quinta-feira, 17 de agosto de 2017

ALICE E O VENTO DO INCORFORMISMO


Bastou uma lufada do vento forte e um punhado de cisco nos olhos para Alice sair da linha - Putaquepariu! Ô vento do caramba!! Como se não bastasse merda de cachorro na calçada pra gente pisar, agora é o vento que nos joga lixo na cara! - Tasqueoupariu!!!! - e no instante seguinte se dá conta dos palavrões e com ar infantil, levanta o rosto olhando o céu,apenas com o olho esquerdo, já que o outro estava fechado por conta dos cisco e areia: Oh mãe, foi sem querer, mas cê tem que reconhecer que pisar em merda e levar areia nos olhos é foda!! E nem tente me lembrar dos conselhos da Madre Superior, afinal, ela já deve estar no inferno atucanando os miolos do próprio Diabo com seus conceitos sobre a moral e os bons costumes -, e falando em voz alta, continua caminhando, ora pela calçada de pedras polidas, ora pelas pedras da discórdia -, o tal "petit pavé". Não tardou para avistar outro montinho de cocô milimetricamente posicionado sobre o paralelepípedo. Sem muito o que pensar, Alice se posiciona ao lado do cocô - analisa demoradamente o volume e num movimento certeiro atola o sapato esmagando o monumental 'artefato fétido' artisticamente deixado no meio do caminho. Antes de sair caminhando, ela dá uma boa olhada no seu sapato apenas para saber o quanto está carregado de munição e sai a espalhar merda pela calçada sentindo o vento soprar folhas, ciscos e toda sorte de imundices em adoráveis redemoinhos...


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

É SÓ O MEIO DA VIDA


É só o meio da Vida e nada mais, então porque dizer que é tão difícil ser feliz?! Somente uma vez falamos que sonhar é uma outra forma de ser  ilimitado -, e o que nos falta para que isso seja verdadeiro?! Que merda é essa, que aos cinquenta anos somos taxados(as)  de velhos(as)?!? Decididamente nem aos noventa anos me sentirei velha - já profetizei isso! Todos os meus espaços são preenchidos pela felicidade de estar viva e viver de forma expressa tudo que se me apresenta. E o meu coração não aceita simulacros, por isso não tenho medo de amar profunda e verdadeiramente como deve ser toda entrega e não apenas impulsos de afetividade que não levam a nada. Podemos sonhar todos os sonhos de amor e não há nada que nos impeça de vivê-los. Essa é a minha força motriz -, é por isso que eu digo todos os dias: Eu te amo, Vida!

para Odur 


domingo, 13 de agosto de 2017

SONHO DE PAI


Eu cresci ouvindo você dizer que seu maior sonho era me levar ao altar vestida de noiva e para mim foi impossível não realizar o seu sonho. Meu amor por você estava acima dos meus próprios sonhos, então quando as coisas saíram temporariamente do meu controle, não tive outra escolha a não ser me dirigir na época à Maison De Paula (hoje Dee Paulla Estilista) e encomendar o tal vestido branco. Optei por algo simples e sem muito brilho, mas que encheram os seus olhos de alegria e lagrimas ao me chamar de 'princesa'!Pois é papai, nem tudo saiu como você sonhou para minha vida de princesa -, porém na minha condição de filha eu procurei poupar o seu coração das minhas tristezas e continuei sorrindo e mantendo o faz de conta enquanto foi possível. Não posso dizer que não tentei, sim eu tentei de todas as formas fazer valer a pena, mas não podemos mudar as pessoas então, eu mudei de atitude quando fiquei sem a sua presença - que era vital para mim -, a minha vida reclamou uma atitude mais madura da minha parte. Eu pensei em você, em tudo que me ensinou e entre Viver ou Morrer eu escolhi a Vida e as suas palavras norteando o meu caminho sempre, porque eu sou sua filha e o meu amor é eterno. Tudo valeu a pena só para te ver sorrir...





sexta-feira, 4 de agosto de 2017

VICISSITUDES DA VIDA



Em meio a essa vida louca, o Amor chegou como a noite chega para render o dia no objetivo da Vida e o dia rende a noite na consciência da humanidade. E por dias e noites a retidão das suas palavras me conduziam a mundos inimagináveis e onde quer que eu fosse, bastava apurar os ouvidos e a sua voz me pertencia aos ouvidos tanto quanto a sua alma pertence ao meu coração. E os meus olhos rasos d'água, muitas vezes resenhavam a sua imagem como se minh'alma estivesse a estudar cada detalhe da sua inquietação transbordante que me resgatava da escuridão para a luz da sua existência. Havia um sentido muito mais amplo que o relatar de sonhos e desejos latentes e a confissão do amor se fez na violácea hora entre a noite e o dia. Somente assim pudemos entender a significância da imortalidade aprisionada no impulso da carne que nos faz morrer e viver "sempre juntos, embora separados". 


para Odur


foto: LL


quarta-feira, 2 de agosto de 2017

LADAINHA


Tencionava que os meus temores fossem um segredo, mas a estranheza da noite chegou num tropel de cavalos loucos e o mundo estremeceu em agosto. Os pressentimentos alvoroçados e o assovio da Mãe da Noite se fez ouvir. Vinha da rua debaixo um murmúrio encalacrado e contínuo, mais parecendo a ladainha do Pai Eterno me obrigando à confissão dos meus pecados antes que eu pudesse evadir-me noite adentro sem ao menos deixar cicatrizes. Com a mesma rapidez que os cavalos passam por mim, a noite carrega os ruídos aparentemente guardando-os na memória do Tempo para que eu possa sempre me lembrar dos vestígios de um beijo sem explicação e do olhar de Caim sobre a Terra nua...


imagem: Sylva Zalmanson


sexta-feira, 28 de julho de 2017

É ASSIM QUE NASCE A POESIA


____é assim que nasce a poesia: de um impulso!
Há uma conexão entre o aqui e o 'acolá' -, e as informações que necessitamos nos são passadas diuturnamente, mas nem todos são capazes de entender as mensagens. Então nascem os poetas, que ao interpretar-se, traduzem a poesia do mundo em verso e prosa. Assim falando sobre amores, sobre as rosas, as noites, os mares e marés de sizígias, sobre o espírito e sobre a carne, os poetas seguem decifrando os enigmas da criação completamente imbuídos da eterna e divina arte de amenizar as dores do mundo na beleza da poesia. Sou poeta! Eu nasci assim -, se faço certo a minha poesia então é sinal  de que o meu caminhar é feito no sentido da luz, não o inverso.


foto: LL



domingo, 23 de julho de 2017

ENTRE O SER E NÃO SER


Nenhum lugar podia ser melhor que Oneiros. Não naquela época em que eu andava por lá, usando a velha calça jeans desbotada e os cabelos caídos sobre os olhos, levando no ombro, a bolsa tiracolo feita de barbante. Eu ansiava pelo anoitecer tanto quanto pelo amanhecer, porque as respostas para as minhas perguntas tanto se davam ao clarão da lua, quanto ao calor do sol. E não havia nada mais angustiante do que não poder me desvencilhar do Reino do Óbvio e viajar pelos céus daquele mundo fantasioso. A sombra de Yggdrasil era por demais convidativa às interpretações do Mundo Descarnado, tanto quanto era bom viajar naqueles balões coloridos sem o incômodo das lamurias de visitantes indesejados. O Tempo era mais que um ancião alquebrado, e aromava hortelã o seu halito enquanto me dizia chamar-se Yohanan. O Tempo não engole ninguém nem mesmo engoliu Jonas! Às vezes uma chuvinha amiúde feito brisa, obedecia o modo de bem viver das plantas e flores. Mesmo preocupada com os meus papéis de carta eu me permitia beber dessa água como se fosse água batismal. Todos os dias eu renascia na inocência de um ser irreal, enquanto lá fora -, o mundo se vestia qual Babilônia em sua glória obsoleta.


imagem: Chelsea Greene Lewyta