domingo, 15 de julho de 2018

NEM TUDO É LENDA



O que me encanta é essa maciez da sua pele e os seus pelos ao vento das carícias plenas. O que me encanta e me faz perder o juízo, é a 'fundura' do seu olhar e o rastilho de pólvora que é o seu pensamento. Ah! se o tempo parasse agora e a noite pudesse nos livrar desse abismo que nos separa, não haveria mais escapatória-, seríamos a conjugação do verbo amar.

ENTRE O DELTA E A ESPADA



Por que foi, que Deus criou a mulher com seus versos alcalinos e seu olhar profano? Deu-lhe alma possuída de pecado e santidade – prostituto desejo de amar esmiuçando a carne e o ventre em rosa flor. E tu, em adoração e ternura na orgia exaspera a carnadura, entregando-se à tortura de amar sem ter razão. Entre o delta e a espada - a flor e suas pétalas - orvalho, manancial, vertente de peixes nadando na imensidão do teu rio de infinitas mortes, sem nunca saber quem é cativo de quem.


imagem: Roberto Ferri

terça-feira, 10 de julho de 2018


Não me peças palavras, nem baladas, 
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio, 
Deixa cair as pálpebras pesadas, 
E entre os seios me apertes sem receio. 

Na tua boca sob a minha, ao meio, 
Nossas línguas se busquem, desvairadas... 
E que os meus flancos nus vibrem no enleio 
Das tuas pernas ágeis e delgadas. 

E em duas bocas uma língua..., — unidos, 
Nós trocaremos beijos e gemidos, 
Sentindo o nosso sangue misturar-se. 

Depois... — abre os teus olhos, minha amada! 
Enterra-os bem nos meus; não digas nada... 
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce! 


SONETO DE AMOR

José Régio


segunda-feira, 9 de julho de 2018

 O que este punhal tem de ave
São as asas da imaginação
A dor voa mas volta sempre
E pousa no meu coração.
Voa gaivota breve
Voa leve
Que o mar tem a lama dos peixes
E a solidão do poeta.

ASAS

Raimundo Fagner/Abel Silva

Luas, marfins, instrumentos e rosas, 
Traços de Dúrer, lampiões austeros, 
Nove algarismos e o cambiante zero, 
Devo fingir que existem essas coisas. 
Fingir que no passado aconteceram 
Persépolis e Roma e que uma areia 
Subtil mediu a sorte dessa ameia 
Que os séculos de ferro desfizeram. 
Devo fingir as armas e a pira 
Da epopeia e os pesados mares 
Que corroem da terra os vãos pilares. 
Devo fingir que há outros. É mentira. 
Só tu existes. Minha desventura, 
Minha ventura, inesgotável, pura. 

O Apaixonado



Jorge Luis Borges, in "História da Noite" 

Tradução de Fernando Pinto do Amaral 

domingo, 8 de julho de 2018



Não chame o meu amor de Idolatria 
Nem de ídolo realce a quem eu amo, 
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo. 
É hoje e sempre o meu amor galante, 
Inalterável, em grande excelência; 
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença. 
'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo; 
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento; 
E em tal mudança está tudo o que primo, 
Em um, três temas, de amplo movimento. 
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora; 
Num mesmo ser vivem juntos agora.


SONETO CV

William Shakespeare



"Nesta profunda solidão e terrível cela,
Onde a contemplação celestial do pensamento habita,
E sempre reina a meditação melancólica;
Que significa esta agitação nas veias de uma virgem?
Por que meus pensamentos se aventuram além do último retiro?
Por que sente meu coração este amplo e esquecido calor?
Ainda, ainda eu amo! De Abelardo veio,
E Eloisa ainda deve beijar seu nome.

Querido fatal nome! Restos nunca confessados,
Nunca passarão estes lábios no sagrado silêncio selado.
Ocultá-lo, meu coração, dentro desse disfarce fechado,
Quando se funde com Deus, sua falsa idéia amada:
Ó mesmo não o escrevendo, minha mão - o nome aparece
Logo escrito – a purificação acabo com minhas lágrimas!
Em vão a perdida Eloisa chora e reza,
Seu coração ainda manda, e a mão obedece.

Inexoráveis paredes! cuja obscura ronda contém
Arrependidos suspiros, e amarguras voluntárias:
Vós rochas fortes! Que santos joelhos desgastaram;
Vós grutas e cavernas inalcançáveis com horrível espinhas
Santuários! onde as virgens mantiveram seus pálidos olhos,
E a tristeza dos santos, cujas estátuas aprenderam a chorar!
Embora frio como você, imóvel, em silêncio crescente,
Eu ainda não esqueci-me como pedra.

Nem tudo está no céu enquanto Abelardo tem parte,
Ainda a natureza rebelde mantém a metade de meu coração;
Nem a oração nem os jejuns acalmaram seus impulsos persistentes,
Nem as lágrimas, ou a idade, o ensinaram a fluir em vão."

(...)


Eloisa e Abelardo 

Alexandre Pope