terça-feira, 23 de maio de 2017

SÉTIMO DIA



Havia muitos anos desde que a Sentinela do Tempo - resignada - depositou na palma da minha mão, a Chave que Desdobra a Eternidade e todos as trombetas soaram e a chegada do dia estendeu-se em campo aberto unindo todos os planos celestiais.  Uma lágrima escapando dos meus olhos transforma-se em diamante ganhando a credibilidade do Arauto de Todas as Verdades. Ambos, Sentinela e Arauto -, ajoelhados diante do Sol, quando em seu esplendor, corre o céu eclodindo a vida para dentro dos meus olhos-, outrora cegos,  entoam cânticos reverenciando a Hora do Choro Que Não é Triste. Um raio do espectro solar faz dissipar um resto de nuvens que já cumpriram sua missão e o Leão de Pedra reluz... 



para Odur 


domingo, 21 de maio de 2017

A LUA






Ela caminha cabisbaixa e indiferente aos cachorros sem dono que a seguem. A sombra dos postes passam trazendo uma mescla de tristeza e solidão. Sente o coração - (sabe que esta viva). Viva!Estar viva, mas, por quê? Lentamente seus olhos buscam a lua. Pálida. Silenciosa. Pendurada num pedaço do céu. Ama a lua.Sonha com a sua quietude – com sua solidão. Ela é a lua! Sente-se assim – pendurada num pedaço do céu. Sente o vento nos cabelos – o vento pode atravessar seu corpo, sente-se assim, fluída. Abre os braços e continua caminhando. Abre a boca buscando o ar à encher-lhe os pulmões. Esta vazia. Vazia de si. Oca de sentimentos. Os cachorros seguem calados – observando. Talvez entendam aquilo como uma brincadeira, mas,não participam, apenas observam. De súbito ela para. Junta as mãos em prece – os olhos marejados se desprendem da lua. Pássaros noturnos voam baixo. Tudo é silêncio e solidão. Triste ela percebe que não pode ser igual a lua. Suas pernas não suportam o peso do corpo – cai. Aquieta-se enrodilhada feito um bicho. Os cachorros deitam-se ao seu lado – silenciosamente aquecem seu corpo durante a noite fria.



PAISAGENS



Paisagens
Estou diante da janela e o vidro é tão fino e transparente que a paisagem lá fora me pertence. Metade de mim é o vidro e a outra metade é a paisagem. Como saber quando juntar as duas ou  qual delas é real? O vidro e a janela, as paredes de cores desgastadas, a paisagem navegando entre o verde e o azul num quadrilátero perfeito – útero!
Então me percebo encolhida como um feto esperando a hora do nascimento. A janela me permite ver o mundo, mas o vidro me impede de senti-lo. Não me permite tocar e respirar e até mesmo viver a paisagem.
(Sou engolida por ela)


 

terça-feira, 4 de abril de 2017

CARTA DE ALICE





Querido amor,

Dizer que não pensei em você durante o dia seria o mesmo que negar o sol e a lua - não dá! Estremeço a cada pensamento e ninguém, exceto eu, sabe que não me encontro só, neste paraíso longínquo do mundo -, chamado desejo. Agora já é noite e aquele vazio silencioso que conheço tão bem, foi violado pela musica inaudita da chuva. Ah, como é bom e reviver e respirar a chuva... e tudo que ela contém agora escorre pelo meu rosto num refrigério pelo corpo e eu sou como a fome dessa chuva sumarenta de frutas cítricas e sabores desconhecidos. De longe vem os tentáculos do mundo num disfarçado abraço, mas estou enraizada neste chão molhado e dos meus braços pendem os frutos e folhas e flores. Dos meus seios nus escorre a seiva que alimenta a vida embriagando a sua razão de ser homem entrincheirado na pauta do meu amor, de onde nunca vai sair, nem mesmo quando eu florescer em alma de infinito brilho e a sua compreensão se tornar uma insônia maior que a distância entre a sua boca e a minha.


para LAM




imagem: Erté



segunda-feira, 13 de março de 2017

ALICE E A COMPLEXIDADE EXISTENCIAL


Alice e a Complexidade Existencial

Alice caminha em silêncio sem saber  de onde vem essa força viva que a faz caminhar além dos desconfortos e  falsas verdades que só produzem angústia e a certeza de que está presa dentro de um contexto sem conseguir reformular a própria existência. Tenta preservar a  consciência e a humildade de quem nada mais é, que um caminhante. Ponderando o silêncio, faz o silenciar da alma buscando a internalização de cada pensamento diante da simplicidade da vida e da complexidade do viver. Alice é causa primeira de introspecções e sublimes lampejos de lucidez que ampliam a compreensão do que vive dentro e fora do seu coração. É mulher e isso justifica a elegância das dúvidas, a ilustração resplandecente da íris amarelada e a espiritualidade que lhe confere um ar quase angelical. Alice poderia ser um anjo, mas pertence a uma classe de seres humanos que exercem um encantamento por serem permanentemente assim - etéreos. 



sábado, 11 de fevereiro de 2017

TRISTITIA


TRISTITIA

A necessidade de viver e amar tem níveis tão profundos quanto as dificuldades para encontrar respostas a todas as minhas perguntas. Quero evoluir, mas carrego a tatuagem de todas as dores na alma e a solidão de todas as existências me toma de forma assustadora. Quando eu olhei para você pela primeira vez, o que senti foi o que me manteve disposta a nutrir de forma carinhosa, o sentimento que chamo Amor. Durante anos de busca e espera, eu não perdi o interesse em reconhecer seus traços através da leitura de sinais, que podem (eu sei) ser frutos do delírio da minha alma que é viva poesia. Busquei em você a alma gêmea, a imortalidade do verbo e a pressa da palavra sã, a calma do rio na ribeira e fúria do mar,  a paciência das nuvens e ferocidade dos raios, a duvida dos  caminhos e a sabedoria dos ventos. Busquei em você o amanhecer e o entardecer. O dia e a noite. O sol e a lua. A boca e o beijo. A mão e o afago. A verdade e a luxúria. Busquei em você o avesso da tristeza e a alegria do reencontro. Sonhei desesperadamente até perder a conta dos dias, até que o Tempo parou de existir e o passado e presente se misturaram diante de mim como um eclipse lunar/solar que me fez perder as minhas dimensões e eu passei a ser você. A certeza da minha felicidade é a sua existência assim como a minha tristeza é a certeza da sua ausência.
la tristezza non ha fine
tristesse n'a pas de fin
la tristeza no tiene fin


para Odur 




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

CONFESSO-TE!


Confesso-te!
______esta que vive em mim
ama e sofre e chora
morde os lábios e esfrega os olhos.
Esta que sou___se revela para pouca gente
(( incoerência?! ))
mas o verso sem rima
tenta unir o que nos separa ___o tempo sem pressa
ladeira a baixo até a flor de carne
retalho d'alma que nas veias pulsa
Ah, como eu quero teu amor assim bem louco
e este teu viver que me rodeia
em penas de arcanjo...

para Odur