domingo, 23 de julho de 2017

ENTRE O SER E NÃO SER


Nenhum lugar podia ser melhor que Oneiros. Não naquela época em que eu andava por lá, usando a velha calça jeans desbotada e os cabelos caídos sobre os olhos, levando no ombro, a bolsa tiracolo feita de barbante. Eu ansiava pelo anoitecer tanto quanto pelo amanhecer, porque as respostas para as minhas perguntas tanto se davam ao clarão da lua, quanto ao calor do sol. E não havia nada mais angustiante do que não poder me desvencilhar do Reino do Óbvio e viajar pelos céus daquele mundo fantasioso. A sombra de Yggdrasil era por demais convidativa às interpretações do Mundo Descarnado, tanto quanto era bom viajar naqueles balões coloridos sem o incômodo das lamurias de visitantes indesejados. O Tempo era mais que um ancião alquebrado, e aromava hortelã o seu halito enquanto me dizia chamar-se Yohanan. O Tempo não engole ninguém nem mesmo engoliu Jonas! Às vezes uma chuvinha amiúde feito brisa, obedecia o modo de bem viver das plantas e flores. Mesmo preocupada com os meus papéis de carta eu me permitia beber dessa água como se fosse água batismal. Todos os dias eu renascia na inocência de um ser irreal, enquanto lá fora -, o mundo se vestia qual Babilônia em sua glória obsoleta.


imagem: Chelsea Greene Lewyta



sexta-feira, 21 de julho de 2017

MEIA NOITE


O dia se rendeu à noite -, numa frequência imposta, as flores repetem a doutrina da continuidade ingênua, expondo-se a olhares indiferentes ou desprovidos de amor. A noite é vestimenta do homem tolo, é parte do evangelho que alimenta a alma que o dia não corrompeu. Não há tormentas excessivas no desenlace das horas, não há dor neste silenciar de preocupações, até mesmo porque a beleza das flores aniquila a pobreza do pensamento vão.

foto: LL

UM BREVE MOMENTO ENTRE O CLARO E O ESCURO



Deixo resplandecer a tentativa do pecado de recriá-lo só para meu prazer e o que me conduz aos traços ora nervosos ora suaves, é o instinto primitivo que  revoluciona o claro e o escuro numa desesperada ânsia de deter o seu olhar sobre mim. E o 'proibido' me invade o pensamento anunciando que a solidão chegou ao fim e o mais íntimo e satisfatório impulso me permite a visão da metade que é só minha - " Eu sou teu cântaro ( e se me romper?)" -, serei o seu amor incorrigível que treme a alegria no labirinto de um beijo francês e todos as risadas defendidas com a curvatura do meu corpo sob o seu. Serei a sua metade em rabiscos entrelaçados no claro escuro de cada poesia onde eu desenho o seu olhar sobre mim.

para Odur



desenho : LL


segunda-feira, 17 de julho de 2017

ELEMENTOS DO SIM E DO NÃO


Lamento muito que o mundo me pareça uma aquarela e eu pacientemente vou torturando a folha branca com cores em desenhos sem muita pretensão de acertos. Só não quero reprimir a singular harmonia das linhas. Como é agradável aos olhos esse vai e vem das formigas e a modorra do dia obrigada empinar pipas em defesa do sol. Eu vi os meus olhos  curados da opressão e a minha mãe me conduzindo entre as exclamações e xingamentos da Rainha de Copas - mais uma xícara virou cacos e os barracos de pedrinhas coladas emolduram a coluna do morro. Ah... Mea culpa, mea culpa, mea culpa! Eu nasci assim, com um pé no sortilégio e o outro numa Ave Maria.


imagem: Casinhas no Morro / LL


sábado, 15 de julho de 2017

ENTRE VERSOS


____ o que será de mim, será ENTRE VERSOS?!
Serei a carne e a rima
os ossos e a plástica do poema
a textura de cada página
o desenho 
o símbolo
a letra que minh'alma desenha
em forma de versos
re_versos o que será de mim
por ser eu____ um verso?!



foto: LL



quinta-feira, 13 de julho de 2017

VIAGENS


Acabei de olhar o céu -, poucas estrelas estão visíveis, mas o desenho das nuvens é fantástico, surreal! Hoje a noite está silenciosa, apenas um ou outro ruido e o "conversar" distantes entre os cachorros. Nada me fala de tristezas - não, algo até bem singular me faz dar risadas aqui sozinha: eu estava comendo brigadeiro de panela e lambendo os dedos!Uma tentativa puramente infantil à qual me entrego feliz. A infância não se distancia de nós a não ser que todas as nossas perguntas tenham obtido respostas e não hajam mais motivos para sonhar. Não creio que isso seja possível -, não nos tornamos adultos, insípidos e insensíveis porque não matamos a criança dentro de nós, ela aproxima-se e podemos ouvir o coração da noite e sentir o perfume das estrelas -, ninguém nos impede de viajar em navios fantásticos e buscar a aurora boreal. Não! Ninguém nos impede de viver e nem a Vida se retira de nós sem que permitamos. A primeira ausência é o medo de sonhar e isso nos faz resvalar para o mundo obtuso dos mortos-vivos e o seu tom peculiar de dizer: Isto não existe, deixe de sonhar! - deixar de sonhar, isto, sim é o mesmo que deixar de viver e não condiz com minha alma de poeta.



DIVINDADE


Podemos criar asas_______frágeis e delicadas como asas de borboletas ou grandes e possantes semelhantes aos grandes pássaros que  ganham alturas e vencem as distâncias, muitas vezes intransponíveis. Vencem as tormentas sobre o mar e sabiamente tirando proveito das correntes de ar quente, planando para poupar energia.  Este processo alado só depende de nós,  de como e quanto acreditamos em nosso poder de criação; porque a força motriz age dentro de cada um de nós como uma fagulha da 'divindade criativa' -, sejamos deuses de acordo com a nossa força! 



Foto: LL