sexta-feira, 26 de maio de 2017

QUARTO DIA


Minha vontade era de estar contigo, sem importar-me com interpretações que venham a ser feitas sobre isso -, não me sinto a caminho do Gólgota pelo fato de amar demasiadamente. Basta a realidade mais divertida do que uma completa incredulidade na existência do Amor. E se me olhas resolutamente nos olhos, posso saber onde reside a felicidade, e, contrariando a própria vida e suas maledicências eu me percebo um novo ser, quando em suas mãos vivencio o crescimento da minha alma. Encerra-se a solidão e eu sou capaz de fazer versos...

para Odur



quinta-feira, 25 de maio de 2017

QUINTO DIA



Me refugio na harmonia das suas palavras com cheiro de hortelã, e a serenidade apaixonante da infância  que nunca diz adeus, me transposta ao paraíso aonde  podemos escrever nossa história. E a sua voz exorta-me a criatividade nas cores e linhas, de forma a revelar o meu olhar sobre todas as coisas. Todavia,  só me interessam as flores com as quais, eu me ponho a construir nosso refúgio para os momentos de carinho e entrega. Não há o fracionamento do Tempo ou exclamações e interrogações que possam ser convertidas em dúvidas -, há somente a nossa conduta pueril, livre de toda opressão e a certeza de nos pertencermos um ao outro no hálito do universo. 


para Odur




terça-feira, 23 de maio de 2017

SEXTO DIA


Marcamos um encontro numa nebulosa azul -, eu voo ao seu encontro emprestando asas de trinta pássaros e no meu coração levo a infância vestida de noiva -, branca, alva, diáfana - é a minha herança. Há tempos, enquanto observava a luz rala das estrelas por detrás das nuvens, eu soube de um universo existencial e a estranha emoção de fazer parte dele. Não há absolutamente nada além dessa certeza e um leve estremecer - quase imperceptível - quando me lembro da sua boca tomando a minha, num beijo milenar. Permaneço assim, flutuando neste universo indescritível até adormecer.


para Odur 

SÉTIMO DIA



Havia muitos anos desde que a Sentinela do Tempo - resignada - depositou na palma da minha mão, a Chave que Desdobra a Eternidade e todos as trombetas soaram e a chegada do dia estendeu-se em campo aberto unindo todos os planos celestiais.  Uma lágrima escapando dos meus olhos transforma-se em diamante ganhando a credibilidade do Arauto de Todas as Verdades. Ambos, Sentinela e Arauto -, ajoelhados diante do Sol, quando em seu esplendor, corre o céu eclodindo a vida para dentro dos meus olhos-, outrora cegos,  entoam cânticos reverenciando a Hora do Choro Que Não é Triste. Um raio do espectro solar faz dissipar um resto de nuvens que já cumpriram sua missão e o Leão de Pedra reluz... 



para Odur 


domingo, 21 de maio de 2017

A LUA






Ela caminha cabisbaixa e indiferente aos cachorros sem dono que a seguem. A sombra dos postes passam trazendo uma mescla de tristeza e solidão. Sente o coração - (sabe que esta viva). Viva!Estar viva, mas, por quê? Lentamente seus olhos buscam a lua. Pálida. Silenciosa. Pendurada num pedaço do céu. Ama a lua.Sonha com a sua quietude – com sua solidão. Ela é a lua! Sente-se assim – pendurada num pedaço do céu. Sente o vento nos cabelos – o vento pode atravessar seu corpo, sente-se assim, fluída. Abre os braços e continua caminhando. Abre a boca buscando o ar à encher-lhe os pulmões. Esta vazia. Vazia de si. Oca de sentimentos. Os cachorros seguem calados – observando. Talvez entendam aquilo como uma brincadeira, mas,não participam, apenas observam. De súbito ela para. Junta as mãos em prece – os olhos marejados se desprendem da lua. Pássaros noturnos voam baixo. Tudo é silêncio e solidão. Triste ela percebe que não pode ser igual a lua. Suas pernas não suportam o peso do corpo – cai. Aquieta-se enrodilhada feito um bicho. Os cachorros deitam-se ao seu lado – silenciosamente aquecem seu corpo durante a noite fria.



PAISAGENS



Paisagens
Estou diante da janela e o vidro é tão fino e transparente que a paisagem lá fora me pertence. Metade de mim é o vidro e a outra metade é a paisagem. Como saber quando juntar as duas ou  qual delas é real? O vidro e a janela, as paredes de cores desgastadas, a paisagem navegando entre o verde e o azul num quadrilátero perfeito – útero!
Então me percebo encolhida como um feto esperando a hora do nascimento. A janela me permite ver o mundo, mas o vidro me impede de senti-lo. Não me permite tocar e respirar e até mesmo viver a paisagem.
(Sou engolida por ela)


 

terça-feira, 4 de abril de 2017

CARTA DE ALICE





Querido amor,

Dizer que não pensei em você durante o dia seria o mesmo que negar o sol e a lua - não dá! Estremeço a cada pensamento e ninguém, exceto eu, sabe que não me encontro só, neste paraíso longínquo do mundo -, chamado desejo. Agora já é noite e aquele vazio silencioso que conheço tão bem, foi violado pela musica inaudita da chuva. Ah, como é bom e reviver e respirar a chuva... e tudo que ela contém agora escorre pelo meu rosto num refrigério pelo corpo e eu sou como a fome dessa chuva sumarenta de frutas cítricas e sabores desconhecidos. De longe vem os tentáculos do mundo num disfarçado abraço, mas estou enraizada neste chão molhado e dos meus braços pendem os frutos e folhas e flores. Dos meus seios nus escorre a seiva que alimenta a vida embriagando a sua razão de ser homem entrincheirado na pauta do meu amor, de onde nunca vai sair, nem mesmo quando eu florescer em alma de infinito brilho e a sua compreensão se tornar uma insônia maior que a distância entre a sua boca e a minha.



para LAM




imagem: Erté