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quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

CONVERSANDO COM ALICE - 01



6:30 - o alarme do celular toca: " Tô no trabalho pensamento em você, tão desconcentrado só penso em te ver"  


Alice acorda de sobressalto e procura o celular embaixo do travesseiro. Dá um beijo na foto do João Bosco, que usa como protetor de tela - Bom dia, meu amor! Tô atrasada, hoje não da tempo de dar uma... Apressada corre pro banheiro, levando as roupas na mão. Liga o chuveiro e a água não esquenta.  

_ Pôrra! Essa merda queimou de novo! Esbravejando um pouco, Alice entra no banho rápido e gelado.

A porta do banheiro se abre e Claudete entra esfregando os olhos, abaixa a calcinha e senta no vaso.

Alice olha a amiga pelo espelho e reclama:

_ Ôrra, meu! Vê se não vai poluir o ambiente!

_Só um xixizinho básico, amiga, ontem eu sai com o pessoal do hospital. Bebemos todas. Nem sei como cheguei em casa.

_ Clau, você sabe que não pode beber que perde a linha rsrsrs, solta a franga. Quem foi a vítima dessa vez?

_ Ai amiga, deixa eu te contar...

_ Depois Clau, agora não dá. Tô atrasada.  Veste a roupa apressada, se olha no espelho enquanto passa o batom: Tô precisando fazer outra progressiva, mas cadê dinheiro?!

Bejim. Fui.

Alice desce os três lances de escada, saltando os degraus de dois em dois e logo está na rua.

_ Ô, merda! Ô São Pedro, garoa agora?! Pô meu, segura ai!

Corre até o ponto do ônibus, entra na estação tubo, vê o ônibus chegando, lê o letreiro: "Santa Cândida / Capão Raso" . Com o coração aos pulos entra no ônibus e seus olhos procuram por "ele". Logo o encontra, sentado no mesmo lugar. No penúltimo banco .

O ônibus esta super lotado, Alice vai se espremendo entre os passageiros e consegue chegar ao fundo do coletivo. Posiciona-se entre o penúltimo e o último banco, e, então baixa o olhar vagarosamente sobre o homem sentado e deixa o pensamento fluir - Como ele é lindo! Pena que nem me vê.  Alice respira fundo tentando sentir o perfume do homem. Olha detalhadamente os cabelos úmidos, observa o rosto barbeado, as mãos segurando a pasta de executivo, dessas bem caras, couro preto com detalhes em metal dourado. De repente o homem vira a cabeça, olha para cima direto nos olhos de Alice. Um olhar firme, penetrante. Parece ler os pensamentos dela. Sente o rosto queimar e um calor invade o seu corpo. Constrangida tenta desviar o olhar, mas não consegue. Está hipnotizada por aqueles olhos castanhos. Um mundo de situações se passam nestes rápidos segundo em que os dois se olham... "o perfume dele e, aqueles lábios se aproximando dos seus. Entreabre os lábios fecha os olhos imaginando o toque macio e úmido da língua quente roçando os seus lábios..."

O inesperado acontece: uma freada brusca interrompe o momento e o homem baixa a cabeça olhando para as mãos, e Alice desperta do sonho quase perde o equilíbrio e para não cair, solta a bolsa a tempo de se segurar na lateral do banco onde o homem está sentado. No empurra empurra que acontece dentro do coletivo, ela não percebe que o celular cai, e apressada, recolhe apenas a bolsa  mudando de lugar procura ficar próxima à porta de saída, pois a Estação Central Comendador Fontana é a próxima parada. O homem também se levanta e ao fazê-lo, percebe o celular junto ao seu pé. Instintivamente ele sabe que o celular é da moça que derrubou a bolsa, recolhe o aparelho para devolver. Procura a moça com os olhos, mas a vê saindo  apressada, já dentro do tubo. Lembra-se do olhar da moça e resolve guarda o celular, sabe que no dia seguinte poderá devolvê-lo.

Alice olha a Rua XV de Novembro e se descobre num mar de  guarda-chuvas coloridos,  vai caminhado com passos rápidos até a loja, onde trabalha como vendedora. Quando vai guardar suas coisas no armário, resolve ligar para Claudete avisar o sindico sobre o chuveiro queimado. Procura o celular dentro da bolsa e não o encontra.

_Puta que o pariu!! Perdi meu celular - vocifera em voz alta assustando as colegas que estão no vestiário. Tati, se aproxima e pergunta o que está acontecendo:

_ Que foi "guria"? Pra que tanto "cacarejo "logo cedo??

_ Que merda, Tati! Perdi meu celular e nem terminei de pagar. Puta que o pariu! Foi no ônibus, eu derrubei a bolsa e o celular caiu, só pode! Ô final de ano fuuudidooo!!!!

_ Bora trabalhar "guria", tem muita coisa nova pra repor na seção infantil. Depois a gente conversa sobre isso e vê o que dá fazer.

_Ôrra! Vou ter que comprar outro e meu cartão ta no mico. Quero ir ver meus pais no Natal e não posso gastar mais.

Alice, se olha no espelho antes de sair e novamente o corpo treme ao lembrar do homem que viu no ônibus. Como será o nome dele? Será que é casado?! Putz! Não olhei se ele usa aliança, mas amanhã eu dou uma boa olhada.

E com estes pensamentos , ela sai do vestiário dirigindo-se à seção infantil...



imagem: Lina Faria

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

UM CONTO DE NATAL


Um Conto de Natal

Parado diante da árvore de Natal ele intensifica o olhar
no brilho dos enfeites coloridos. Seu olhar percorre com a inocência típica da infância, toda seqüência de cores e o brilho onde ele poderia voar... 
Queria voar para além daquele tempo e daquela inocência. Voar para dentro daquela bola de cristal que guarda uma paisagem de outras terras. Queria uma paisagem natalina com neve caindo no seu rosto sardento e abrir um enorme sorriso sem se lembrar da “janelinha” [ele estava trocando os dentes] e isso deixava o seu sorriso um tanto restrito. Queria sentir o frio e a maciez da neve... Queria conhecer a neve. Queria conhecer outros lugares outras terras. Era inquieto em seus pensamentos “voadores” e voava, voava...
Estava tão ausente que não ouviu os passos do pai apenas sentiu a sua mão pousando em seu ombro forçando-o a realidade. Olhou a volta viu as irmãs brincando. Ouviu a conversa da mãe e da irmã enquanto preparavam os pratos que seriam servidos no almoço de Natal. A “ceia” não tinha importância para quem acorda com os primeiros raios de sol. Pensava nisso tentando distinguir os aromas que vinham da cozinha onde o fogão à lenha ardia a chapa e aquecia o forno de onde saiam os biscoitos em formatos de árvores, botas, estrelas e cometas e que depois de frios eram confeitados pela mãe com glacê colorido e pequenas bolinhas prateadas. Gostava disso. Açúcar colorido e azedinho. Gostava disso.
Gostava do Natal. Era bom porque ganhava sempre algum presente. Um dia ganhou um cavalinho de madeira e virou um Príncipe e salvou a Princesa lutando contra um dragão e lutou por vários e vários dias até o cavalinho perder um olho depois o outro e ficar esquecido lá no porão. Teve também um cata-ventos azul e vermelho e um pião colorido que girava, girava muito, mas este se perdeu nas águas de um rio. E vários livros cheios de letras que lhe contavam estórias enquanto dançavam diante dos seus olhos.
A chegada de alguém interrompe seus pensamentos. São os tios e primos que vieram para o Natal. Muito riso e brincadeiras. O pai sempre alegre, a mãe tão carinhosa a casa cheia de gente e o perfume das comidas o faziam desejar que o tempo não fosse adiante. Lembra-se de ter pedido isso ao Papai Noel. Pediu que o dia do Natal fosse sempre assim. E nem se percebeu que o tempo faz as coisas ficarem deferente. Um dia aquela bola de vidro com a paisagem natalina caiu e se quebrou. E o tempo tirou-lhe as sardas do rosto e o fez crescer. Deu-lhe barba, responsabilidade, mas manteve o mesmo sorriso e o mesmo olhar inquieto. Hoje ele olha uma árvore de Natal mais bonita e maior e pensa nas coisas que mudaram tanto. Ouve outros risos de criança, sente outros cheiros vindo da cozinha, mas não sente o peso da mão do pai em seu ombro nem ouve a risada da mãe lá na cozinha. Olha para os presentes embaixo da árvore. Não tem pião, nem bonecas de pano e nem mesmo o cavalinho de madeira... Um pouco decepcionado baixa o olhar e encontra uma bola de cristal com uma paisagem natalina. Lá dentro, brincando na neve fria está a Princesa que ele salvou do dragão. Ela o vê e sorri, abre os braços como se quisesse abraçá-lo. –“É Natal, meu amor!” ela grita –“Vem, vamos correr na neve, vem, eu te espero!”.
Ele esta tão ausente que não percebe os passos atrás de si até sentir o peso da mão em seu ombro e alguém chamando para a ceia de Natal. Ele, o Príncipe, olha novamente para a grande bola de cristal e a Princesa lhe joga um beijo e se vai. A neve continua a cair dentro da bola de cristal.



sábado, 12 de novembro de 2011

QUANDO AS DÁLIAS FLORESCEM


QUANDO AS DÁLIAS FLORESCEM


Sempre que vejo uma dália florescida, me lembro das suas palavras - “que linda!”...E se pudesse, ela certamente a levaria para dentro de casa num vaso. Nossa casa tinha um imenso jardim e grande variedade de flores. Eram dálias coloridas, rosas, hortências, begônias, cravos, jasmim, gladíolos  e uma infinidade de samambaias, orquídeas e trepadeiras espalhadas pelos troncos das árvores do quintal. "Ela possui mãos abençoadas!" - todos diziam isso. Sempre que saía para um passeio, voltava com uma nova muda de uma flor diferente e nosso jardim ganhava vida e cor  sempre. Ela era de uma docilidade típica dos anjos. Tão solícita, tão espontânea  que era impossível não gostar de seu sorriso, de seus abraços, de sua amizade... Fez tantos amigos quanto estrelas no céu. Nunca a ouvimos reclamar de qualquer coisa, mesmo essas, sem importância, tudo era fácil de ser entendido e aceito com dedicação. A vida era apenas um bom motivo para ser feliz e assim, ela distribuía seu carinho com as pessoas de seu convívio.Às vezes, eu sinto que cheguei abusar desse carinho... Fazia todo tipo de pedidos à ela, que prontamente me atendia, cobrindo-me de mimos. Estava sempre ao meu lado, protegendo minhas peraltices de criança e atenta aos perigos... Um anjo que Deus, colocou na minha vida para cuidar dos meus passos, atendendo meus caprichos e colorindo nossa casa com suas dálias.Infelizmente a vida tem suas surpresas. Numa brincadeira tola, aconteceu o acidente. Uma queda - que interrompeu toda essa emanação de carinho. Houve a queda, a dor e como consequência, os quatro anos de tratamento com fisioterapia, massagens e injeções e tudo isso em vão. Na persistência dos sintomas e comprometimento motor, foi decidido pelos nossos pais (isso depois de muitos exames), que a cirurgia era o mais indicado para a descompressão do nervo ciático...E pela primeira vez, nós vimos o medo em seus olhos e uma negativa em suas palavras. Mas a cirurgia era inevitável; aconteceu no final de junho de 81. Coincidentemente, era nosso aniversário no mês seguinte. Ela no dia quatro, eu no dia seis e como sempre, comemorávamos com uma unica festa. Juntas, cúmplices na alegria dos presentes, nos amigos, nos sorrisos e no sopro das velas...Mas em 04/07/1981, pela primeira vez não houve festa, ela estava no hospital. Não teve bolos e nem os presentes -, apenas o seu olhar aos amigos que levaram um abraço e carinho até seu leito, de onde ela sorria retribuindo... Não aconteceu uma festa, não teve bolos, nem presentes - só as velas e as flores. Mas essas velas que foram acesas no dia 11 de julho de 1981, eram velas tristes... Chorando um pranto silencioso, escorrendo em suas lágrimas de cera quente, a dor... Teve flores, muitas, muitas flores coloridas e coroadas de silêncio e pesar. Todos os abraços que eu recebi naquele dia foram de tristeza e em todos os olhos que eu olhei, vi apenas tristeza e dor banhada de lágrimas. O silêncio dos meus pais era pesado, ausente e morno... Triste foi o beijo que deram em seu rosto frio...Um beijo de 'adeus' separando-os do convívio com ela nesta existência física. Aquele beijo foi à coisa mais triste que eu já vi e senti; meus pais perderam uma filha e isso contraria a lei natural da vida... E eu, eu perdi minha irmã, minha única irmã. O meu anjo doce de candura. Doce como seu nome Dulce... doce...dolce...dolce Dulce, adeus.


...para você minha irmã, toda minha saudade.



sábado, 22 de outubro de 2011

NOIVAS DO CAFEZAL





NOIVAS DO CAFEZAL


Debaixo de um sol de 40°graus, elas suavam os seus corpos cobertos, deixando à mostra apenas as mãos calejadas. Os rostos eram protegidos pelo chapéu e pelo lenço de pano branco. Nos pés, as pesadas botinas encarquilhadas, protegiam-nos contra os espinhos e gravetos das leiras no meio do cafezal.

Elas sempre estavam sorrindo e cantando alguma música das paradas de sucesso da época. Na maioria das vezes, música sertaneja e hinos (mãezinha do céu...), sei apenas que cantavam enquanto faziam a derriça do café. Isso atenuava o trabalho cansativo de segurar as ramas cobertas de frutos vermelhos, e com as mãos puxar com força para desprender os frutos do galho, na enorme peneira...

Isso era feito com todo carinho, retirando apenas os frutos maduros, e quando a peneira estava com uma quantidade suficiente, elas sacudiam de uma maneira cadenciada e os frutos subiam junto com as folhas e eram separados, como que por magia ainda no ar, caindo novamente na peneira enquanto  as folhas caiam no chão...

Durante toda a manhã, até quase onze horas, era assim, a cantoria, a derriça, o abanar e as folhas verdes pelo chão... De repente elas olhavam a posição do sol e a própria sombra projetada no chão coberto de folhas, uma a uma, deixavam suas peneiras junto aos pés de café, reuniam-se na sombra de alguma árvore próxima e começavam a preparar o almoço - requentado. Faziam um fogão improvisado com duas pedras previamente separadas para essa finalidade, chamavam as crianças para buscar gravetos e acendiam o fogo. A comida estava guardada em pequenos "caldeirõezinhos" com tampa, e embrulhados num pano de saco branco e alvejado, sempre  bordado com flores numa das pontas...

Enquanto a comida era aquecida no fogão improvisado, elas colhiam a "mistura", ali mesmo, no cafezal. Eram pepinos e maxixes espinhentos que se alastravam pelas leiras. Colhiam maços de  almeirão do mato, serralhas e beldroegas de folhas gordas e verdes... Tudo era lavado com água trazida nas moringas de barro que ficavam guardadas junto ao tronco de um pé de café para manter a "frescura", e depois de limpas, eram temperadas com sal, azeite e limão numa bacia de alumínio. Era uma salada coletiva. Todas serviam-se da mesma.

Nos caldeirõezinhos - arroz, feijão, farinha e um pedaço frango de capoeira, charque ou carne de porco, dessas que são fritas em pedaços grandes e guardas na própria banha numa lata bem tampada. Sempre tinha um ovo frito ou cozido, com sua gema amarelo forte, diferente até no gosto, se comparados aos ovos que eu comia lá em minha casa...

A sobremesa sempre era melão caipira, melancia, manga, araticum ou mamão, frutas que eram 'praga' no cafezal. Aquilo tudo para mim era uma festa, um manjar dos deuses. Eu comia sem pestanejar. E enquanto fazia a minha refeição, sentada à sombra, eu olhava para elas. Via os seus rostos - algumas eram jovens, outras eram mais velhas, mas todas me tão pareciam felizes em sua simplicidade.


Eu sentia a amizade entre elas, o carinho umas com as outras, sempre dividindo o pouco que tinham... Nas minhas férias eu sempre estava por lá, acompanhando meu pai e aprendendo com ele o amor e o respeito que devemos ter pelas pessoas que trabalham a terra. Eu era entregue aos cuidados de dona Olinda, que sempre preparava um "caldeirãozinho" para mim, tendo o cuidado de colocar mais feijão do que arroz e já sabendo da minha preferência ela fazia isso de 'coração alegre' - e sempre dizia: mas "seo" Moisés, a menina vai almoçar lá no eito??  E o meu pai dava a sua costumeira risada e finalizava: capricha no feijão!


Depois do almoço, as crianças voltavam às brincadeiras, e elas, ao cabo do rastelo e as ramas dos cafeeiros. Isso varava a tarde e a cantoria das pombas, dos bem-te-vis, dos anus podia ser ouvida. E ao longe o mugido triste dos nelores dava notas melancólicas anunciando o fim do dia. Em silêncio elas enxugavam o rosto e descansavam suas peneiras e seus rastelos, lavavam as mãos e chamavam novamente as crianças e  dividiam entre nós um pedaço de bolo de fubá ou pão doce e uma caneca de caldo de cana, trazidos de suas casas. Enquanto comíamos o lanche, elas recolhiam suas coisas e seguiam em fila, pelo meio do cafezal indo para suas casas, alegres por mais um dia de trabalho deixando para trás aqueles pés de café, gigantes para minha pequenez.

Quando eu me lembro da primeira vez que meu pai me mostrou um pé de café florido de cima a baixo, imaginei uma noiva toda de branco, coberta de flores perfumadas onde as abelhas vem buscar o seu alimento... Ainda hoje não conheço nada mais belo que um cafezal em flor, embalado pela cantoria das mulheres e suas mãos carinhosas, mas aquele cafezal onde brinquei tantas tardes existe somente nas minhas lembranças, assim como o gosto doce de seus frutos estarão comigo para sempre...


para dona Olinda e seu Otávio presos na minha memória

CIO



CIO


Em noite de lua cheia, ela sentia uma comichão nas “partes” e um calorão que lhe subia e subia até entontecer o juízo. E era um calor danado, mais quente que tição em brasa, muito mais quente que o “bafo” do Cão.

Ela soltava os cabelos enovelados, segurava a saia rodada, feita de chita florida, e , saia em disparada, com os seios balançando soltos dentro da blusinha branca.Corria, feito louca. Corria até que lhe faltasse o ar. Então caía, com o corpo retesado, cravejado de gotas de suor e a boca espumando uma saliva espessa e branca. Rolava pelo chão e urrava feito bicho, feito loba faminta - arranhava as coxas e mordia os lábios.

A lua meio escondida entre as nuvens, olhava assustada, aquele bicho lá embaixo se espojando nas folhas secas, babando e gemendo, se contorcendo no chão.
Às vezes, o vento trazia refrigério para aquele corpo em chamas e benzia aqueles pés afoitos, que se enterravam na areia úmida das barrancas do rio onde ela se refugiava.

Era uma loba. Uma loba faminta de carne. De sexo. Faminta de vida pulsando dentro do seu corpo e alimentando-a com estocadas profundas. Só isso a deixava saciada. Fazia com que ela voltasse a ser dócil, quase angelical. Mas a rezadeira havia feito um encanto.Trouxe um “cozido de ervas” e com isso foi feito um 'esfregaço' em seu corpo para afastar os demônios que a possuíam. E colocou em seu pescoço, o colar de ossos de pássaros e sementes de cheiro; para manter afastados os desejos da luxúria. De nada adiantavam as poções e patuás da velha bruxa, quando a noite chegava quente, ela sentia o  sangue ferver.

E se largava pelo campo e corria solta, rasgando as roupas  buscava o corpo do seu homem para acalmar a “comichão” e quando não o encontrava, ficava assim, feito um bicho se consumindo na fome da própria carne até se sentir aliviada e adormecer ali, no meio do mato sobre as folhas secas onde somente o vento vinha rezar os seus pés descalços.




O MORTO


O MORTO


No asfalto quente e rachado a refração dança diante dos olhos de quem se atreve a enfrentar as crateras fumegantes espalhadas pelo chão.Tudo é silêncio. Uma pasmaceira de morte. Nem os pássaros cantam. Nem as flores se abrem. Apenas um sino quebra a modorra do dia. Alguém morreu!
Lá na capela mortuária tem um corpo rijo deitado dentro de um caixão. Esta coberto com flores de tecido embebidas em essência de lavanda para disfarçar o cheiro da morte. Não sei se a minha curiosidade ou solidariedade me fez enfrentar a subida íngreme até a cidade dos mortos. Uma vez lá, olhei detalhadamente o rosto do morto. Parecia feito de cera e os olhos meio abertos lembravam gelatina. Os lábios estavam colados mantendo-se unidos e repuxados deixando um semi-riso na boca seca.
A barba feita às pressas deixou um caminho de pelos para lá e para cá. Mas o nariz!... Infelizmente deixaram as pontas de algodão aparecendo e avolumando as abas do nariz aquilino do falecido. Alguns pelinhos que faziam às vezes de antenas de insetos de tão grandes que eram.
Alguém devia ter tido a misericórdia de cortá-los. É lastimável chegar aos portões do Paraíso e ficar frente a frente com São Pedro tendo aqueles “pelinhos” saindo das narinas entupidas com algodão.
Mas o morto está morto! Não pode protestar. Não pode rir das piadas sem graça ou mesmo ser solícito com a viúva e seu choro de gato asmático.

Não pode descruzar os dedos, soltar as mãos e espantar aquela mosca zombeteira que passeia solene pelas bochechas amarelecidas parando vez ou outra para esfregar as patas. Todos veem a mosca, mas ninguém faz nenhum gesto para espantá-la. Ficam apenas cochichando entre uma olhada e outra para a cara do morto.
Uns dizem que ele, o morto, era “crente” e não poderia estar com velas acesas nos quatro cantos do caixão nem o enorme crucifixo norteando a sua passagem, mas a viúva não diz nada e continua com seu choro fino enquanto na copa as mulheres preparam o lanche para a “virada da noite”.
De repente aquele cheiro de café fresco que mais parece chá, de tão transparente que é[fraco e doce] e o incontestável cheiro de mortadela com pão. Uma criança derruba o pão. Senta-se no chão de ladrilhos vermelhos e respingados de cera de vela, apanha o pão e a mortadela e come tranquilamente sob o olhar indiferente da mãe. De onde estou fico pensando - Filho de pobre é imune a quaisquer micróbios de capela mortuária! – rsrs.
Chegam numa perua Rural azul e branca o Pastor e os obreiros para resgatar a alma do “irmão desviado” e garantir o seu lugar no céu. As “irmãs” aglomeram-se ao redor da viúva e começam a árdua tarefa de fazê-la parar de chorar e confirmar que o morto pertencia à irmandade para que se pudessem retirar as velas e o crucifixo e salvar a alma do pobre das labaredas do inferno.
Ela, a viúva deveria acertar os dízimos devidos à igreja garantindo com isso a entrada segura do morto. A mãe do morto que assistia tudo silenciosamente levanta-se calmamente e chega até o pastor, abre sua Bíblia e retira um papel encardido e dobradinho e mostra ao pastor dizendo que aquela era a passagem do filho dela para o reino dos céus - certidão de batismo na igreja católica.
Fez-se um silencio total onde se podia ouvir o zumbido da mosca. O pastor ainda tentou argumentar, mas a entrada do padre o deixa desarmado. Ficam frente a frente padre e pastor. Ninguém ousa dizer nada só uma criança chora pedindo mais “mortandela”.
O padre de batina preta aproxima-se do morto, abre a sua maletinha retira a Bíblia e o hissope e começa aspergir água benta sobre o morto virando-se repentinamente atinge o rosto do pastor e algumas obreiras que estavam perto. –“Ô pastor Eládio, mil perdões, mas me parece que o Todo Poderoso pressentiu a sua “secura” e resolveu dar de beber a quem tem sede”.
Olhando lá de cima, da varanda da capela mortuária pude ver que a lanterna traseira da velha Rural estava queimada enquanto ela descia a rua sacolejando nas crateras do asfalto precário. A noite se arrastou entre risos abafados, piadas sem graça, choros, cheiro de velas, cheiro café e “mortandela”. E na manhã seguinte o morto foi enterrado com os dedos cruzados sobre o peito e um risinho diferente nos lábios.


Ad Infinitum