, aumentamos a teia e mais energia será capturada, então, quanto mais capturamos, mais geramos e mais somos capturados fechando o ciclo da energia emanada de uma fonte semelhante – amor.



sábado, 12 de novembro de 2011

QUANDO AS DÁLIAS FLORESCEM


QUANDO AS DÁLIAS FLORESCEM


Sempre que vejo uma dália florescida, me lembro das suas palavras - “que linda!”...E se pudesse, ela certamente a levaria para dentro de casa e a coloria num vaso. Nossa casa tinha um imenso jardim e grande variedade de flores. Eram dálias coloridas, rosas, hortências, begônias, cravos, jasmim, gladíolos  e uma infinidade de samambaias, orquídeas e trepadeiras espalhadas pelos troncos das árvores do quintal. "Ela possui mãos abençoadas!" - todos diziam isso. Sempre que saía para um passeio, voltava com uma nova muda de uma flor diferente e nosso jardim crescia sempre e vivia florido.Ela era de uma docilidade típica dos anjos. Sempre tão solícita, tão espontânea  que era impossível não gostar de seu sorriso, de seus abraços, de sua amizade...Acho que fez tantos amigos quanto estrelas no céu. Nunca a ouvimos reclamar de qualquer coisa, mesmo essas, sem importância, tudo era fácil de ser entendido e aceito com dedicação. A vida era apenas um bom motivo para ser feliz e assim, ela distribuía seu carinho com as pessoas de seu convívio.Às vezes, eu sinto que cheguei abusar desse carinho... Fazia todo tipo de pedidos à ela, que prontamente me atendia, cobrindo-me de mimos. Sempre estava ao meu lado, protegendo minhas peraltices de criança e atenta aos perigos... Um anjo que Deus, colocou na minha vida para cuidar dos meus passos, atendendo meus caprichos e colorindo nossa casa com suas dálias.Infelizmente a vida tem suas surpresas. Numa brincadeira tola, aconteceu o acidente. Uma queda - que interrompeu toda essa emanação de carinho. Houve a queda, a dor e como consequência, os quatro anos de tratamento com fisioterapia, massagens e injeções e tudo isso em vão. Na persistência dos sintomas e comprometimento motor, foi decidido pelos nossos pais (isso depois de muitos exames), que a cirurgia era o mais indicado para a descompressão do nervo ciático...E pela primeira vez, nós vimos o medo em seus olhos e uma negativa em suas palavras. Mas a cirurgia era inevitável; aconteceu no final de junho de 81. Coincidentemente, era nosso aniversário no mês seguinte. Ela no dia quatro, eu no dia seis e como sempre, comemorávamos com uma unica festa. Juntas, cúmplices na alegria dos presentes, nos amigos, nos sorrisos e no sopro das velas...Mas em 1981, pela primeira vez não houve festa, ela estava no hospital. Não teve bolos e nem os presentes, apenas o seu olhar aos amigos que levaram a ela, um abraço e carinho até seu leito, de onde ela sorria retribuindo... Não aconteceu uma festa, não teve bolos, nem presentes - só as velas e as flores. Mas essas velas que foram acesas no dia 11 de julho de 1981, eram velas tristes... Chorando um pranto silencioso, escorrendo em suas lágrimas de cera quente, a dor... Teve flores, muitas, muitas flores coloridas e coroadas de silêncio e pesar. Todos os abraços que eu recebi naquele dia foram de tristeza e em todos os olhos que eu olhei, vi apenas tristeza e dor banhada de lágrimas. O silêncio dos meus pais era pesado, ausente e morno... Triste foi o beijo que deram em seu rosto frio...Um beijo de 'adeus' separando-os do convívio com ela nesta existência física. Aquele beijo foi à coisa mais triste que eu já vi e senti; meus pais perderam uma filha e isso contraria a lei natural da vida... E eu, eu perdi minha irmã, minha única irmã. O meu anjo doce de candura. Doce como seu nome Dulce... doce...dolce...dolce Dulce, adeus.


...para você minha irmã, toda minha saudade.



quarta-feira, 2 de novembro de 2011

CONVERSAS PRÁ BOI DORMIR - 'DOCE COMO MEL'


CONVERSAS PRÁ BOI DORMIR - 'DOCE COMO MEL'


O relato que segue abaixo é trecho de uma carta de um colono da fazenda, enviada ao meu pai. É bastante hilária, por isso foi guardada até hoje...“...cumu eu tinha promitidu, o tár do mér de abêia pura, sem mistura de guarapa... nóis achêmo uma caxa di abêia, dessa preta... Orópa, nus ladu das terra du Cróvis japoneis, aqueli qui tem as terra prantada di tomati, í que faiz diviza cas terra lá nu fundo, perto do capão dí matu, o sinhor se alembra deli, num é?


Bem, trêis ontonti, nóis rezorvêmo de í tirar o mér. Juntei o Nérso, u Dito, cumpadi Tunim, mais Gimíro, seu afiado, peguêmo us cachorru, o fumegadô, mais umas paia de mío e si lasquemô no carreado até o tronco caídu dondi tava as abêias. Só que a Tiana, a Bertrudi e a marditá da minha sóga, veia Térvina, fôru di atraiz.

A Bertrudi, eu sei...tá di zóio cumpridu pur causa du Cróvis, u japoneis dus tomati, mas a veia Térvina foi obra du capeta memo!!!
Nóis tudo arrumadim pra módi pega as abêia di surpresa, í dirrepenti aquela falação dus infernu... Oiêmo pra cima í tava vindo duas gráia mais uma araponga de cabeça branca...

Gritei qui si quietassem í fossi pra otrô lado, mais u diabu da veia gritô que tava cus intestrino disarranjado í tinha que se aliviá... Visão dus infernu!!!
A veia Térvina, foi pá ditrais duma moita, quanto cumeçô a levantá as saia, escurregô num monti di bósta das vaca, e rolô barranco a baxô, inté batê nu tronco donde tava as abêia!!!

Dotô Musês, me arrespondi... Purque que Deus feiz a muié cum boca?! Praga pior que furmiga saúva, pior que gafanhotu...num tem iguár!!
A pésti da veia bateu nu tronco, sustô as abêia...e foi só abêia saínu di ferrão prontinhu pra mordi aferrá nóis. Eu saí correnô e me apinchêi no córgo dágua, mais u restu...bem, a véia cumu caiu ca saia levatada, as abêia pegô nas parte báxa, ta que num pódi fechá as perna...us cachorro, bão quí são, infrentaru as abêia cumu dêu, latia e engulia abêia, latia e ingulia abêia...

A Bertrudi, proveito e sumiu prus lado dus tomatêro du japoneis, a Tiana, sinfiô numa capuêra, u resto ta cum a cara inchada que nem pódi falá...dózinha di Gimíru, inté cumida tem qui se di canudinho!!! U Valenti, meu cachorro ta sortano abêia nas féiz quando óbra... Isso já faiz três dias du acuntecido...

Óia dotô Musês, nóis pede discurpa, pro senho e pra dona Ira, mas num deu pá pega o mér não, as abêia num tava pra brincadera não, intão, a Tiana ta mandano pelo cumpadi Tunin, us vidro di cumpota de carambola que a minina Mariame gosta e no lugá do mér, ta indu memô é melado di cana caiana, doce cumô mér di abêia...”



quarta-feira, 26 de outubro de 2011

ÁGUAS VERMELHAS



ÁGUAS VERMELHAS

A tendência de tudo nesta vida é "passar", como passam as horas. Passam as chuvas, as nuvens, as estações, ondas no mar.Passam as carroças e seus cavalos magros e suarentos, os cachorros com seu olhar triste, as prostitutas velhas e cheirando a naftalina.
A batina do padre furada pelas traças, tudo passa. A dor de barriga, o homem que vende bilhetes [olha a borboleta!], a mulher que pede esmolas, o irmão que vai embora, o amigo que se casa...
A faculdade que termina, a briga que se acaba, o pão que amolece, a fruta que apodrece, a boca sem dentes, o sorriso sem graça.
Tudo nesta vida é passageiro, assim como viajantes de um trem, passageiros de um avião, de um balão, de um sonho...
Passam as risadas, a pele macia, as pétalas das rosas, o silêncio dos olhos, a fome da barriga, a sede das bocas. Até o seu amor por mim passou...
Só não passam as águas vermelhas. Águas paridas em sofrimento, rasgando abrindo as entranhas da terra, vertendo em jorros, escorrendo, tingindo meus olhos deste vermelho sangue...

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O COLAR DE PEDRA AZUL


O Colar de Pedra Azul


Nos tempo do casarão azul, para onde as crianças da minha família eram levadas no período das férias, dando sossegos aos pais e atormentado a avó; existiam lugares que para nós eram proibidos. O escritório de meu avô, o quarto de vestir onde minha avó guardava seus tesouros - seus baús, seus leques, seus chales de renda e seda, e, claro, a despensa! Ficava “pegadinho” à porta da cozinha – paraíso de todas as guloseimas da casa.

Nossos dias eram longos, acordávamos com o sol bem a tempo de ver a retirada do leite, a alimentação dos cavalos, carneiros, porcos e demais moradores do pátio da fazenda... Após o café reforçado, estávamos livres para brincar naquele paraíso tropical.
Eu, sendo ainda muito pequena não podia me afastar muito dos olhos de minha avó devido ao perigo de alguma cobra, ou do rio de corredeiras fortes e os bois. Alguns até “alongados”, o que os torna mais perigosos, segundo os peões da fazenda. Então eu ficava por perto e quando alguém se descuidava, eu via a chance de excursionar pelos lugares proibidos da casa. Meu avô sempre estava lendo em seu escritório ou na varanda, fumando seu narguilé, então restava o quarto principal - no alto da escada, porta sempre fechada – mistério!

Era um quarto amplo, arejado, com móveis austeros. Tudo muito limpo e arrumado, com cheiro de lavanda inglesa [eu acho] e o quarto de vestir insinuava-se cheio de prateleiras, com muitas caixas e os baús de todos os tamanhos. Não foi possível conter-me! Entrei e peguei um bauzinho de couro marrom com cantoneiras douradas [um tanto gastas], mas bonitas. Por sorte, não tinha chave - “Esta aberto”! Virei tudo em cima da cama.  Me sentei na cama e espalhei o tesouro de vovó, na colcha de crochê! Eram anéis de pedras grandes e pequenas, pedras coloridas, broches, fivelas para cabelos, alfinetes de gravata, os relógios de meu avô [um deles tinha uma tampinha!] cordões e intermináveis perolas perfeitas. E a coisa mais linda que meus olhinhos já tinham visto! Um colar de perolas trançadas e com um pingente de coração com uma pedra azul.

Foi amor à primeira vista! E ao primeiro susto! Minha avó entrou. Me olhou, eu ali, muda, no meio dos broches e anéis... Ela sentou-se em silêncio. Eu havia quebrado as regras da casa! Sabia que seria castigada, mas para minha surpresa, vovó começou a retirar suas coisas delicadamente e guardando-as no bauzinho foi contando a história de cada peça e o que significava para ela.

Quando chegou ao colar em minhas mãos, falou sobre a pedra azul, sobre como eram feitas as perolas,mostrou-me o trabalho delicado do ourives, nos engastes das pedras e delicadamente como sempre fazia tocou em meu queixo levantando meu olhar até o seu, falando-me: –“Meu amor, ainda é muito cedo para você usar estas coisas, mas um dia vou presentear todas as minhas netas com uma lembrança minha. Isto que você tem nas mãos, são apenas pedras bonitas, não se comparam ao meu tesouro maior – seu avô, meus filhos e meus netos e netas. Vocês são o verdadeiro tesouro.E as coisas verdadeiras moram no coração. O resto Mariame, são apenas pedras bonitas"...
Entendi o recado – nunca mais abri o baú...



para minha avó, que caminha pela minha memória.




AS BORBOLETAS NÃO MORREM


As Borboletas Não Morrem

Minhas férias escolares sempre foram motivo de muita alegria - era a própria liberdade na fazenda dos meus avós - promessa de longos dias de aventura pelas matas, banhos de rio, cavalagada pelos pastos com o vento no rosto. A noite as histórias do meu avô.


Era o meu País de Faz de Contas. Onde tudo era possível, onde eu era a princesa, soberana de todas as histórias - que mais eu poderia querer?!
Meu avô era mestre em contar histórias de lugares distantes, de um povo guerreiro, de princesas de olhos negros e pele de veludo - "meus olhos não são escuros"! - Ele respondia sorrindo -"Mariame, seus olhos tem a cor das areias, da dunas".


Essas histórias povoaram minha mente por anos e junto com meu avô, conheci o milagre da vida, no nascimento de potros e bezerros, na transformação de flores em frutos, na maturação destes frutos e o surgimento da semente.Vi também a mão certeira da morte colhendo suas vítimas e o séquito de seguidores sobrevoando a espera do banquete.

Tudo me foi passado de uma maneira tão doce quanto o mel que colhiamos dos favos e lambuzavamos nossos dedos aproveitando cada gota dessa dádiva de Deus. Ficavamos horas intermináveis deitados na sombra das pitangueiras ouvindo o baque surdo do monjôlo e outras horas mais, olhando os peixes descansando por baixo das ninféias em flor. Tudo em perfeita comunhão com o universo pulsante de insetos e pássaros que nos brindavam com sua melodia.

Uma tarde, meu avô levou-me a um lugar secreto. Um olho dágua!! Uma lágrima da Mãe Terra, pronta para saciar nossa sede. A terra em volta da mina dágua, era úmida, coberta de bambus e taqueras numa sombra referscante. Foi uma visão do paraíso descortinando-se aos meus olhos. O chão coberto de borboletas. De todas as cores, de todos os tamanhos.
Pousavam na areia úmida, desenrolavam sua língua-tromba e sorviam água para depois voar e pousar mais além. Quando aproximei-me, todas voaram.


Me senti num carrossel de anjos coloridos que esbarravam em mim, eu, tentando pegá-las e meu avô em gargalhadas dizia-me "são fadas, faça o seu pedido". - Um desejo do coração de uma criança pode tudo. Então percebi algumas borboletas imóveis no chão - mortas! Não voam mais - mortas! Fiz o meu pedido.

Pedi para que as borboletas nunca mais morressem, que fossem voando para o céu e assim ficassem como anjos em nossos sonhos. Talvez, hoje meu avô esteja com alguma borboleta pousada em sua mão, como ele fazia..."veja Mariame, ela veio me dar bom dia".


para meu avô - vivo na minha memória.

domingo, 23 de outubro de 2011

LIBERDADE


LIBERDADE


Às vezes penso que ser livre nos dias de hoje, me mantém mais presa que antes. O preço da liberdade é salgado e doloroso.
Afinal, a liberdade é uma bandeira que sempre desejamos levantar. Liberdade é vento, ventania e isso é divinal!
Ir e vir sem ter porque, sem ser questionado nem questionar, é o sonho azul de cada um. Era o meu sonho também. Eu imaginava assim...
Acordar, ver a “cara” do dia, respirar, tomar banho, comer e vestir meu belo jeans desbotado, tênis e camiseta e arrumar os cabelos... ah, meus cabelos tão longos e cacheados, soltos ao vento em protesto contra tudo que era liso e simétrico emolduravam um puro olhar. Um inocente olhar...
Meu perfume! Esse ainda é o mesmo, o meu cheiro, marca registrada -"Tamango", questão de gosto, pois existem outros.
Depois, ouvir música. De Jimmy Cliff e Bob Marley a Gilberto e Caetano, transitoriedades urbanas!
A porta se abre! Uma voz, um andar, um olhar incisivo...
E eu ali sentada, calada “bolada”, enquanto meu avô lia versículos do Alcorão - e eu pensando – “ que merda é essa” ?! Era a liberdade de poder pensar e pensar que mais tarde viria o padre rezar o terço e eu tinha que “comer” a Hóstia. Que conflito! Deus ou Allah?! Biquini ou hijab?!
Que merda é essa?! Eu não sabia o que pensar, pode?!
Hoje eu posso falar e pensar tudo que quiser, usar calça jeans rasgada, cabelos com luzes ou mechas, ir e vir, ponderar e decidir se vou dormir ou teclar mas, e daí?! O que mudou? Nada. Nada muda, é tudo sempre tão igual, meu avô ainda lê o Alcorão, crianças ainda são violentadas, ainda as guerras derrama sangue inocente,novas prisões são levantadas bem na nossa cara. Então a liberdade é só o poder de pensar “que merda”?! Mesmo assim, ainda dói porque tem que saber quando pensar e em quem pensar, senão, “ta fudido”! E como sou livre, posso gozar a sensação de dizer isso de boca cheia, sem ter os olhos de minha avó me fitando ou dedos em riste me dizendo - "Isso não pode". Mas ser livre para quê? De que me vale essa pseudo liberdade se estou presa a outras coisas, tantas regras, pode não pode! E o pior, é que estou presa pelo coração e essa é a pior prisão que existe, pois você nem me vê!
Nada mudou... saudades da minha avó sempre... véus que não caem...palavras que não são ditas...
Ah, só meus cabelos eu cortei!




sábado, 22 de outubro de 2011

TANATOS



TANATOS


O que eu vi, eu não sei se estava lá, apenas distingui aquele escorrer vermelho, viscoso e frio num filete d’água diluindo-se no ladrilho branco até sumir pelo ralo levando o meu olhar e o meu silêncio. A vida restringia-se à larvas brancas contorcendo-se em desespero, boiando na água fria, deixando à vista apenas a cabeça escura e a fome voraz. O que eu conhecia por viver e estar viva disponibilizava somente um leve comentário sobre aquilo tudo. Não havia maneira de exteriorizar um sentimento ou mesmo um espanto – então me calei! Deixei o cheiro acre revelar-me a ausência purificada da vida e o rasgar em tiras que expõe a planura branca dos ossos nos dentes da serra e no fio da rugina, trazer-me a presença da morte. Era uma questão de tempo. Mas o tempo é tão fragmentado que se dissipa ao menor disparo, transformando tudo este silêncio frio e branco da morgue e o revelar de fatos e "causa mortis". Nunca consegui entender o que existe de fato por trás daquelas portas e das fotos tiradas sem o menor pudor nem sinal de vida. Associando uma estranha presença de carne e sangue e restos de uma podridão onde as larvas fazem sua ceia, senti o quanto nos inquietamos diante da morte e do morrer. E ainda sem argumentações e acreditando na fragilidade da matéria, questionei-me sobre a projeção do espírito e esta lamurienta escuridão que nos afasta da compreensão e do esplendor do saber. O que seria apenas uma tarefa fácil, tornou-se uma questão crucial – a fragilidade e vulgaridade da matéria contrastando com a verdadeira existência daquilo que chamamos “alma”, e que na realidade; é uma imensa nebulosa de vibrações e significados que devemos aprender a ler enquanto matéria. Dando ainda uma última olhada naquele amontoado de proteínas e aminoácidos pulverizados deixei aquela sala fria e voltei para a luz do sol.






NOIVAS DO CAFEZAL





NOIVAS DO CAFEZAL


Debaixo de um sol de 40°graus, elas suavam. Com seus corpos cobertos, deixando à mostra, apenas as mãos calejadas e grossas. O rosto era protegido do sol pelo chapéu e pelo lenço de pano branco. Nos pés, pesadas botinas encarquilhadas, protegiam-nos contra os espinhos e gravetos das leiras no meio do cafezal.

Elas sempre estavam sorrindo e cantando alguma música das paradas de sucesso da época. Na maioria das vezes, Roberto Carlos, eu acho (não me lembro bem). Sei apenas que cantavam enquanto faziam a derriça do café. Isso atenuava o trabalho cansativo de segurar as ramas cobertas de frutos vermelhos e com as mãos puxar com força para fazer os frutos se desprenderem do galho e cair na peneira...

Isso era feito com todo carinho, retirando apenas os frutos maduros. Quando a peneira estava com uma quantidade suficiente, elas sacudiam de maneira que os frutos subiam junto com as folhas e eram separados, como que por magia ainda no ar, caindo novamente na peneira e as folhas indo para o chão...

Durante toda a manhã, até quase onze horas, era assim, a cantoria, a derriça, o abanar e as folhas verdes pelo chão... Então, elas olhavam a posição do sol e a própria sombra projetada no chão coberto de folhas e deixavam suas peneiras junto aos pés de café, reuniam-se na sombra de alguma mangueira próxima e começavam a preparar o almoço - requentado. Faziam um fogão improvisado com duas pedras que já estavam separadas para essa finalidade, chamavam as crianças para buscar gravetos e acendiam o fogo. A comida estava guardada em pequenos "caldeirõezinhos" com tampa e cobertos com um pano de saco branco e alvejado, sempre com algum bordado de flor numa das pontas...

Enquanto a comida esquentava no fogão improvisado, elas colhiam a "mistura", ali mesmo, no cafezal. Eram pepinos e maxixes espinhentos que se
alastravam pelas leiras, almeirão do mato, serralhas ou beldroegas de folhas gordas e verdes... Tudo era lavado com água trazida nas moringas de barro, que ficavam guardadas junto ao tronco de um pé de café para manter a "frescura", e depois de limpas, eram temperadas com sal, azeite e limão numa bacia de alumínio. Era uma salada coletiva. Todas serviam-se da mesma.

Nos caldeirõezinhos - arroz, feijão, farinha e um pedaço de charque ou carne de porco, destas que elas fritavam em pedaços grandes e guardavam numa lata com a própria banha e sempre tinha um ovo frito ou cozido, com sua gema amarelo forte, diferente até no gosto, comparados aos ovos que eu comia em minha casa...

A sobremesa sempre era melão caipira, melancia, manga, araticum ou mamão, frutas que eram 'praga' no cafezal. Aquilo tudo para mim era uma festa. Um manjar dos deuses. Comia sem pestanejar. E enquanto fazia a minha refeição, sentada à sombra, eu olhava para elas. Via os seus rostos - algumas eram jovens, outras eram mais velhas, mas todas me pareciam felizes.


Eu sentia a amizade delas, o carinho umas com as outras, sempre dividindo o pouco que tinham... Nas minhas férias eu sempre estava por lá, acompanhando meu pai e aprendendo com ele o amor pela terra e o respeito que devemos ter pelas pessoas que trabalham a terra. Eu era entregue aos cuidados de dona Olinda, que sempre preparava um "caldeirãozinho" para mim, tendo o cuidado de colocar mais feijão do que arroz e já sabendo da minha preferência ela fazia isso de 'coração alegre' - como sempre dizia.


Depois do almoço, as crianças voltavam às brincadeiras, e elas, ao cabo do rastelo e as ramas do cafeeiro. Isso varava a tarde. A cantoria das pombas, dos bem-te-vis, dos anús era sempre ouvida. E ao longe o mugido triste dos nelores dava notas melancólicas anunciando o fim do dia. Elas enxugavam o rosto e descansavam suas peneiras e seus rastelos, chamavam novamente as crianças e lavando as mãos, dividiam entre nós um pedaço de bolo de fubá ou pão doce e uma caneca de caldo de cana, trazidos de casa. Enquanto comíamos o lanche, elas recolhiam suas coisas e seguiam em fila, pelo meio do cafezal indo para suas casas, alegres por mais um dia de trabalho. Deixando para trás aqueles pés de café, gigantes para minha pequenez.

Quando me lembro da primeira vez que meu pai mostrou-me um pé de café florido de cima a baixo, imaginei uma noiva toda de branco, coberta de flores perfumadas onde as abelhas vem buscar o seu alimento... Ainda hoje não conheço nada mais belo que um cafezal em flor, embalado pela cantoria das mulheres e suas mãos carinhosas, mas aquele cafezal onde brinquei tantas tardes existe somente em minhas lembranças, assim como o gosto doce de seus frutos estarão comigo para sempre...


para dona Olinda e seu Otávio presos na minha memória

CIO



CIO


Em noite de lua cheia, ela sentia uma comichão nas “partes” e um calorão que subia e subia até lhe entontecer o juízo. E era um calor danado, mais quente que o tição em brasa, muito mais quente que o “bafo” do Cão.

Ela soltava os cabelos enovelados, segurava a saia rodada feita de chita florida e saia em disparada com os seios balançando soltos dentro da blusinha branca.Corria, feito louca. Corria até que lhe faltasse o ar. Então caia, com o corpo retesado, cravejado de gotas de suor e a boca espumando uma saliva espessa e branca. Rolava no chão e urrava feito bicho, feito loba faminta - arranhando as coxas e mordendo os lábios.

A lua, aparecia meio escondida entre as nuvens e olhava assustada para aquele bicho lá embaixo se espojando nas folhas secas, babando e gemendo, se contorcendo no chão.
Às vezes o vento trazia refrigério para aquele corpo em chamas e benzia aqueles pés afoitos que se enterravam na areia úmida das barrancas do rio onde ela se refugiava.

Era uma loba. Uma loba faminta de carne. De sexo. Faminta de vida pulsando dentro do seu corpo e alimentando-a com estocadas profundas. Só isso a deixava saciada. Fazia com que ela voltasse a ser dócil, quase angelical. Mas a rezadeira havia feito um encanto.Tinha trazido um “cozido de ervas” e com isso, feito um esfregaço em seu corpo para “afastar” os demônios que a possuíam. E também o colar de ossos e sementes de cheiro para manter afastados os desejos. De nada adiantavam as poções e patuás da velha bruxa, quando a noite chegava quente, fazendo o seu sangue ferver.

Ela corria solta, rasgando as roupas e buscava o corpo de Berto, para acalmar a “comichão” e quando não o encontrava, ficava assim, feito um bicho se consumindo na fome da própria carne
Até se sentir aliviada e adormecer ali, no meio do mato sobre as folhas secas onde somente o vento vinha rezar os seus pés descalços.




O MORTO


O MORTO


No asfalto quente e rachado a refração dança diante dos olhos de quem se atreve a enfrentar as crateras fumegantes espalhadas pelo chão.Tudo é silêncio. Uma pasmaceira de morte. Nem os pássaros cantam. Nem as flores se abrem. Apenas um sino quebra a modorra do dia. Alguém morreu!
Lá, na capela mortuária tem um corpo rijo deitado dentro de um caixão. Coberto com flores de tecido embebidas em essência de lavanda para disfarçar o cheiro da morte.
Olhei detalhadamente o rosto do morto. Parecia feito de cera e os olhos meio abertos pareciam gelatina. Os lábios estavam colados mantendo-se unidos e repuxados deixando um semi-riso na boca seca.
A barba feita às pressas deixou um caminho de pelos para lá e para cá. Mas o nariz!... Infelizmente deixaram aquelas pontas de algodão aparecendo e avolumando as abas do nariz aquilino do falecido. E alguns pelinhos que faziam às vezes de antenas de insetos de tão grandes que eram.
Alguém devia ter tido a misericórdia de cortá-los. É lastimável chegar aos portões do Paraíso e ficar frente a frente com São Pedro tendo aqueles “pelinhos” saindo das narinas entupidas com algodão.
Mas o morto está morto! Não pode protestar. Não pode rir das piadas sem graça ou mesmo ser solícito com a viúva e seu choro de gato asmático.

Não pode descruzar os dedos, soltar as mãos e espantar aquela mosca zombeteira que passeia solene pelas bochechas amarelecidas parando vez ou outra para esfregar as patas. Todos veem a mosca, mas ninguém faz nenhum gesto para espantá-la. Ficam apenas cochichando entre uma olhada e outra para a cara do morto.
Uns dizem que ele, o morto, era “crente” e não poderia estar com velas acesas nos quatro cantos do caixão nem o enorme crucifixo norteando a sua passagem, mas a viúva não diz nada e continua com seu choro fino enquanto na copa as mulheres preparam o lanche para a “virada da noite”.
De repente aquele cheiro de café fresco que mais parece chá, de tão transparente que é[fraco e doce] e o incontestável cheiro de mortadela com pão. Uma criança derruba o pão. Senta-se no chão de ladrilhos vermelhos e respingados de cera de vela, apanha o pão e a mortadela e come tranquilamente sob o olhar indiferente da mãe. De onde estou fico pensando - Filho de pobre é imune a quaisquer micróbios de capela mortuária! – rsrs.
Chegam numa perua Rural azul e branca o Pastor e os obreiros para resgatar a alma do “irmão desviado” e garantir o seu lugar no céu. As “irmãs” aglomeram-se ao redor da viúva e começam a árdua tarefa de fazê-la parar de chorar e confirmar que o morto pertencia à irmandade para que se pudessem retirar as velas e o crucifixo e salvar a alma do pobre das labaredas do inferno.
Ela, a viúva deveria acertar os dízimos devidos à igreja garantindo com isso a entrada segura do morto. A mãe do morto que assistia tudo silenciosamente levanta-se calmamente e chega até o pastor, abre sua Bíblia e retira um papel encardido e dobradinho e mostra ao pastor dizendo que aquela era a passagem do filho dela para o reino dos céus - certidão de batismo na igreja católica.
Fez-se um silencio total onde se podia ouvir o zumbido da mosca. O pastor ainda tentou argumentar, mas a entrada do padre o deixa desarmado. Ficam frente a frente padre e pastor. Ninguém ousa dizer nada só uma criança chora pedindo mais “mortandela”.
O padre de batina preta aproxima-se do morto, abre a sua maletinha retira a Bíblia e o hissope e começa aspergir água benta sobre o morto virando-se repentinamente atinge o rosto do pastor e algumas obreiras que estavam perto. –“Ô pastor Eládio, mil perdões, mas me parece que o Todo Poderoso pressentiu a sua “secura” e resolveu dar de beber a quem tem sede”.
Olhando lá de cima, da varanda da capela mortuária pude ver que a lanterna traseira da velha Rural estava queimada enquanto ela descia a rua sacolejando nas crateras do asfalto precário. A noite se arrastou entre risos abafados, piadas sem graça, choros, cheiro de velas, cheiro café e “mortandela”. E na manhã seguinte o morto foi enterrado com os dedos cruzados sobre o peito e um risinho diferente nos lábios.