segunda-feira, 3 de outubro de 2016

BEIJO DA CIDADE


Beijo da Cidade

_______________________________a flor apodrecida dorme!E não sabe de mim, mesmo que eu nascesse mil vezes ainda assim, nada saberia! É somente uma flor, nada mais. Não pode ser apunhalada, porque dorme junto aos demônios e toda canção de ninar ecoa madrugada a dentro, e já não tem porque rever a eternidade, se o beijo que me é destinado vem carregado em asas de cantáridas e ninguém ( dela) me libertará.


quarta-feira, 28 de setembro de 2016

FRAGMENTOS



FRAGMENTOS

______________ e a divindade caminha pelos nove círculos e revela sua face à contemplação a fim de que a verdade seja o que se faça sentir em nós. Indivisível é a sua bondade e perseverança diante do que chamamos morte e todos os caprichos irracionais falam da nossa pequena compreensão desta complexa linguagem que traduz o hálito da criação. Vislumbramos a consciência, mas não a Luz -, esta é tão pessoal como se fosse a chave que abre uma única porta, uma única vez. Contudo, a simplicidade de um pensamento livre de disfarces, despido da obscenidade que celebra a  vida - reintegra a nossa condição de anjos, arcanjos e querubins, que mesmo desprovidos de asas alçam voos em espírito.



imagem: Kate MccGwire


quarta-feira, 7 de setembro de 2016

RABISCOS MARGINAIS


 Rabiscos Marginais 

E sem mais, bateu os pés na guia da calçada e dobrou a esquina ganhando a escuridão. Não olhou para trás, não levou consigo os infortúnios nem tampouco o claro escuro daquele mundo obsoleto. Fosse como fosse, era a rua, sua companheira -, as calçadas de pedras polidas, os velhos portões de ferro fundido, as esquinas secas, as paredes descascadas cheirando a mijo. Era nos becos, nos bares e nos puteiros, nos inferninhos onde o olhar encadeado mal sabia da noite ou do dia - era ali, onde a acolhida se fazia com distinção e o estigma do terror era só um sinal riscado a ponta de faca, tornando desmerecida a vida e o vivente. E o suplício de existir era só mais um bolero de Ravel e a digital na borda do copo, nada mais______nada mais.



domingo, 28 de agosto de 2016

ADÃO E EVA


Adão e Eva

Quantas vezes eu morri à solidão de não tê-lo comigo envolto na densa paixão que alimenta minha pele, minha carne e a brancura dos meus ossos. Quantas noites insones a minha boca na secura dos teus beijos, fez os meus lábios enrijecidos... Ah, torturante ausência que me castiga como se a própria paixão fosse mais que o fogo, mais que o medo da própria morte no sangue esvaído a confessar-te amor em agonia e estertor. E ao inferno me recolhi, desorientada feito a serpente que não provou da maçã e se arrasta sangrando o ventre em solo inóspito. Quisera beber o suor da Medusa e adormecer em pedra sobre o leito da Terra a viver a tortura de não sermos um só.


para Odur



quarta-feira, 24 de agosto de 2016

NEBULAE

NEBULAE

No princípio era a Luz! A deusa carregava em seu ventre a luz das estrelas___essência de todas as coisas, forma e energia criadora. O equilíbrio era nas mãos femininas, assim como os astros estão para o Sol____e aquela que ouve as lamentações, também dança suavemente pelas nebulosas e deixa um rastro de poeira cósmica como um sopro de luz no berçário das estrelas...... eis a deusa, eis a Luz!



imagem: Carlos Zemek



O SONHO


O SONHO

...de todos os sonhos, há sempre um que nos liberta e nos dá asas para ultrapassar o grande abismo somente porque somos criaturas humanas que nalgum lugar, deixamos penduradas a nossa condição de anjos. O primeiro capítulo da vida é antes da estação dos sonhos, antes do nascimento das nossas asas e consequentemente antes do abismo. Os caminhos não se abrem depois desse abismo ____temos que fazê-los a partir de cada sonho e cada voo tem que ser sempre o primeiro.


imagem: Salvador Dalí



terça-feira, 2 de agosto de 2016

ELA É ASSIM


Ela é assim
...e ela é assim, um pé no futuro e o outro pé no passado. Gosta mesmo é de cozinhar, desde um bolo de macaxeira até uma bela galinha guisada com macarrão feito por ela mesma. Adora fazer esses mimos pro seu homem e depois de quase empanturrar de tanta comilança, é chegada a hora de um chamego na rede -, só no embalo e na brisa até a leseira passar e o fogo começar na esfregação de pernas e mãos, num sobe e desce entre os seios, descendo pela barriga, ventre até o vértice das coxas ___ a mina d'água! Ela se entrega, se esfrega e se abre em flor, geme a não mais querer e pede a boca pra um beijo botão do desejo na explosão do amor.
Ela é assim, mulher fêmea, mina d'água que escorre quando seu homem lhe morde a nuca  sussurrando indecências ao seu ouvido e vai lhe encochando pelos cantos da casa enquanto a mão afoita por debaixo do vestido de chita, percebe a ausência da calcinha... Ela é assim, um pé no passado e o outro no futuro.


para Odur



imagem: Dominique Ingres