terça-feira, 4 de abril de 2017

CARTA DE ALICE





Querido amor,

Dizer que não pensei em você durante o dia seria o mesmo que negar o sol e a lua - não dá! Estremeço a cada pensamento e ninguém, exceto eu, sabe que não me encontro só, neste paraíso longínquo do mundo -, chamado desejo. Agora já é noite e aquele vazio silencioso que conheço tão bem, foi violado pela musica inaudita da chuva. Ah, como é bom e reviver e respirar a chuva... e tudo que ela contém agora escorre pelo meu rosto num refrigério pelo corpo e eu sou como a fome dessa chuva sumarenta de frutas cítricas e sabores desconhecidos. De longe vem os tentáculos do mundo num disfarçado abraço, mas estou enraizada neste chão molhado e dos meus braços pendem os frutos e folhas e flores. Dos meus seios nus escorre a seiva que alimenta a vida embriagando a sua razão de ser homem entrincheirado na pauta do meu amor, de onde nunca vai sair, nem mesmo quando eu florescer em alma de infinito brilho e a sua compreensão se tornar uma insônia maior que a distância entre a sua boca e a minha.


para LAM




imagem: Erté



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