domingo, 14 de janeiro de 2018

CARMINIBUS ET INCANTATIONIBUS


Agora, que você me encarou e verteu suor  e amostras de sangue, nos maus tratos das minhas mãos durante o plantão da Lua-, somos nós, um só e nada mais. O Olho Suspeito já não pode nos ver, porque  bebemos da taça onírica as lágrimas da Eternidade e trocamos as nossas digitais ma emergência de vivermos a meia noite e o meio dia na obstetrícia do mundo. Meu coração é a metade do seu coração e na minha boca as sua palavras germinam e nos seus olhos a percepção das cores criam as paisagens que os meus olhos enxergam. E nas minhas veias os seus genes para sempre impressos vigiando o que somos um para o outro sem a necessidade da consciência de tempo, porque somos um só na incontestável verdade do existir: Amor.



DISTÂNCIAS




Por quê aqueles dias escondiam o êxtase de viver, como se fosse proibido ser feliz pelo simples motivo de estar viva?! Havia um penhasco e uma vontade incontrolável de transpor a distância entre suas alturas  e uma pequena multidão a me observar num silêncio de algemas e grilhões. Mas o que fazer?! Meus pés recém nascidos eram acometidos de uma ânsia de caminhos e rapidamente perseguiam rastros de outros pés - tudo aceitável à beira do abismo. Minha boca seca havia de querer uma aliada à sua sede em sinal de protesto -, minha garganta queimando na imprecisão daquela água salobra engole a minha saliva adocicada e os meus ouvidos ouvem, mas a minha alma escuta a melodia do vento enquanto as minhas 'asas' são lentamente abertas - alguém grita: acabou a escuridão!



imagem: Chelsea Greene Lewyta



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

RISO


Tudo dele refluía para mim de forma apoteótica e o meu coração pulsando num momento mais que verdadeiro -, provocava um acontecimento singular a me ensinar o caminho da salvação entre o "deslizar e subir" das coxas e a aspereza  necessária da tarde. Tentei conter o meu riso, mas ele se aproximou tanto que o seu nariz tocou o meu nariz e o seu riso juntou-se ao meu. E naquele momento, poderia até ter um cataclismo que eu não saberia os detalhes porquê estava suscetível a um daqueles rompantes de felicidade e contrariando a minha racionalidade -, meus pés não estavam no chão e os meus olhos ( sem exagero algum) se fechando em conchavo com os meus lábios entre abertos, já sabiam a hora do beijo.



quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

ÚLTIMO VOO


ÚLTIMO VOO 

O que se pode fazer, é observar o Tempo -, como se o mesmo fosse um velho livro de histórias. E no silêncio que se faz entre a aurora e o ocaso, cerrar os lábios e conceber na memória todo espetáculo que um dia foi a Vida. Não há mais necessidade das palavras porquê somos a origem do gene - a longevidade está em nós e em nossos pais. Somos a celebração diante da eternidade e as nossas culpas são absolvidas porque não fomos Caim e Abel na significação da palavra 'irmãos'. Era o meu pensamento - a ponte - entre o meu coração e a sua existência a recobrar o sorriso que não podia ser só seu - era meu também. E será meu até  mesmo como forma de protesto diante da tristeza de não mais sabê-lo. Eu havia crescido na sua memória feita de voos sobre as nuvens brancas sopradas pelo vento forte das hélices daquele pequeno avião que nos aproximava do mundo dos anjos: seria você um anjo também?! Como sabê-lo?! Você se foi e nem me disse adeus... Todavia,  manter a sua presença nos meus dias é a forma de me manter viva dentro do contexto familiar - assim o Tempo transcorrerá sem que possa me aniquilar.  E eu me acostumo cada vez mais a esta solidão transformada em contemplação; porque não há dor maior que a impotência diante destas paisagens imaginarias que eu sei pintar tão bem. 

para meu irmão Plínio
(15/04/53 - 29/12/2017)



quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

NATAL NA CAATINGA



Com o mapa nas mãos, Noel sobrevoa a Caatinga buscando o local indicado e devidamente marcado com um X, feito com carvão. O mapa feito num pedaço de papel de embrulho, tem um dos cantos “mastigado” e apresenta marcas de dedos sujos, mostra claramente onde devem ser depositados os presentes – a árvore de Natal! Noel, pegou novamente a carta. Olhou-a demoradamente enquanto coçava a longa barba branca. Tentava entender o motivo daquele pedido inusitado. Acostumado a viajar o mundo em seu trenó, sempre levando brinquedos – bolas, bonecas, carrinhos – desta vez, a carta trazia um pedido diferente. Tudo poderia ser apenas uma brincadeira de algum desocupado, mas, sendo ele o Papai Noel, não podia deixar de atender o pedido, e sobrevoava aquela terra árida levando os presentes e de vez em quando, um pouco apreensivo coçava a barba e tentava acalmar as renas... “Vamos, meninas, já esta estamos chegando” e chamava carinhosamente cada uma delas pelo nome: “Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donder e Blitzen , em frente!” Com um "solavanco" no trenó, ajeita a carga tendo o cuidado de olhar se tudo continuava no lugar. Não podia perder nada, principalmente ali, no meio daquela “secura” desertificada. Se perdesse algum dos presentes, não teria como arrumar outro, pois 95% da totalidade da carga fora “comprada” e não confeccionada pelos duendes na sua fabrica no Pólo Norte. Uma lufada de ar quente e seco traz até o seu nariz, o cheiro da carga de presentes – carne de sol, farinha, manteiga de garrafa, rapadura e outros itens que foram devidamente descritos nos seus detalhes – iogurte, bolacha recheada, arroz, feijão, doce de leite, café, goiabada, um metro de fita de cetim vermelha e muitos outros. Além disso, trazia também uma nota à parte pedindo: sal grosso, farelo, alfafa e ração para cachorro e um lembrete. ps: NÃO ESQUECE, É IMPORTANTE! De repente uma árvore se destaca no meio da planície seca. Noel observa o relevo e identifica como sendo o ponto de entrega. Faz um gesto com os arreios e diz: Desçam! E as renas conduzem o trenó com suavidade aterrizando na Caatinga entre cactos espinhentos e galhos secos. Noel desce e caminha até a árvore e lê o bilhete preso no tronco seco. “Papai Noel, eu quero qui o sr. trais pra nóis um poco de comida porque aqui, a fome mata um mininu tudu dia. Não queru qui meus irmãozinho morre de fome, então to pedindo a cumida e um carrinho que é pra eu dá pro Cirço, porque ele só tem um ano e pode brinca di carrinho. Nóis já num pode. Trabaiamô na carvoaria... Papai Noel, num esquece da cumida do Branco o meu cachorro e nem da cumida das cabritas purque elas tem qui dá leite. A fita vermêia, é pra minha mãe por nos cabelo e quem sabe ela fica feliz de novo e para de chorá? Um abraço e a sua “bença” Papai Noel. Assinado: raimundo da silva".

Noel, enxuga as lágrimas e autoriza aos duendes ajudantes que descarreguem o trenó...



quinta-feira, 30 de novembro de 2017

REFLEXÃO



Com a proximidade das festas natalinas é comum nas pessoas uma mudança comportamental, a busca pela compreensão da alma humana diante da difícil caminhada pelas veredas espinhosas e cicatrizes adquiridas. Como aceitar a dor sendo parte de um presente de Deus, se não nos damos conta da divindade existente em nós?! Há impulsos e necessidades inerentes ao ser humano -, o Amor e o amar. É difícil e árdua a tarefa de nos libertarmos do egoísmo para  adentrar na naturalidade dos seres de Luz. O Amor é a mansuetude da alma e o amar é a resignação com a qual nos entregamos a um processo modificador. Somos feito a prata e necessitamos tanto do crisol quanto do fogo. Não há como alcançar magnitude e a beleza de ser uma joia rara, se não nos entregarmos ao artífice. Muitas vezes o que consideramos como um castigo ou uma privação, nada mais é, que a descoberta da nossa oportunidade de amar de forma incondicional. O nosso desconforto psicológico tende à descrença e a revolta, porque somos humanos, densos e pesados: salvaguardando a mais absoluta descrença na vida eterna mantemos uma visão linear que nos faz estruturalmente rudimentares. Cabe à alma, ser como a flor -, dar vida ao vaso de barro. A expansão da consciência nos liberta de toda e qualquer prisão, de todo e qualquer medo. Neste Natal - sejamos LUZ!


terça-feira, 10 de outubro de 2017

TODOS OS SONHOS DE ALICE


O pássaro sabe o endereço: por semanas sucessivas ele chegou com a manhã; mais precisamente às 05h23. As vezes, sob a mais terna fantasia, desconsiderando seu instinto alado ele provocava sonhos nos quais Alice consagra a loucura experienciando o ser, no mais profundo de sua alma infinitamente pueril. Alice é o que o pássaro considera como sendo a concretização autentica da fantasia -, e a piedosa admiração pelo ninho no vértice das suas coxas faz com que a moralidade seja apenas uma vocação tempestuosa - quiçá obsoleta. Alice abre as pernas e os braços e se agiganta expondo a sua teoria sobre o existencialismo e o passar dos dias na tábua da vida. A volúpia do pássaro em suas mãos faz com que Alice seja dissipada na aventura de todas as palavras contidas num amontoado de folhas que as traças vão saborear. Pois que se faça a vontade das suas asas e se renove os seus voos cada vez mais alto, cada vez próximo ao teto do mundo feito Ícaro em desespero.


imagem: Jet Xptu/olhares.com