terça-feira, 19 de setembro de 2017

MAMULENGO


Eu vou por aqui e acolá, mamulengo que sou nas ruas desta cidade feita de panos de chita e barro queimado. Corro os meus passos sobre as pedras lisas, corro pra longe do escuro, do muro, do medo do fim do mundo. Em cada esquina, dois pares de olhos sem pálpebras, duas bocas sem dentes, duas mãos e uma pedra! Uma lata, um cachimbo, um escambo e dois palitos____um apito e o guarda Belo! Eu corro, eu subo a ladeira, escorrego na ribanceira e me faço broto de bananeira ( yés, nós temos banana!) e a puta que o pariu acende as luzes feito um Zeppelin apocalíptico e chove sobre nós o mijo sagrado de cada dia. E a cidade adormecida entre chitas e tafetás emite sons graves e agudos e padece num orgasmo transcendental pra renascer colorida entre peidos, merdas e mijos e o pão nosso de cada dia - amém!


foto: Curitiba/ LL 




sexta-feira, 15 de setembro de 2017

GALOPE MARTELADO



Ouviu-se um galope desenfreado.
- Quem vem lá?! Um ciclope, um unicórnio dourado, um centauro alucinado?! Não consigo distinguir, tudo é inútil e sobre mim a fatalidade de um espírito nostálgico.Todavia, a inutilidade da palavra vã, aproximou-se e a ocasião fez com que se cumprissem todos medos e sobressaltos que a alma enclausurada acomete. Há um instante de alerta e uma necessidade peremptória de confessar todo o meu amor, mas os sentimentos se extraviam antes mesmo que as flores possam fazer parte da primavera...
Posso dizer que de um modo geral, eu resisto aos sonhos, vez por outra, como a tinta que escorre sobre a folha branca criando imagens inexatas.




quinta-feira, 7 de setembro de 2017

PAISAGEM INTERIOR


_____eu morro sufocada neste álbum de retratos, que a descontinuidade do Tempo faz azular. Quanto mais eu contemplo os detalhes das penas dos pássaros, mais me dou conta de que não posso voar -, e num impulso me lanço ao abraço feito pintura de tinta guache e me penduro no dorso da ilusão de viver em você. Ah, os seus instintos mais primitivos a invocar-me a docilidade de quem vive à margem da realidade na luminosidade nos seus olhos de sol e poucas são as palavras que o Tempo  nos participa, porque nem o rio, nem a floresta, nem a montanha ou mesmo o mundo inferior pode separar o que provem de nossa alma e pode ser refletida no espelho d'água - benéfica e cristalina água que sacia a sede de todas as sedes: a felicidade de ser assim, tão sua.



para Odur



Imagem: Chelsea Greene Lewyta



quarta-feira, 6 de setembro de 2017

A FLOR



Meu coração se contrai e se expande em resposta ao Amor que me invade com as cores da primavera. É a flor que sai do ventre e traz consigo as línguas faladas e as línguas mortas que distraem a palavra feita da saudade que te reveste. Eu mencionei o seu nome enquanto a seiva corria pelos veios e ranhuras das folhas e pétalas e a elas ajuntei os pensamentos que a voz do meu coração soprou nos meus ouvidos. Nitidamente ouvi o que perdura entre nós -, o seu riso. A espontaneidade da sua risada obedece as curvas habituais no vermelho dos seus lábios e é tudo que eu preciso para me vestir de primavera ao bel-prazer de quem ama e se permite amar.


para Odur


foto: LL



domingo, 3 de setembro de 2017

A MINHA ALMA



A minha alma precisa da sua alma como fonte de energia, como fonte do amor verdadeiro, esse amor que nutre o Sopro Original. Minha alma, anseia e sofre nesta espera silenciosa onde sua boca beija minha boca, apenas no silêncio destas paginas em branco. A minha alma vaga pela noite num sopro do vento quente enquanto a sua alma da minha se distancia. A minha alma dorme em alguma nuvem depois de derramar a essência perfumada desse amor de longa espera e se aquietar num sono que estende pela eternidade. 

* para Odur




terça-feira, 22 de agosto de 2017

Vinho Seco - Poesia

DESEJOS


____um tanto jocosa diante da irreflexão
reconheci as minhas palavras penduradas no varal.
Já vira outrora 
as notas musicais enfileiradas no mesmo varal
enquanto Janis se lamentava em Piece Of My Heart
ardendo os meus lábios na obscenidade 
líquida de la fée verte.
O mundo exterior já não existe
e os meus olhos presos aos seus 
fazem a tempestade invocar todos os meus desejos
prelibando seus beijos


para Odur