sábado, 12 de novembro de 2011

QUANDO AS DÁLIAS FLORESCEM


QUANDO AS DÁLIAS FLORESCEM


Sempre que vejo uma dália florescida, me lembro das suas palavras - “que linda!”...E se pudesse, ela certamente a levaria para dentro de casa e a coloria num vaso. Nossa casa tinha um imenso jardim e grande variedade de flores. Eram dálias coloridas, rosas, hortências, begônias, cravos, jasmim, gladíolos  e uma infinidade de samambaias, orquídeas e trepadeiras espalhadas pelos troncos das árvores do quintal. "Ela possui mãos abençoadas!" - todos diziam isso. Sempre que saía para um passeio, voltava com uma nova muda de uma flor diferente e nosso jardim crescia sempre e vivia florido.Ela era de uma docilidade típica dos anjos. Sempre tão solícita, tão espontânea  que era impossível não gostar de seu sorriso, de seus abraços, de sua amizade...Acho que fez tantos amigos quanto estrelas no céu. Nunca a ouvimos reclamar de qualquer coisa, mesmo essas, sem importância, tudo era fácil de ser entendido e aceito com dedicação. A vida era apenas um bom motivo para ser feliz e assim, ela distribuía seu carinho com as pessoas de seu convívio.Às vezes, eu sinto que cheguei abusar desse carinho... Fazia todo tipo de pedidos à ela, que prontamente me atendia, cobrindo-me de mimos. Sempre estava ao meu lado, protegendo minhas peraltices de criança e atenta aos perigos... Um anjo que Deus, colocou na minha vida para cuidar dos meus passos, atendendo meus caprichos e colorindo nossa casa com suas dálias.Infelizmente a vida tem suas surpresas. Numa brincadeira tola, aconteceu o acidente. Uma queda - que interrompeu toda essa emanação de carinho. Houve a queda, a dor e como consequência, os quatro anos de tratamento com fisioterapia, massagens e injeções e tudo isso em vão. Na persistência dos sintomas e comprometimento motor, foi decidido pelos nossos pais (isso depois de muitos exames), que a cirurgia era o mais indicado para a descompressão do nervo ciático...E pela primeira vez, nós vimos o medo em seus olhos e uma negativa em suas palavras. Mas a cirurgia era inevitável; aconteceu no final de junho de 81. Coincidentemente, era nosso aniversário no mês seguinte. Ela no dia quatro, eu no dia seis e como sempre, comemorávamos com uma unica festa. Juntas, cúmplices na alegria dos presentes, nos amigos, nos sorrisos e no sopro das velas...Mas em 1981, pela primeira vez não houve festa, ela estava no hospital. Não teve bolos e nem os presentes, apenas o seu olhar aos amigos que levaram a ela, um abraço e carinho até seu leito, de onde ela sorria retribuindo... Não aconteceu uma festa, não teve bolos, nem presentes - só as velas e as flores. Mas essas velas que foram acesas no dia 11 de julho de 1981, eram velas tristes... Chorando um pranto silencioso, escorrendo em suas lágrimas de cera quente, a dor... Teve flores, muitas, muitas flores coloridas e coroadas de silêncio e pesar. Todos os abraços que eu recebi naquele dia foram de tristeza e em todos os olhos que eu olhei, vi apenas tristeza e dor banhada de lágrimas. O silêncio dos meus pais era pesado, ausente e morno... Triste foi o beijo que deram em seu rosto frio...Um beijo de 'adeus' separando-os do convívio com ela nesta existência física. Aquele beijo foi à coisa mais triste que eu já vi e senti; meus pais perderam uma filha e isso contraria a lei natural da vida... E eu, eu perdi minha irmã, minha única irmã. O meu anjo doce de candura. Doce como seu nome Dulce... doce...dolce...dolce Dulce, adeus.


...para você minha irmã, toda minha saudade.



Nenhum comentário:

Postar um comentário