sexta-feira, 30 de novembro de 2012

HELENA MEIRELLES - O SOM DA VIOLA


HELENA MEIRELLES - O SOM DA VIOLA

Helena Meirelles nasceu no Mato Grosso do Sul na então fazenda Jararaca entre Campo Grande e o Porto 15 no Rio Paraná, divisa com estado de São Paulo. Filha de Ovídio Pereira da Silva, um boiadeiro paraguaio e Ramona Vaz Meirelles. Teve uma vida simples e sem instrução alguma. Viveu numa época de muitos preconceitos contra a mulher.

Sempre fascinada pelo som da viola caipira que ouvia ao passarem as comitivas onde os peões mesclavam o som das cordas com o som choroso dos berrantes. Menina ainda Helena resolve aprender a tocar viola. Passa horas atenta aos violeiros e aprende a tocar sozinha. Aos 17 anos, por imposição do pai casa-se para logo abandonar o marido e juntar-se a um boiadeiro paraguaio que tocava violão e violino. Sua impetuosidade a faz deixar também o companheiro e segue sua vida tocando sua viola onde houvesse gente para ouvi-la. Percorre muitas cidadezinha situadas as margens das estradas boiadeiras sempre com a viola nas mãos. Casa-se pela segunda vez. Nos momentos de crise, “se vira” como prostituta, lavadeira, cozinheira, faz rezas e também é parteira trazendo ao mundo muitas crianças, amparando-as com as mesmas mãos rudes que dedilha as cordas criando belas modas de viola com o sotaque sertanejo e forte do folclore indígena.

A vida desregrada, as farras e a bebida lhe são cruéis.Com a pele enrugada e uma magreza acentuada, Helena segue tocando, materializando sua musica de raiz sob forte influência do ritmo paraguaio, entre eles o Chamamé, Rasqueado e Polca. É reconhecida pelos sul-mato-grossenses como “expressão das raízes e da cultura da região”. A aparência frágil contrasta com a mulher calada que passa horas tocando para prostitutas, boiadeiros e gente que chega aos vilarejos enquanto amamenta um dos muitos filhos por detrás da viola. Nestas andanças entra o terceiro marido com quem vive a trinta e cinco anos. Teve onze filhos e reluta em deixar a vida boemia até finalmente desaparece por mais de trinta anos e reaparece doente e socorrida pela irmã é levada para São Paulo para tratamento médico. Foi através de Inezita Barroso que seu trabalho começou a ser divulgado fora do eixo Mato Grosso/sul de São Paulo. Helena apresenta-se no programa Mutirão, na radio USP de São Paulo e logo a seguir no programa Viola, minha viola, na TV Clora. É finalmente descoberta pela mídia através de um sobrinho que grava suas modas de viola e envia para uma revista americana especializada no gênero, a “Guitar Player”.


Aos 67 anos Helena Meirelles sobe num palco pela primeira vez gravando seus discos logo em seguida. Em 1993 a mesma revista Guitar Player elege a violeira como Instrumentista Revelação do Ano com o Prêmio Spotling de 1993 por sua desenvoltura nas violas de 6, 8, 10 e 12 cordas, chegando a ser comparada a guitarristas famosos como Eric Clapton e Keith Richards (Rolling Stonnes).Desde então passou a ser valorizada por grandes nomes da música sertaneja de raiz e chegando a tocar ao lado de Tonico e Tinoco, Almir Satter e outros. Em 2006 a gaúcha Dainara Toffoli dirige o filme-documentário sobre a fantástica figura de Helena Meirelles – Dona Helena apresentado na TV Cultura. A base da narrativa está por assim dizer, nas entrevistas, nos depoimentos de pessoas, trechos de shows, e são apenas elementos figurativos nesta história. “ Uma seqüência onde aparece uma menina arrastando um violão sobre a terra seca, cria uma visão poética acentuando o simbolismo em questão” uma imagem pertinente e um personagem extremanete riso nos faz pensar se a retórica é verdeira. Mas levando-se em conta as palavras do diretor da revista Guitar Player"Quando morrer, vou saber se estou entrando no céu se ouvir Jimi Hendrix ou Helena Meirelles” tudo torna-se válido enquanto se puder ouvir a música verdadeira. A Grande Dama da Viola morre aos 81 anos pouco antes de ser exibido o documentário.


Eu só queria ser eu! Dona do meu nariz e da minha direção.”
Helena Meirelles – 13/08/1924 -29/09/2005

Informações retiradas de Sites da Internet.

APITOXINA - O VENENO


APITOXINA - O VENENO


No Egito antigo as abelhas eram tidas como insetos sagrados. Cleópatra buscava um veneno letal para ser usado nos inimigos e condenados à morte. A rainha desejava uma substancia de ação rápida que levasse o infeliz à morte sem maiores sofrimentos. Após tentativas dolorosas, chegou-se a conclusão que o veneno mais letal era o das vespas. O indivíduo após ter recebido uma quantidade do veneno, era acometido de suores, desmaio e morria rapidamente.

Nos dias atuais, o uso do veneno da abelha passou a ser benéfico para o homem mesmo em alguns casos, ainda sendo letal. O veneno da Ápis sp, também é usado como medicamento para diversos males. A apitoxina é uma substância complexa, composta de aminoácidos, açúcares, histamina, água e outros componentes, mas sua utilização como medicação deu-se pela observação de apicultores que eram constantemente picados pelas abelhas e deixaram de sentir as dores do reumatismo. As abelhas mais indicadas para coleta da apitoxina são as africanas ou africanizadas, que já existem em grande quantidade no Brasil possibilitando o manejo de forma rentável. O que ainda não existe, são publicações científicas a respeito dos benefícios do uso da apitoxina mas, na acupuntura usa-se a picada da abelha obtendo-se ótimos resultados, assim como no tratamento de artrites, traumas, cicatrizes, inflamações comuns, bursites e diabetes.
A apitoxina é recomendada somente como pomada para uso externo pois o veneno tem absorção rápida e o uso de comprimido sublingual ou injeções, dependendo da tolerância ao veneno, poderia ser fatal.

Atualmente na França e em outros países da Europa existem clínicas especializadas em apiterapia, obtendo-se um resultado bastante positivo no tratamento do reumatismo. No Brasil as pesquisas caminham timidamente. Experiências feitas com pessoas portadoras de reumatismo, mostram que os benefícios são maiores que os riscos de um choque que poderia levar o indivíduo à morte.
Isto prova, que as abelhas além do mel, própolis e geleia real, podem fornecer um outro benéfico ao ser humano. Para que o mesmo possa ser pesquisado e comercializado necessita de um aval do Ministério da Saúde e a coragem de pesquisadores que se sujeitem a "ferroadas" em nome da ciência.




UMA CARTA


Olá...

Eu preciso conversar com alguém, falar de mim, de minhas dúvidas, minha incertezas e como você conhece minha alma, resolvi escrever...

Hoje de manhã eu chutei pedras que estavam pelo chão. Senti uma necessidade de jogar para longe tudo aquilo que eu não estava entendendo.

Essas pedras soltas... Meu caminho... Tinha que chutá-las. Creio que você sabe o que estou sentindo. Afinal, conhece a vida melhor que eu, sabe de todos os meandros que eu desconheço, talvez tenha sido isto o balde de água gelada que me atingiu. Até mais fria que a água do banho. Ontem, eu me senti 'estranhamente' possuída por uma quase paz, então, água! Frio!! Vazio!!!

Deve-se isso, a essa minha fluidez. Seres etéreos volitam enquanto seres densos pisam o chão. Olho para os meus pés, vejo sapatilhas de Ballet. Caminho com minhas sapatilhas sobre o fio da lâmina contrastando com seus sapatos de couro. Seria eu o avesso de sua densidade, e, por isso estabeleceu-se esta simbiose?! Seria isso?! Minha fluidez fazendo contrapeso à sua densidade?!

Não é possível! Criaturas que esvoaçam não atraem seres densos, seria a própria morte. Mas nesta minha ignóbil condição de pássaro aprendiz, tento alçar um voo, mas não tenho conhecimento para tal...

Sinto-me nua. Caminhando e chutando as pedras soltas. Nua de mim mesma. Nua de todo sonho, lavada nesta água fria que caiu em mim através das letras sendo pintadas uma a uma como gotas de chuva fina formando palavras e a minha sentença.

Você consegue entender? Não é difícil para alguém como você entender um ser fluido . Você pode ver através de mim, talvez seja isso -  você olha através de mim - não me vê mas me sente. E sentindo minha alma, você me conhece, então me explica o que esta acontecendo comigo?

sábado, 24 de novembro de 2012

CONVERSAS PRÁ BOI DORMIR III - 'NECO E VICENTINO'


CONVERSAS PRÁ BOI DORMIR III  "NECO E VICENTINO"


- Vicentinooooooooooo... Ô Vicentino!

Nenaaaa, você sabe onde se enfiou aquele fiapo de gente?!
- Sei não, seu Salomão. Acho quí devi dí ta lá prás banda do córgo... saíu cás vara dí pescá...



Todos os dias eram assim: Meu avô perguntando pelo Vicentino sem que ninguém soubesse o seu paradeiro. E as  galinhas, ovelhas e os porcos todos por alimentar e o sujeitinho saia de fino e arrumava um canto sossegado pra fumar seu cigarrinho de palha e depois tirar uma pestana. Esse maravilhoso espécime do matuto esperto, ladino até não poder mais, morava na fazenda desde que lhe nasceu o primeiro dente. Fazia parte da família de agregados.

Vicentino foi criado por Nena, a cozinheira. Tornou-se rapaz e foi ficando, dava uma ajudazinha aqui outra ali, mas o que gostava mesmo era de dormir. O sujeito era magricela, com olhos enormes e um bigodinho fino. Preguiçoso para o trabalho, mas para comer e inventar desculpas, era diplomado. Aliás, ele nem tinha paladar, porque comia qualquer coisa que fosse agradável aos olhos. Dono de um coração enorme gostava muito de animais. Um dia apareceu com um filhote de urubu dentro do chapéu dizendo que seria seu bicho de estimação, queria ficar com ele. Nena e minha avó quase surtaram.

-Vicentino!!! Suma com esse bicho nojento!
- Dona Pilar, eli é tão bunitinho. Tadin, caiu du nínhu í pra mórdi eli num morrê dí fome, eu truxí eli. Vô dá um banhu nêli, vo dá dí cume í arrumá um caxótinho pra eli drumi lá nu quartinhu, mais eu.
-Você é quem sabe. Mas esse bicho come carniça, e eu não o quero aqui dentro de casa.
- Comi não, Dona Pilar. Vo insiná eli a cume só coisa limpa, a senhora vai vê. Posso ficá quêli?!
- Se você se responsabilizar por ele, sim, pode ficar, mas não o quero aqui dentro.

O filhote de urubu recebeu banho com sabão de coco, foi enxugado com toalha e devidamente acomodado num “caxótinho” para tomar sol, enquanto Vicentino preparava uma “pápa” de carne crua amassada com fubá bem fininho para alimentá-lo. O filhote recebeu o nome de Neco. Cresceu forte e saudável entre as galinhas, galos, patos e perus que circulavam no galinheiro, mas que não tinham a liberdade de voar. Neco acabou por conquistar a todos, desde o meu avô até a Nena, que antes sentia náuseas quando via o filhote sendo alimentado. Vicentino ganhou um companheiro inseparável para suas horas de vadiagem pelo pasto ou para horas de soneca escondido entre as sacas de café.
Ele se deitava e o Neco ia chegando com seu andar meio “bamboleante” e se acomodava esperando por um cafuné – era comum vê-los dormindo lado a lado enquanto o sol estava a pino!
Quando chegava a hora do almoço, Neco acordava de seus devaneios, abria as asas, dava uma boa espichada no pescoço parecendo “farejar” o cheiro da carne fresca sendo fatiada na pia da cozinha. Parecia sorrir quando saia aos pulos até tomar impulso e levantar voo indo direto pousar no jirau junto da janela, onde Nena [antigamente] colocava as panelas de ferro depois de areadas. Ficava ali, emitindo sons roucos para chamar a atenção e ganhar uns pedaços de carne fresca. Ficava horas olhando pela janela e depois de receber seu manjar fresco, aproveitava para alisar as penas ou simplesmente enfiava a cabeça embaixo de uma das asas e dormia.
Já o Vicentino com aquela cara de “fuínha”, esgueirava pela cozinha ou despensa furtando pedaços gigantescos de bolo de fubá, marmelada, queijo, biscoitos de polvilho, linguiças defumadas e tudo que pudesse servir de alimento e quando alguém reclamava, ele sabiamente dizia que era o Neco que havia assaltado a despensa. Parecia ter uma fome interminável e um baú cheio de desculpas esfarrapadas. Uma ocasião meu avô recebeu a visita de um amigo médico, Dr. Messias – bonachão e muito falante e depois de uma longa conversa no gabinete, prontificou-se a consultar todos os empregados.

Quando soube da novidade, Vicentino, que estava “quentando as mão” perto do fogão à lenha, foi saindo de mansinho com medo das supostas injeções e o Neco que não era bobo nem nada, foi junto.
Ao sentir a falta dele, meu avô pediu para Nena chamar o fujão. Foi inútil. Ele só voltou na tarde do dia seguinte após certificar-se que o “Dotô” havia partido. E voltou com muita dor na barriga,
depois de comer tanto milho cozido e assado no braseiro. Choramingando pediu um chá, e segundo o diagnóstico de Nena –“Eli tá impaxado! Vicentino tá qui é só gáis.Tem que tomá purgante!” – Mas o Vicentino era totalmente contra qualquer coisa chamada remédio, recusou o purgante.
Meu avô então, pegou o famoso vidro de “purgante”, ficou olhando e dirigiu-se á despensa. Quando voltou, nos avisou que não deveríamos comer o doce de leite que estava na gamela. Era um presente para o Vicentino. Ninguém entendeu, mas obedecemos enquanto meu avô saia dando gargalhadas. No outro dia, Nena preparava o café e sentiu falta de alguns petiscos de sua despensa. Havia sumido duas linguiças, metade de um queijo e o doce de leite com gamela e tudo. Perguntou a ele se havia pego, ele negou dizendo: -“Deve dí tê sido o Neco. Dí noite ele tava sem sono e cum muita fome. Acho quí cumeu tudo sozinhu. Êita bicho guloso, sô!”
Meu avô deu uma sonora gargalhada e disse: -“Humm... Sei!”
Não demorou muito e o Vicentino foi ficando meio amarelo e suando muito, até que não aguentando mais saiu correndo se trancando no banheiro. Ficou horas neste vai e vem enquanto meu avô dava gargalhadas e conversava com o Neco, que tranquilamente comia o seu dejejum de carne fresca e olhava virando a cabeça para o lado parecendo rir da situação. E como dizia meu avô: “Tem gente que tem o olho maior que o estomago.”
Mas no final tudo se resolveu da melhor maneira possível e Neco e Vicentino ainda aprontaram muitas lá na fazenda...




NA MADRUGADA



NA MADRUGADA

Como fazer que os ponteiros do relógio parem?
Não quero o avanço das horas! Não quero o fim desta madrugada – quero me perder neste momento de céu negro
e“guardar” você dentro de mim – antes que o dia chegue, rasgando a membrana da manhã.
Quero esta catarse!
Este sentimento que me toma enquanto fujo meus passos deste inexorável amanhecer.
Quero a sua imagem retratada no meu olhar
e as suas palavras – brincando neste moinho de vento que girando incansável os meus pensamentos
feito asas de borboletas. Asas de sonhos girando à revelia, te trazendo e te levando antes que eu possa dizer o quanto eu gosto de você.


OS MEUS OLHOS



OS MEUS OLHOS

Eu quero andar...
Tirar minhas sandálias e caminhar descalça
Quero sentir a energia da terra
Envolvendo meus pés enquanto deixo livres, os meus olhos.
Estes voam. Voam sem fronteiras buscando você,
Para se aninharem dentro dos seus olhos.
Amanhã, quando a membrana que separa noite e dia se romper, meus olhos viajarão na imensidão do seu voo
Eu, em suas asas...


TATOO


TATOO

Sinto a contração do tempo como se fosse a respiração do dragão tatuado em minha pele – as vezes olho o dragão que me crava as garras e me pergunto se não teria sido melhor ter feito uma flor?!
Mas uma flor sem perfume não me dá a sensação de torpor e excitação que sempre acompanha as flores por mais simples que sejam, mas o dragão que um dia já foi carpa, e que já subiu os rios vencendo as corredeiras, fez da vida uma superação e pode respirar a minha respiração e se alimentar do meu sal e da minha inesgotável paciência
de tentar ver as coisas como elas são, e não como eu gostaria que elas fossem. 

BONECAS DE MILHO



BONECAS DE MILHO


Antes de me levantar, tossi. 
                                Engasgada com a poeira

Levantada
quando voltei para mim.
Depois de cada amor, me sinto mais viva
e mesmo o som daquela flauta de bambu
não me detém – a vida se expande assim como
a minha visão das coisas que me tocam.
Já não são as mesmas de ontem 
– amadurecem as bonecas de milho
e deitam seus cabelos sobre os compromissos.
E sobre os sussurros do útero noturno, 
apenas um cochilo.
É necessário abrir os olhos depois de acordar
desenfileirar as vogais separando-as das consoantes
sem se sentir culpada de ter vindo ao mundo.
Depois, a história descansa sentada no umbral da porta
enquanto homens e mulheres
tecem o prazer, lambuzados de falsos orgasmos.


SORVETE COM CALDA DE WHISKY


SORVETE COM CALDA DE WHISKY


As horas morrem nos ponteiros do relógio   
enquanto Esopo cria fábulas.
As uvas ainda estão verdes
e os carneiros saltam sobre as cercas...
Os ponteiros dançam ao som de Straus
e você, deixa os pés de molho em água fria...
São tantos ocasos e lunações
que as marés já sentem enjoos.
E a chuva não vem mais,
pegou carona no vento sul
talvez eu ouça Prince mais tarde
e tome sorvete com calda de whisky
talvez o tempo acenda as luzes da ribalta
e tudo volte a fazer sentido
como numa tabela de cores
ainda assim, eu vou ficar aqui mais um pouco
porque a medida que o sol caminha
eu arrasto o meu banquinho – rsrs
e o arco que sustenta o céu faz sombra nos meus olhos
e eu posso contar as marés...


O SOL E A PELE



O SOL E A PELE

Sobre a minha pele____as carícias 
e a luminosidade
((estou me sentindo intensa))
Não me pergunte o motivo___não saberia dizê-lo!
Mas quem dera fosse, a minha outra metade
aquela que rasga as minhas entranhas
e me faz estranha de mim mesma.
Ah, aquela que se embriaga com a minha lucidez
e da minha solidão 
faz um ser, sem ser!
Quem dera fosse eu o meu avesso
e entrelaçadas ___eu e eu
na coragem e na falta de pudor
insuportável de viver com o sol e a pele nua
nas matinês do olhar burguês.




DEPOIS DAS TRÊS


DEPOIS DAS TRÊS...

Alguém gritou dentro da noite – ou dentro do meu sonho, não sei, mas o fato é que acordei. 
E quando acordo dentro da madrugada
Gosto de olhar as figuras escorridas na parede formando desenhos abstratos –Kandisnky ficaria alucinado!


Mas hoje, as sombras dançam ao som de velhos blues que alguém canta lá fora 
enquanto caminha na rua vazia.
Talvez Willie Dixon caminhando na noite com seu baixo ... Talvez ele pare aqui na frente e 
deixe a musica brincar por entre as frestas 
da veneziana do meu quarto – mas já passam das três!
Ouço mais passos lá fora. 
Alguém conversa e 
arrasta os pés na calçada... 
Risos de mulher – decididamente 
estão fazendo uma reunião lá fora.
Parece que o tempo retrocede 
enquanto a voz canta Piece of My Heart – putz! Janis chegou agora mais “acordada” que todos e canta: “... It to come on, come on, come on, come on and take it,
Take it!
Take another litle piece of my heart now, baby!
Oh, oh, break it!
Break another litle bit of my heart now, 
darling, yeah, yeah, yeah...”
Ela canta na noite enquanto nas paredes
As sombras dançam...
Elas apenas dançam...


NO DORSO DO VENTO



NO DORSO DO VENTO

Voam as minhas palavras
montadas no dorso do vento
asas para norte/sul
Rosa dos ventos que floresce no meu quintal
antecipa a direção do meu olhar
fragmentado,
oculto entre as pedras da cachoeira
adocicado olhar de criança
severo olhar de mulher
lendo os sinais
enquanto tece os fios da vida
entre os dedos artesãos.
Voam palavras
(às vezes sem pressa)
noutras vezes coloridas de promessas
ora carregando sonhos e os seus segredos.
Voam no vento, as palavras
até onde eu não sei...


sexta-feira, 23 de novembro de 2012

CONVERSAS PRÁ BOI DORMIR II - O LOBISOMEM


CONVERSAS PRÁ BOI DORMIR II - O LOBISOMEM

Essa história eu ouvi quando criança, sentada na varanda da casa do meu avô durante a quaresma. Bem, meu avô não acreditava nessas histórias, mas “dava corda” aos contadores para depois ficar nos assustando...

“ ...é a mais pura das verdadi, “seu Salomão”, eu juro, nóis inté tava querenô dí falar cum o sinhô, pra mordi dí arrumá umas bala e o revórvi pois num é dí vê que o Tunim si aprontificô di ir mais eu e o Dito na caça do mardito.”

Quando eu ouvi essa parte da conversa, fui chegando mais perto e mais perto, até colar em seu braço e ser abraçada por ele em sinal de que eu podia ficar e participar da conversa dos adultos. Meu avô pediu novamente ao para Antenor contar o que havia acontecido e eu de olhos e orelhas bem abertas quase nem respirava.

“...pois entoces, num é de vê que na sexta fera passada eu fui até lá na Vila de Queimados só pra mordi di tomá uns traguinho e joga uns parmo di cunversa fora...mas quando cheguei lá num é qui tava tendo uma disputa di um sanfoneiro lá das banda de Beraba mais o Gérvasio qui é genti nossa e a coisa tava tão boa que eu logo garrei di dançá mais a Dorvalina e num é que perdi a zóras di vim bóra e mi lasquei tudo. Tô inté agora meio rupiado só di alembra daquela coisa que eu vi...”

Eu nem respirava, mas sentia a mão enorme do meu avô apertando meu ombro lembrando-me de escutar com atenção. Eu abria mais os olhos tentando imaginar o que o Antenor tinha visto que o deixara tão apavorado.

“... seu Salomão, eu vim mais meus cumpanheiro até na entrada da fazenda, despois cada um seguiu seu caminho e eu piquei a ispóra no Maiado e vim descenô pelo carreadô, eu e mais us dois cachorro qui num larga di eu. Quando cheguemô cá imbaxo, perto daquele pé de marmeleiro, eu apressenti qui o cavalo tava refuganô os pásso e os cachorro também tava meio perreados.
Carquei a ispóra na viria do Maiado mas ele guento firme e refugô. Baxei o chicote e eli refugô. Eu sem intende nada fiquei qui nem palerma, oianô naquele carreadô sem fim – foi aí que mim deu uma pancada nus miolo e eu mi alembrei du que tinha faladu quando tava dançanô mais a Dorvalina. Ela me pregunto si eu num tinha medo di lubisomê, purque nóis tava na quaresma e o bicho parece sempre. Eu arrespondi que num tinha bicho neste chão de meu Deus, que eu tivesse medo e que se o tár lubisomê vinhésse, eu muntava no lombo delí e carcáva a ispóra.

Num é qui di repenti iscuitei uns barúio nus meio dus pé di café é us cachorro saíro numa currida que devi di ta cheganô em Sumpaulo nessa hora. Seu Salomão, si eu num tivesse ruim das costa eu num tinha caidu du cavalo, mais cumo minha espinhéla ta fora du lugar eu caí e o bicho veio pru meu lado, baxano o arreio pra mórdi eu amuntá nêli, eu tentei corrê mais eli se jogô im cima de mim e nóis se atraquêmo.

Lutei e bati o qui deu, mais acho que foi nessa zóra que ele rasgo o bôrço da minha cárça e o dinherô du pagamento caiu tudo. É só pur causa que tô desaprevinido de dinherô que vim aqui lhe pedi um imprétimo das bala e do revòrvi, pra mordi eu í caçá o bicho e arrecuperá o meu dinherô. O bicho era mutio grande e feio. Inté o Maiado chegô a mijá de medo. Parecia um zurso cabeludo, mais era maió e tava cum arrêio e tudo e o zóio do bicho era grande e marélo e a boca tava aberta qui nem si ele tava si rindu di mim...
Quando eu cunsegui me largá do coisa ruim o Maido vortô e eu amontei í carquei a ispóra o mais forte qui pude, e baxei o chicote no lombo do Maiado que se despencô numa carrera inté chegá aqui.”

Meu avô só olhava com atenção balançando a cabeça e fazia: "Huuummm...Sei!..." Eu estava gelada. Petrificada de medo e nem repirava direito. Um lobisomem aqui?! E agora?! Bem, eu estava protegida, afinal ele não seria besta de vir aqui, no casarão do meu avô, mas eu não queria nem imaginar como seria isso. Eu estava aterrorizada com a idéia de um mostro que come criançinhas pagãs estar vagando por ali e meu avô naquela calma toda só fazendo:-"Huuummmm! Sei..." E até que finalmente ele me apertou o ombro e disse: - Mariame, peça para sua avó trazer a minha carteira de dinheiro. Preciso colaborar com o Antenor para livrar a fazendo desse bicho danado!

Depois deu dinheiro ao Antenor que ficou meio sem jeito de pegar, mas embolsou o dinheiro e foi saindo encabulado enquanto meu avô dava uma sonora gargalhada e falava: -"Lobisomem?! Sei..." E ria mais alto ainda dizendo que eles estavam ficando cada vez melhores nas desculpas que arrumavam.

Eu não entendi nada. Mas naquela noite eu posso jurar que ouvi um lobo uivando nos pastos que cercavam o casarão. Não consegui dormir no meu quarto e corri para o quarto do meu avô que me abraçou e disse :-"Huuuuummmmm... Sei..."


NOITE DE LUA CHEIA



NOITE DE LUA CHEIA


Arremedo de gente!
Angu sem sal nem açúcar!
Rsrsrsrsrsrsrrsr.....
Quem cuspiu na batina do padre???
Foi você?!
Foi, não foi, foi o sapo boi!!!
Ah, foi sim....Rsrsrsrs
Cuspiu enquanto o Saci saciava a sede
E saracura - sara...sara...sara...cura, cantava lá no brejo.
É noite de lua cheia... 

Escuta o vento no oco dos tocos
E nas taquaras rachadas....
Assovio de Saci corta o ar!!!
Fííííííííííííííííííuuuuu!
Foi um pulo!
Fíííííííííííííuuuu! Fííííííúuuuu!
Foram dois pulos!
Fííííííííuuuuuííííííssssssssssssssssbuuuuum!!! 
Foi uma casca de banana!!!
Rsrsrsrsrsrsr...

Quem comeu foi rei, e quem caiu???
Eu não sei!
O que eu sei, é que acendeu
e apagou____aqui e ali
Vaga-lume Tem-Tem,
teu pai ta aqui, tua mãe também!
Acende-apaga-acende-apaga-acende-apaga
no olho do boi uma estrela de fogo!
Fátuo-fogo, fogaréu, Boitatá
 lá vem, lá vem...
Lá vem Mula sem Cabeça
Mulher do padre, arde, arde
Ardem os olhos do Curupira
Que não ouvia
o canto cotovia via 
Via sim... Via sim...
Rsrsrsrsrsrs...
E você, viu?!


TATUAGENS


TATUAGENS

Aquilo que faz rodar a imensa roda da vida
gira o sol sobre a nossa pele
enquanto borda crivos e pontos de cruz
tatuando os dizeres santos
de tantos ais e tais
caseando a margem dos nossos olhos.
Os segredos ditos a um coração sempre
testemunham a diversão em varias frações
multiplicando o hálito poético da grande boca escancarada em dentes.

Tempo Rei, onde caminha o teu medo?

Mesmo ocultos pelas sombras do casario
Ninguém pode sorrir nas esquinas
nem mesmo quando a alma responde so_bre as
personagens que te habitam em
temperos de sal e açucar.
E enquanto as cores tri-dimensionais
aumentam a ondulação
das palavras, fazem escorregar toda dualidade que te habita.

PENSARES


PENSARES

Um temporal de fogo
Abre a boca do tempo
E acorda os olhos do fauno.
Banham-me as lágrimas de Clytia
Florescendo antúrios pelos meus descaminhos
Acariciando palavras suspensas em meus cílios.
Um arrebol se derrama
No ócio da terra
Enquanto lamenta não ouvir Blues...
O tempo é apenas um bocejo vermelho
Girando num poliedro eterno,
Equivoco das coisas insanas
Caleidoscópio das horas
Que desabrocham na palma das minhas mãos...

SEMENTES


SEMENTES

Da alquimia das cores
Nasceram as flores
Bocas de Leão, Prímulas, Calêndulas
E as sementes aladas...
...Dentes de Leão sopradas ao vento.

SOB O CÉU



SOB O CÉU

Olhei o céu através da vidraça embaçada.
Não havia estrelas. O céu estava profundamente escuro.
Um céu diferente daquele que eu olhava quando ainda era uma menina, um céu vivo de cores e formas alegres que se movimentavam diante dos meus olhos sonhadores.
Sempre que estávamos na fazenda e a noite nos surpreendia por lá, eu aproveitava para me deitar no terreiro de secagem do café, em cima dos montes cobertos com lona amarela e me perdia no azul profundo do fim da tarde.
Quando a noite finalmente chegava trazendo estrelas tímidas, eu vibrava olhando o faiscar celeste. Minha mãe dizia: “Mariame, os anjos estão acendendo suas velas para clarear o nosso caminho até Deus. Todos nós temos um anjo especial que nos cuida e nos protege de todo mal” – e então eu imaginava uma enorme procissão pelo céu...
Hoje eu olhei o céu... Não vi as estrelas e me perguntei: Onde estão os anjos?! Onde esta o meu anjo, aquele que deveria estar cuidando de mim? Onde ele está, se o céu esta apagado neste aguaceiro?
Não sei – Talvez não fossem anjos lá no céu da minha infância. Talvez minha mãe estivesse errada. Senti uma lágrima. Lembrei-me de mim e dos sonhos que eu tinha, dos planos que fazia – “Ah, eu quero ser piloto de avião e voar sobre as nuvens”. E logo a seguir tudo mudava “eu quero ser exploradora e morar na África” “eu quero ser escritora e contar estórias” e contando estrelas eu nem percebi o tempo passar.
Hoje o céu esta encoberto e silencioso. A vidraça me separa do frio e do vento mas deixa o meu pensamento que se perder nas lembranças. Procuro o silêncio mas, ouço o riso de alguém dentro de mim. Talvez a menina que insiste em viver nos meus sonhos presa qual Rapunzel em sua torre, ela corre pelos corredores das minhas lembranças escondendo-se entre as cortinas azuis ou contando estrelas através das janelas dos meus olhos. Fecho os olhos. Fecho as janelas. Não há mais risos nem correrias. Cortando o silencio apenas um chorar triste. Fecho os olhos e não há luz pelos corredores. Fecho os olhos. Talvez assim a menina finalmente adormeça. Não ouvirei mais as estórias que ela conta enquanto caminha pelas minhas lembranças adormecidas.

YOU'RE THE ONE


YOU'RE THE ONE

O mundo pode sentir
e pode imaginar
pois o mais difícil
já se fez: A HISTÓRIA!
Agora é só recolher o que foi guardado de cada sonho
e se perguntar - Quem nunca sonhou?!
Quem nunca sonhou em voar?
Voar para longe
e esquecer os dias da semana, as horas, os minutos?!
Quem nunca sonhou ter nas mãos o próprio destino
e fazer tudo de acordo com o coração?!
Quem nunca sorriu de felicidade?!
Quem nunca beijou uma fotografia e viajou na fantasia?!?!
Quem nunca desejou pintar os muros do mundo
e musicar as tardes de domingo?!
Quem?!
Se as melhores coisas da vida
ainda são os pequenos sonhos
transformados em grandes desafios
em grandes projetos de vida
que podem fazer de cada um de nós
seres humanos aptos a enfrentar as mediocridades
os desenganos, as tristezas
e movimentar a grande roda da vida.
A vida esta a nossa espera
Fazer gira a roda - basta um movimento!

PROSTITUTOS OLHARES



PROSTITUTOS OLHARES

Ainda não foi desta vez que a boca cuspiu a saliva
nem as vísceras gelatinosas.
Só mais um pouco – mais um pouco e a turbulência das coisas obscenas se aglutinam em forma de cuspe e então – lá vem o escarro certeiro.
Ninguém vê direito através do vidro das janelas, dos bares e botequins. Ninguém vê a cor do cuspe no canto da boca e nem o resto de batom barato que contorna os lábios escancarados das prostitutas de plantão. Elas têm lábios?!
Onde ficam os verdadeiros lábios das prostitutas que cospem a sua presença  assediando o pensamento encarquilhado dos velhos?!
Agora a pouco, uma sirene assuntou as bocas (arquibancadas de andarilhos) e os olhares se compromissaram. Quem viria a seguir?! Um garçom nu? Um advogado vestindo uma toga vermelha? Uma outra prostituta?! Não!! Os passos na calçada são dissimulados e espremidos nas coxas como passos de moça virgem e ansiosa das coisas. As outras cospem no chão e bafejam no vidro enquanto tentam ver a moça solitária com seus livros embaixo do braço. Só uma moça pisando leve com seus saltos finos.
As bocas de lábios verdadeiros e caras de lua cheia se esparramam coladas no vidro encardido e observam. Observam! Temem por sua estapafúrdia existência enquanto olham e ouvem os passos lá fora. A obscenidade de cada pensamento entreabre a boca dos homens fazendo com que suas mãos (direita/esquerda) desçam para o meio das pernas e os façam machos e donos de uma virilidade sem sentido. E o cuspe escorre no canto das bocas e os olhares descendo a ladeira das coxas espremidas e úmidas, vão até o chão onde eles se manifestam decidindo o rumo e a razão.
Os sapatos vermelhos e uma moça de olhos cor de mel atravessam o imaginário das prostitutas cheirando a naftalina e escorregam na alucinação dos homens forçando a saliva grossa de encontro aos lábios finos.
A noite em alguns lugares é assim...


O SILÊNCIO


O Silêncio


No horizonte avermelhado surge a figura de um dragão. Arregaça os beiços mostra os dentes não há sorriso – somente um mal viver. Uma iminente ameaça sem formas de consolação. Nenhuma causa externa-extrema ou qualquer motivo de satisfação. Observa e sente a rotina transformando sua figura patética. É somente uma forma de pensamento. Um dragão... Brota entre as nuvens, dragão que não cospe fogo inicia a tua ambiguidade neste modo de gente em figura de papel/múltiplos silêncios advém de o teu pequeno olhar. Mostra os dentes, mostra o teu modo de voar. Abra as tuas asas sobre o outono ouça a liberdade que não podes ter.


SOBRE MENINOS E HOMENS


SOBRE MENINOS E HOMENS

Meninos sonham, homens apenas fazem planos.
Meninos vivem seus sonhos, homens fogem da felicidade.
Meninos empinam pipas ao vento, homens soltam mentiras...
Meninos sorriem, homens mastigam palavras.
Meninos choram, homens endurecem a alma.
Meninos rabiscam poesias, homens fazem leis.
Meninos andam livres, homens fazem dos pés suas profundas raízes.
Meninos abrem braços num abraço, homens cruzam os braços.
Meninos enfrentam seus medos, homens se calam.
Meninos sussurram, homens gritam.
Meninos falam verdades, homens criam ilusões.
Meninos amam, homens sentem gratidão.
Meninos são eternos, homens apenas morrem em seus sonhos...

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

AS PALAVRAS SÃO DE VIDRO



AS PALAVRAS SÃO DE VIDRO

Hoje eu passei o dia caminhando pelas trilhas entre as araucárias, quaresmeiras, bracatingas e outras árvores das quais eu não sei o nome... São apenas árvores erguendo seus braços/galhos em direção às nuvens (algodão no céu).
No silêncio da quase “mata” Atlântica, só o canto de alguns pássaros e o que quebrar de galhos secos( ! )...Talvez um tigre!! Shere Khan!!! Meu coração dispara. Penso em correr - mas, quem corre mais eu ou Shere Khan??! Sinto a adrenalina no meu sangue. Sangue?! Tigre fareja sangue e medo. Tenho medo... Fico em silêncio por longos minutos. Não ouço mais os passos apenas um farfalhar na grama seca... Um coelho! É isso. O coelho branco. Seguido pelo Chapeleiro Maluco enquanto Ceshire mostra o sorriso e as listras... Estou no MUNDO DE ALICE!

Uma sombra no chão... Uma ave gigante?! Harpias??!! Nãaaaooo! Apenas Aladim e seu tapete mágico. Uffffaaaaaaa! Ainda bem! Ali Babá, por aqui?! Cadê o tesouro?! Sou a Princesa?! Siiiiiiiiimmmmmmmmm!! Este mundo é meu!!
Tem Principe montado num cavalo branco. Não, o meu cavalinho é vermelho... Eu guardei o cavalinho para você?! Você é o Príncipe! Nosso país é real.
Aqui, não existe idade, tudo acontece! Era uma vez...Uma estórinha que virou verdade. A maçã alimentou a Princesa, assim como as palavras de vidro que o Príncipe falou... Palavras de vidro refletem na luz do sol... São tesouros - preciso guardá-las num baú... Meu coração/cofre/baú esta bem guardado, longe do gancho do Capitão onde só eu sei. Gravei um X no mapa que guardei para você. Siga-o. Meu coração será sempre seu...
Hoje, andei nos meus próprios rastros... Andei de mãos dadas com a criança que ainda mora dentro de mim e que ainda acredita nas suas palavras de Príncipe Encantado!



RODA D'ÁGUA



RODA D'ÁGUA


Da boca do fogão à lenha vinham os chiados e estalidos da madeira meio verde sendo consumida pelo fogo na pressa do calor e na mansidão de cozer o leite e assar o pão.
No arrastar dos chinelos de couro e no vai e vem do avental branco, um ramo de salsa cai ao chão enfeitando os ladrilhos vermelhos da velha cozinha. 


Na chapa quente o tostar do queijo faz dual com o café escorrendo do coador de pano [tão escuro de tantos banhos]e ainda mantendo o sabor dos grãos minuciosamente selecionados, torrados e moídos.

O crepitar da lenha faz voar vaga-lumes ardentes e entre dentes, um sorriso. No olhar brilhando, o alumínio das panelas. E do fio da faca, caem as cascas e nascem as doces: estrelas de laranjas, quadrados de mamão verde e no vidro quente - o colorido das compotas de goiaba, araçá, marmelo e carambola.
Um queijo, um beijo, goiabada e paixão – a vida de cheiros agridoce entre as tampas e o velho pilão. Nas réstias de alhos e cebolas, uma trança e um limão. 

Das gamelas sobre a mesa, o verde das folhas do agrião escondem os doces - caju, goiabas suculentas, graviolas e frutas do conde. Um pano branco bordado com os dias da semana, marca o tempo que não passa no calor dessas horas e da janela, o sol espia e se enfia no aconchego de um abraço entre um beijo estalado, um biscoito "casado" e um sorriso de maria-mole.
Água fria descansada no gosto do barro, escorre entre os goles, doces goles do vermelho das romãs. E das cinzas do borralho, surge o gato Mal me quer, que nada quer, a não ser dormir e sonhar odores.
O tempo e suas escamas coloridas brilham no olho do boi enquanto tudo gira num silêncio onde fermentam as saudades guardadas nas gavetas e nos armários. E no quintal as galinhas ciscam o chão descobrindo o segredo de germinar minhocas.
A roda d’água gira sem parar, gira sonhos, gira vida,
gira o tempo de todos nós.