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sábado, 24 de novembro de 2012

CONVERSAS PRÁ BOI DORMIR III - 'NECO E VICENTINO'


CONVERSAS PRÁ BOI DORMIR III  "NECO E VICENTINO"


- Vicentinooooooooooo... Ô Vicentino!

Nenaaaa, você sabe onde se enfiou aquele fiapo de gente?!
- Sei não, seu Salomão. Acho quí devi dí ta lá prás banda do córgo... saíu cás vara dí pescá...



Todos os dias eram assim: Meu avô perguntando pelo Vicentino sem que ninguém soubesse o seu paradeiro. E as  galinhas, ovelhas e os porcos todos por alimentar e o sujeitinho saia de fino e arrumava um canto sossegado pra fumar seu cigarrinho de palha e depois tirar uma pestana. Esse maravilhoso espécime do matuto esperto, ladino até não poder mais, morava na fazenda desde que lhe nasceu o primeiro dente. Fazia parte da família de agregados.

Vicentino foi criado por Nena, a cozinheira. Tornou-se rapaz e foi ficando, dava uma ajudazinha aqui outra ali, mas o que gostava mesmo era de dormir. O sujeito era magricela, com olhos enormes e um bigodinho fino. Preguiçoso para o trabalho, mas para comer e inventar desculpas, era diplomado. Aliás, ele nem tinha paladar, porque comia qualquer coisa que fosse agradável aos olhos. Dono de um coração enorme gostava muito de animais. Um dia apareceu com um filhote de urubu dentro do chapéu dizendo que seria seu bicho de estimação, queria ficar com ele. Nena e minha avó quase surtaram.

-Vicentino!!! Suma com esse bicho nojento!
- Dona Pilar, eli é tão bunitinho. Tadin, caiu du nínhu í pra mórdi eli num morrê dí fome, eu truxí eli. Vô dá um banhu nêli, vo dá dí cume í arrumá um caxótinho pra eli drumi lá nu quartinhu, mais eu.
-Você é quem sabe. Mas esse bicho come carniça, e eu não o quero aqui dentro de casa.
- Comi não, Dona Pilar. Vo insiná eli a cume só coisa limpa, a senhora vai vê. Posso ficá quêli?!
- Se você se responsabilizar por ele, sim, pode ficar, mas não o quero aqui dentro.

O filhote de urubu recebeu banho com sabão de coco, foi enxugado com toalha e devidamente acomodado num “caxótinho” para tomar sol, enquanto Vicentino preparava uma “pápa” de carne crua amassada com fubá bem fininho para alimentá-lo. O filhote recebeu o nome de Neco. Cresceu forte e saudável entre as galinhas, galos, patos e perus que circulavam no galinheiro, mas que não tinham a liberdade de voar. Neco acabou por conquistar a todos, desde o meu avô até a Nena, que antes sentia náuseas quando via o filhote sendo alimentado. Vicentino ganhou um companheiro inseparável para suas horas de vadiagem pelo pasto ou para horas de soneca escondido entre as sacas de café.
Ele se deitava e o Neco ia chegando com seu andar meio “bamboleante” e se acomodava esperando por um cafuné – era comum vê-los dormindo lado a lado enquanto o sol estava a pino!
Quando chegava a hora do almoço, Neco acordava de seus devaneios, abria as asas, dava uma boa espichada no pescoço parecendo “farejar” o cheiro da carne fresca sendo fatiada na pia da cozinha. Parecia sorrir quando saia aos pulos até tomar impulso e levantar voo indo direto pousar no jirau junto da janela, onde Nena [antigamente] colocava as panelas de ferro depois de areadas. Ficava ali, emitindo sons roucos para chamar a atenção e ganhar uns pedaços de carne fresca. Ficava horas olhando pela janela e depois de receber seu manjar fresco, aproveitava para alisar as penas ou simplesmente enfiava a cabeça embaixo de uma das asas e dormia.
Já o Vicentino com aquela cara de “fuínha”, esgueirava pela cozinha ou despensa furtando pedaços gigantescos de bolo de fubá, marmelada, queijo, biscoitos de polvilho, linguiças defumadas e tudo que pudesse servir de alimento e quando alguém reclamava, ele sabiamente dizia que era o Neco que havia assaltado a despensa. Parecia ter uma fome interminável e um baú cheio de desculpas esfarrapadas. Uma ocasião meu avô recebeu a visita de um amigo médico, Dr. Messias – bonachão e muito falante e depois de uma longa conversa no gabinete, prontificou-se a consultar todos os empregados.

Quando soube da novidade, Vicentino, que estava “quentando as mão” perto do fogão à lenha, foi saindo de mansinho com medo das supostas injeções e o Neco que não era bobo nem nada, foi junto.
Ao sentir a falta dele, meu avô pediu para Nena chamar o fujão. Foi inútil. Ele só voltou na tarde do dia seguinte após certificar-se que o “Dotô” havia partido. E voltou com muita dor na barriga,
depois de comer tanto milho cozido e assado no braseiro. Choramingando pediu um chá, e segundo o diagnóstico de Nena –“Eli tá impaxado! Vicentino tá qui é só gáis.Tem que tomá purgante!” – Mas o Vicentino era totalmente contra qualquer coisa chamada remédio, recusou o purgante.
Meu avô então, pegou o famoso vidro de “purgante”, ficou olhando e dirigiu-se á despensa. Quando voltou, nos avisou que não deveríamos comer o doce de leite que estava na gamela. Era um presente para o Vicentino. Ninguém entendeu, mas obedecemos enquanto meu avô saia dando gargalhadas. No outro dia, Nena preparava o café e sentiu falta de alguns petiscos de sua despensa. Havia sumido duas linguiças, metade de um queijo e o doce de leite com gamela e tudo. Perguntou a ele se havia pego, ele negou dizendo: -“Deve dí tê sido o Neco. Dí noite ele tava sem sono e cum muita fome. Acho quí cumeu tudo sozinhu. Êita bicho guloso, sô!”
Meu avô deu uma sonora gargalhada e disse: -“Humm... Sei!”
Não demorou muito e o Vicentino foi ficando meio amarelo e suando muito, até que não aguentando mais saiu correndo se trancando no banheiro. Ficou horas neste vai e vem enquanto meu avô dava gargalhadas e conversava com o Neco, que tranquilamente comia o seu dejejum de carne fresca e olhava virando a cabeça para o lado parecendo rir da situação. E como dizia meu avô: “Tem gente que tem o olho maior que o estomago.”
Mas no final tudo se resolveu da melhor maneira possível e Neco e Vicentino ainda aprontaram muitas lá na fazenda...




sexta-feira, 23 de novembro de 2012

CONVERSAS PRÁ BOI DORMIR II - O LOBISOMEM



CONVERSAS PRÁ BOI DORMIR II - O LOBISOMEM


Essa história eu ouvi quando criança, sentada na varanda da casa do meu avô durante a quaresma. Bem, meu avô não acreditava nessas histórias, mas “dava corda” aos contadores para depois ficar nos assustando...
“ ...é a mais pura das verdadi, “seu Salomão”, eu juro, nóis inté tava querenô dí falar cum o sinhô, pra mordi dí arrumá umas bala e o revórvi pois num é dí vê que o Tunim si aprontificô di ir mais eu e o Dito na caça do mardito.”
Quando eu ouvi essa parte da conversa, fui chegando mais perto e mais perto, até colar em seu braço e ser abraçada por ele em sinal de que eu podia ficar e participar da conversa dos adultos. Meu avô pediu novamente ao para Antenor contar o que havia acontecido e eu de olhos e orelhas bem abertas quase nem respirava.
“...pois entoces, num é de vê que na sexta fera passada eu fui até lá na Vila de Queimados só pra mordi di tomá uns traguinho e joga uns parmo di cunversa fora...mas quando cheguei lá num é qui tava tendo uma disputa di um sanfoneiro lá das banda de Beraba mais o Gérvasio qui é genti nossa e a coisa tava tão boa que eu logo garrei di dançá mais a Dorvalina e num é que perdi a zóras di vim bóra e mi lasquei tudo. Tô inté agora meio rupiado só di alembra daquela coisa que eu vi...”



Eu nem respirava, mas sentia a mão enorme do meu avô apertando meu ombro lembrando-me de escutar com atenção. Eu abria mais os olhos tentando imaginar o que o Antenor tinha visto que o deixara tão apavorado.
“... seu Salomão, eu vim mais meus cumpanheiro até na entrada da fazenda, despois cada um seguiu seu caminho e eu piquei a ispóra no Maiado e vim descenô pelo carreadô, eu e mais us dois cachorro qui num larga di eu. Quando cheguemô cá imbaxo, perto daquele pé de marmeleiro, eu apressenti qui o cavalo tava refuganô os pásso e os cachorro também tava meio perreados.
Carquei a ispóra na viria do Maiado mas ele guento firme e refugô. Baxei o chicote e eli refugô. Eu sem intende nada fiquei qui nem palerma, oianô naquele carreadô sem fim – foi aí que mim deu uma pancada nus miolo e eu mi alembrei du que tinha faladu quando tava dançanô mais a Dorvalina. Ela me pregunto si eu num tinha medo di lubisomê, purque nóis tava na quaresma e o bicho parece sempre. Eu arrespondi que num tinha bicho neste chão de meu Deus, que eu tivesse medo e que se o tár lubisomê vinhésse, eu muntava no lombo delí e carcáva a ispóra. Num é qui di repenti iscuitei uns barúio nus meio dus pé di café é us cachorro saíro numa currida que devi di ta cheganô em Sumpaulo nessa hora. Seu Salomão, si eu num tivesse ruim das costa eu num tinha caidu du cavalo, mais cumo minha espinhéla ta fora du lugar eu caí e o bicho veio pru meu lado, baxano o arreio pra mórdi eu amuntá nêli, eu tentei corrê mais eli se jogô im cima de mim e nóis se atraquêmo. Lutei e bati o qui deu, mais acho que foi nessa zóra que ele rasgo o bôrço da minha cárça e o dinherô du pagamento caiu tudo. É só pur causa que tô desaprevinido de dinherô que vim aqui lhe pedi um imprétimo das bala e do revòrvi, pra mordi eu í caçá o bicho e arrecuperá o meu dinherô. O bicho era mutio grande e feio. Inté o Maiado chegô a mijá de medo. Parecia um zurso cabeludo, mais era maió e tava cum arrêio e tudo e o zóio do bicho era grande e marélo e a boca tava aberta qui nem si ele tava si rindu di mim... Quando eu cunsegui me largá do coisa ruim o Maiado vortô e eu amontei í carquei a ispóra o mais forte qui pude, e baxei o chicote no lombo do Maiado que se despencô numa carrera inté chegá aqui.”
Meu avô só olhava com atenção balançando a cabeça e fazia: "Huuummm...Sei!..." Eu estava gelada. Petrificada de medo e nem repirava direito. Um lobisomem aqui?! E agora?! Bem, eu estava protegida, afinal ele não seria besta de vir aqui, no casarão do meu avô, mas eu não queria nem imaginar como seria isso. Eu estava aterrorizada com a idéia de um mostro que come criançinhas pagãs estar vagando por ali e meu avô naquela calma toda só fazendo:-"Huuummmm! Sei..." E até que finalmente ele me apertou o ombro e disse: - Mariame, peça para sua avó trazer a minha carteira de dinheiro. Preciso colaborar com o Antenor para livrar a fazendo desse bicho danado!Depois deu dinheiro ao Antenor que ficou meio sem jeito de pegar, mas embolsou o dinheiro e foi saindo encabulado enquanto meu avô dava uma sonora gargalhada e falava: -"Lobisomem?! Sei..." E ria mais alto ainda dizendo que eles estavam ficando cada vez melhores nas desculpas que arrumavam. Eu não entendi nada. Mas naquela noite eu posso jurar que ouvi um lobo uivando nos pastos que cercavam o casarão. Não consegui dormir no meu quarto e corri para o quarto do meu avô que me abraçou e disse :-"Huuuuummmmm... Sei..."



quarta-feira, 2 de novembro de 2011

CONVERSAS PRÁ BOI DORMIR - 'DOCE COMO MEL'


CONVERSAS PRÁ BOI DORMIR - 'DOCE COMO MEL'



O relato que segue abaixo é trecho de uma carta de um colono da fazenda, enviada ao meu pai. É bastante hilária, por isso foi guardada até hoje...“...cumu eu tinha promitidu, o tár do mér de abêia pura, sem mistura de guarapa... nóis achêmo uma caxa di abêia, dessa preta... Orópa, nus ladu das terra du Cróvis japoneis, aqueli qui tem as terra prantada di tomati, í que faiz diviza cas terra lá nu fundo, perto do capão dí matu, o sinhor se alembra deli, num é?

Bem, trêis ontonti, nóis rezorvêmo de í tirar o mér. Juntei o Nérso, u Dito, cumpadi Tunim, mais Gimíro, seu afiado, peguêmo us cachorru, o fumegadô, mais umas paia de mío e si lasquemô no carreado até o tronco caídu dondi tava as abêias. Só que a Tiana, a Bertrudi e a marditá da minha sóga, veia Térvina, fôru di atraiz.
A Bertrudi, eu sei...tá di zóio cumpridu pur causa du Cróvis, u japoneis dus tomati, mas a veia Térvina foi obra du capeta memo!!! Nóis tudo arrumadim pra módi pega as abêia di surpresa, í dirrepenti aquela falação dus infernu... Oiêmo pra cima í tava vindo duas gráia mais uma araponga de cabeça branca...
Gritei qui si quietassem í fossi pra otrô lado, mais u diabu da veia gritô que tava cus intestrino disarranjado í tinha que se aliviá... Visão dus infernu!!!
A veia Térvina, foi pá ditrais duma moita, quanto cumeçô a levantá as saia, escurregô num monti di bósta das vaca, e rolô barranco a baxô, inté batê nu tronco donde tava as abêia!!!
Dotô Musês, me arrespondi... Purque que Deus feiz a muié cum boca?! Praga pior que furmiga saúva, pior que gafanhotu...num tem iguár!!
A pésti da veia bateu nu tronco, sustô as abêia...e foi só abêia saínu di ferrão prontinhu pra mordi aferrá nóis. Eu saí correnô e me apinchêi no córgo dágua, mais u restu...bem, a véia cumu caiu ca saia levatada, as abêia pegô nas parte báxa, ta que num pódi fechá as perna...us cachorro, bão quí são, infrentaru as abêia cumu dêu, latia e engulia abêia, latia e ingulia abêia...
A Bertrudi, proveito e sumiu prus lado dus tomatêro du japoneis, a Tiana, sinfiô numa capuêra, u resto ta cum a cara inchada que nem pódi falá...dózinha di Gimíru, inté cumida tem qui se di canudinho!!! U Valenti, meu cachorro ta sortano abêia nas féiz quando óbra... Isso já faiz três dias du acuntecido...
Óia dotô Musês, nóis pede discurpa, pro senho e pra dona Ira, mas num deu pá pega o mér não, as abêia num tava pra brincadera não, intão, a Tiana ta mandano pelo cumpadi Tunin, us vidro di cumpota de carambola que a minina Mariame gosta e no lugá do mér, ta indu memô é melado di cana caiana, doce cumô mér di abêia...”