segunda-feira, 11 de junho de 2018

PRIMORDIAL

Muitas tardes na minha vida eu olhava através das janelas destituída da esperança que nos mantém vivos e permanentemente à espera do amor. Ouvia ao longe os sinos e as ogivas riscavam o céu. O mundo luminoso contemplava o fogo e os caminhos eram diversos. A minha alma era diversa de mim. Qualquer que fosse o meu pensamento, era a tristeza quem falava. Era a tristeza quem desenhava moinhos de vento nos muros ao redor aprisionando os meus passos. Abandonar-me à solidão era professar o meu fracasso-, era perder-me entre as folhas de um velho livro e adormecer nas poesias de Quintana e acordar nas cartas de Nora Barnacle... O tempo era avesso ao amor e ao delírio de amar. Durante os dias que se seguiram, houve um certo embaraço, um certo ardor e depois tudo mudou. A visão tremeu diante de mim e eu já esperava por isso, então, me soltei em sonhos inacessíveis porquê a sua presença era alheia à minha vontade. Houve sístole e diástole e um reviver do sagrado que há em nós. _ Onde estivera? - e o mundo tornou-se a minha casa assim como a minha poesia  recobriu a máscara brilhando você bem aqui, dentro dos meus olhos __para sempre seus.

para LAM



quinta-feira, 31 de maio de 2018

CONSIDERAÇÕES


Considerações

Pouco tempo antes da minha salvação eu era os olhos do mundo e dos demais discípulos à minha volta. Aos olhos de todos, uma tarja de luto flamejante e um cálice de água benta. O velho ancião, cujo semblante suscitava melancolia, acendia os relâmpagos riscando o céu despido de estrelas. Ninguém podia sonhar. Ninguém podia sorrir. Os disfarces, as máscaras eram feitas de pesado metal retirado do útero da terra e cobriam a vergonha de todos. Não havia esperança. Uma singularíssima tristeza recaída sobre as crianças, impedia as orações e os folguedos. As sementes secavam amontoadas pelos quatro cantos sem a possibilidade germinar, impediam a rosa de exalar seu perfume. Os poetas calaram a poesia e o mundo silenciou. O sangue não era vermelho, as veias se prendiam em imensos teares na trama e urdidura dos ossos e o constrangimento dos antepassados era semelhante ao do pássaro que não pode alçar voo. Uma pedra rolou montanha abaixo abrindo uma ferida por onde enxofre e lava causticante fizeram um rio. Caim dançou a morte e a redenção e pássaro azul voou através daquele céu plúmbeo indo pousar no meu coração. Estava consumado.


ÚLTIMO POEMA DE MAIO



Quando a noite deita seu véu sobre a terra
meu coração se cala.

Mi'alma se cala, emudece e eu penso: porquê o meu amado não está ao meu lado, se o amor se faz presente em nós?
Tristeza maior não existe, que a ausência dos beijos teus
mesmo sentindo o teu amor a me envolver nas horas da tarde em suspiros e doces ais, meu coração clama, meu corpo reclama, mi'alma padece...

...ah, meu amor adorado, meu anjo de luz resplandescente, tua imagem, dos meus olhos não desvanece, e as tuas águas de flores brancas em cachoeiras amenizam a saudade da tua essência.

Último dia de maio...

Três estações se passaram e o meu amor e seu, seguem juntos. Fomos um no outro ungidos com óleo e bálsamo e as nossas silhuetas ficaram impressas no linho branco que recobre o Tempo.

Faz o caminho da nossa saudade, e lê estes versos suplica mi'alma
repousada em dor silente_____sempre a tua espera
pois o amor é dádiva da vida e não da morte.

Ultimo dia de maio e o teu ciclo se fecha dentro do meu. 


Para LAM




imagem Faisal Iskandar


terça-feira, 29 de maio de 2018

CÂNTICO DO PURO AMOR


CÂNTICO DO PURO AMOR

Caminhei sobre as folhas secas de outono, tingidas de sangue e ouro. Minhas vestes, em trapos se tornaram expondo a nudez da pele, os meus cabelos desgrenhados, as minhas mãos crispadas faziam sangrar o relicário acordando a sua imagem. Eu era a dor. Eu era a consistência da dor. Nem mesmo as aves noturnas, fugitivas do umbral e presas em teias pegajosas, eram minhas companheiras. Era a dor. A mais angustiante dor desfazendo os sonhos e a vontade de viver. A salmoura corria nas minhas veias e a planura dos meus ossos doía-me na urgência da lava fervente. Não havia horizonte aos meus olhos, porque não estava o meu amor ao meu lado. O negrume dessa noite recai sobre o coração dos homens, reparte amor, em tristeza e solidão. Há quem pense serem fantasmas, que, acorrentados à consciência da carne maldizem o amor, transformando açúcar em sal, ouro em pedras sem valor. Alimentam o monstro que os consome diuturnamente e reinventam um céu sem estrelas...

Era o sexcentésimo septuagésimo sexto dia!
O meu olhar finalmente encontrou o espelho dos seus olhos
Morri e perdi a conta de quantas vezes renasci
Menina
Mulher
Sacerdotisa do seu amor
Amante do seu corpo
Mulher
Menina
Nos seus sonhos.
Naquele momento
Na ansiedade suarenta das mãos
Que se reconhecem ao primeiro toque
Não existe passado
Não existe futuro
Existe a procura
A sede
O sonho
A vida
O amor
A fome
O desejo
E o beijo se derrama liquefeito
De afogamentos em ondas convulsivas
Em nossos lábios náufragos.


... um céu sem estrelas é manto de veludo jogados aos pés da santa, é mortalha do Sagrado Coração pendurado na parede que acende o medo nos seus olhos de menino...

Era o meio do dia!
“Dê-me as suas as suas mãos
As minhas são suas”
Passos e caminhos
Pedras gastas
Calor
Ruas
Carros
Praças
Casas
Portas
Escadas
Porta
O mundo girando a sua presença
Feito um anjo em carrossel
O meu paraíso
O meu pecado
O dorso
O reverso
O côncavo
A fonte
A dádiva
A fêmea
O Macho
Alfa e Omega
A pedra
O sacrifício
A dor
O prazer
A vida
O amor

... nas águas de um rio batizei os meus pés-, deixei para trás todas as mulheres que eu fui, todas as mágoas, todas as lágrimas e renasci criatura ante o criador. Recitei um salmo, colhi uma flor, comi uma fruta, beijei suas mãos, afaguei seus cabelos, respirei o seu sono, me aqueci no seu corpo adormeci em você pra nunca mais acordar em mim...

“Será que isso é amor? Um puro amor, uma quase maré?”

... uma praça, uma igreja, poesia de boca em boca ____ sua boca e a minha seu olhar e o meu____um pedaço de pão, um gole de café, sua risada e um beijo gelado de sorvete. Uma foto na janela, uma cerveja outro beijo, uma subida e uma descida, um cigarro e um descanso, seus pés descalços, seu corpo nu, cicatrizes, maciez, ternura, sua boca, seus dedos, um papel, um livro, uma foto. Uma janela de vidro, um rio e suas lembranças... uma libélula pousa na minha mão____ isso é amor sem ter começo e nem fim. Somos dois, somos um e o tempo brincando ao redor daquele menino...

Só um menino...
Só um menino/amor


Cânticos
cântico dos cânticos, que é de Salomão.
Beije-me ele com os beijos da sua boca; porque melhor é o teu amor do que o vinho.
Suave é o aroma dos teus ungüentos; como o ungüento derramado é o teu nome; por isso as virgens te amam.
Leva-me tu; correremos após ti. O rei me introduziu nas suas câmaras; em ti nos regozijaremos e nos alegraremos; do teu amor nos lembraremos, mais do que do vinho; os retos te amam.
Eu sou morena, porém formosa, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão.
Não olheis para o eu ser morena, porque o sol resplandeceu sobre mim; os filhos de minha mãe indignaram-se contra mim, puseram-me por guarda das vinhas; a minha vinha, porém, não guardei.
Dize-me, ó tu, a quem ama a minha alma: Onde apascentas o teu rebanho, onde o fazes descansar ao meio-dia; pois por que razão seria eu como a que anda errante junto aos rebanhos de teus companheiros?
Se tu não o sabes, ó mais formosa entre as mulheres, sai-te pelas pisadas do rebanho, e apascenta as tuas cabras junto às moradas dos pastores.
Às éguas dos carros de Faraó te comparo, ó meu amor.
Formosas são as tuas faces entre os teus enfeites, o teu pescoço com os colares.
Enfeites de ouro te faremos, com incrustações de prata.
Enquanto o rei está assentado à sua mesa, o meu nardo exala o seu perfume.
O meu amado é para mim como um ramalhete de mirra, posto entre os meus seios.
Como um ramalhete de hena nas vinhas de En-Gedi, é para mim o meu amado.
Eis que és formosa, ó meu amor, eis que és formosa; os teus olhos são como os das pombas.
Eis que és formoso, ó amado meu, e também amável; o nosso leito é verde.
As traves da nossa casa são de cedro, as nossas varandas de cipreste


para LAM


https://youtu.be/I1aNlwQOx-0

quinta-feira, 24 de maio de 2018

CORAÇÃO DE PÁSSARO


Naquela tarde o pássaro pousou com suavidade e ardência. E todos os detalhes mais precisos e preciosos foram inseridos no vermelho da carne. Quanto mais contemplava, mais a esfera girava e quanto a mim, não sentia a necessidade de explicar nada a não ser me abandonar naquela dança e sentir a minha transformação interior. O início das cores, o fundo azul de todos os sonhos, era mais que um escudo de tonalidades fortes e o pássaro a me guiar por entre as nuvens e a exatidão das pernas - o rio, as águas, as corredeiras tormentosas  e a esfera, a cabeça de todos os sentidos pousada às margens dos meus lábios, ressuscita! Não há limites no coração do pássaro e nunca haverá, porque a plenitude do voo foi sentido em cada terminação nervosa da pele que me reveste.

para Odur


imagem: Miró

quarta-feira, 23 de maio de 2018

TRAMAS & NÓS


Em mim ficou o que a vida resume: antigas coreografias, tramas e urdiduras, a inconstância dos fios da seda, a dissimulada carícia do vento soprando os meus cabelos. O cheiro adocicado da pipoca caramelada, o rodopio do pião, o requebrado da mula-manca, os desenhos de giz  nos muros  e paredes. A câmara secreta, a casinha na árvore, a maquininha de costura, as bonecas peladas, a chita florida e as muitas histórias. O olhar interrogativo, o lábio mordido, o nariz empinado. O braço engessado, o grito e a risada. A mordida e o beijo. A cobra e a salamandra. O verde e o azul. A palavra. A palavra. A palavra. O meu tempo não tem barreiras, eu voo longe da Terra  e desenho o mundo numa trama de fios e nós e amarro o coração viajante no olho do furacão.

foto:LL




ALICE E AS ESTAÇÕES


De todos os dias, houve um que foi mais branco que todos. Um dia de ausências, idas e vindas ralando a pele abrindo feridas, expondo a planura dos ossos. Foi um dia tenso e tudo findou em negrume desmantelo da alma. Coisa mais que estranha - doidice até! A tia velha caminhando pra lá e pra cá, no peito a medalha sagrada de São Bento e nas mãos, a bacia esmaltada de azul português, o sal, o alho, a cebola macerando folhas de ora pro nobis. De longe, Alice observa  o silêncio  feito de escamas e a grande cobra d'água aquece o corpo enroscada aos seus pés, sibilando vez ou outra -, coisas que só Alice pode ouvir e entender. O que era um segredo na boca daquela velha senhora, já não faz sentido pois até mesmo os pássaros abandonam velhos ninhos feitos de cabelos brancos. O tempo passou e a velha senhora se perdeu entre amargura e rabiscos. Quer renascer na  sedução fervendo tomilho, manjericão e tília, mas o pote de todos os sonhos não pertence a ninguém, não sacia a sede do umbigo, muito menos paixões irremediáveis. Alice se poe a caminho e olhando por sobre ombro, pensa: não vale a pena! rsrsrs



imagem: Avery Palmer