quinta-feira, 25 de junho de 2020

PAISAGENS



Os meus dias estão sendo lavrados e eu divertindo-me com a minha presença outonal. O diálogo existe e eu fico diante do espelho, porque em certos dias, eu sou a criatura esfumada e fugidia, e, noutros eu prefiro morrer do que revelar os meus pensamentos. Hoje eu acordei dentro de um sonho e permaneci assim por horas - no encalço do meu eu. Segui-me através de paisagens insólitas, e , mesmo que elas não existam, eu estava ciente dos espaços infinitos entre a minha realidade e eu. Pensar sobre isso aguçou os meus sentidos em relação as cores, formas, volumes e instantaneamente as flores voltaram a fazer parte do meu caminho.


imagem: Papoulas
Aquarela sobre papel
Luciah Lopez





segunda-feira, 22 de junho de 2020

IMBRÓGLIO


Eu escrevi longos poemas na areia e me esqueci do vento e suas devassidões, sempre soprando o redemoinho da vida na inútil tentativa de renovação. Fixos em mim, eram os sonhos de todas as criaturas, sobretudo aquelas que, tiveram a sorte de nascer aladas. Os meu pensamentos não me obedeciam, e eu me ajoelhava ante o fim do mundo e a complacência dos intelectuais, as palavras eram ditas em demasia e a verdade tinha um hálito revoltoso de mentiras. Houve então, um silêncio e a irrealidade estabeleceu o seu vínculo. Os poemas escritos na areia deram lugar aos sortilégios e atravessaram a úmida penumbra dos tormentos e a dor. A vida tornou-se insípida e o homem caminhou só...


imagem: Imbróglio
Naquim sobre papel
Luciah Lopez



quinta-feira, 11 de junho de 2020

POR DETRÁS DAS CORTINAS



Ele observou as aves e viveu entre aviões e as suas difíceis viagens através da membrana do tempo. Sonho de toda uma vida a negar da realidade, todas as tristeza, guardando em si a consciência ideológica que mantém acesos os instintos vitais. Nada mais me fala à sua saudade, do que manter os olhos fixos no voo das grandes aves, ou nos pequenos pássaros de alumínio que cortam o céu nos aproximando dos anjos...


imagem: Meu pai 


quinta-feira, 4 de junho de 2020

TODOS OS MUNDOS


Através da úmida neblina, a minha figura, acelera a solidão, e alça voo, rumo ao mundo exterior deixando para trás todos os mundos, onde os pecados são como as sombras sem nome e sem atrativos, que sucumbem pelos becos pelas sarjetas, nas calçadas, nos pisos de linóleo frio e se acumulando uns sobre os outros embalam a melancolia de todos os mundos. Lá, bem longe, onde o  horizonte é uma larga avenida que poucos podem caminhar indiferentes ao clamor da morte  - Que fazes aqui?  - perguntou a própria morte ao empobrecido ser humano - ¨Eu busco a mim mesmo" - mas não sendo dono da própria verdade, não lhe serve de amuleto, e, deixa que se vá claudicando aqui e acolá feito sístole e a diástole do fim do mundo.


sexta-feira, 29 de maio de 2020

CLARIDADE


Sua aparição sobressaltou-me, e aquele breve encontro alimentou a minha vaidade enquanto eu caminhava pelas calçadas de pedras soltas. Precisamente contemplei o espelho d'água identificando a minha imagem entre os nenúfares de Monet. Vislumbrada escrevi na superfície do vidro o meu nome, e a estranha claridade que se deu a seguir, abriu-me as portas do Templo e eu tive que buscar o meu retrato entre os faunos e os querubins de Rafael. 


quinta-feira, 23 de abril de 2020

NOTURNOS


Os silêncios me fascinam, da mesma forma que me fascina o voo da harpia solitária sobre os campos de onde eu nasci. Ocorre que eu não vejo mais os campos verdes, só a janela aberta, por onde o vento assopra os segredos de cada dia. Eu duvidei de mim. E na minha condição de 'sonhadeira', pude finalmente ver o mundo azul, e cismei de ser poeta. E tão poeta eu me senti, que caminhei entre os poetas, e, ouvindo o clamor de suas almas, esqueci a minha impossibilidade de voar. Hoje, a razão de tudo se desfaz enquanto eu olho para o céu, e os meu braços, pesados, doloridos, se abrem de leste a oeste esperando alçar voo...




segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

PALIMPSESTO


La fora, o tempo girando traz o vento e, os sonhos que pertenciam a minha mãe, agora são meus, como também são meus os anéis que passaram de dedos em dedos sem nunca encontrar paradeiro. A poesia retornou mais forte e mais incisiva porque eu renasci entre as pérolas a espuma o sal e a areia e, eu já não vejo o seu vulto insone caminhando o deserto das lamentações. A minha vida está completa e as coisas fugidias correm com águas caídas dos telhados na mesma hora que os meus olhos, como asas ritmadas, pousam dentro daquele olhar de vastas planícies e largos rios...