quinta-feira, 2 de julho de 2020

EPIFANIA - REMINISCENCIA


Eu plantei sementes durante toda a minha vida, algumas  dessas sementes germinaram, e, consequentemente eu  desfrutei das lagartas, flores, frutos, abelhas, borboletas e dos beija flores. Com o passar dos anos isso se tornou habitual: guardar sementes para depois plantá-las em algum vasinho ou mesmo um 'potinho' sem uso. Noutro dia, fui ao supermercado fazer compras e quando cheguei em casa eu encontrei um papelzinho dobradinho dentro de uma das sacolas,achei estranho. Abri o pacotinho e  guardadas em seu interior algumas sementinhas pretinhas, parecidas com grãos de erva doce. Espalhei na palma da mão e remexendo com o dedo indicador me perguntei em voz alta:  sementes do quê?  Onde foi que já vi sementes iguais? Na hora não lembrei de nada, dobrei o pacotinho e guardei na lavanderia. Hoje pela manha, eu me lembrei de umas florzinhas vermelhas no jardim da minha casa, quando eu ainda era criança. Dessas florzinhas, eram as tais sementes pequenininhas. Foi uma dessas lembranças que mais parecem um filme antigo,  mais de 50 anos me separam desse jardim com suas rosas vermelhas, esporinhas azuis, brinco de princesa, dálias,  lírios e as diminutas florzinha vermelhas nascidas num cipózinho agarradas ao tronco de uma antiga paineira. Determinadas lembranças são os verdadeiros prazeres da alma... Hoje eu  plantei as sementinhas...


imagem: Rosa
Aquarela sobre papel Hahnemühle
Luciah Lopez



quarta-feira, 1 de julho de 2020

EPIFANIA - PRIMEIRO OLHAR



Me esconder entre os versos que escrevo é morrer na utopia do amor perfeito e não sofrer a consumição da dor. A flor rompe a proteção das sépalas e nos dá a beleza da cor na suavidade de suas pétalas. Todos temos nossas características e buscamos a harmonia entre os seres vivos, embora a desigualdade comportamental seja o que nos torna - muitas vezes - tão mesquinhos diante da grandeza da criação. Queiramos ou não, é este o nosso tempo, não importa o quão difícil seja o caminhar sobre pedras ou medo de olhar para dentro de nós mesmos - somos a flor, é impossível não florescer.


imagem: Flor Silvestre
Aquarela sobre papel
Luciah Lopez




sábado, 27 de junho de 2020

SUPERFÍCIES



O que se pode fazer é observar as criaturas, é simples assim, impossível é acertar ou predizer o momento seguinte ou mesmo quando a borboleta vai abandonar o casulo e ganhar a liberdade num voo.  Essa é a maior das transformações que sofremos ao longo dessa vida terrena - o prazer da liberdade. Na maior parte tempo do estamos tão rijos, tão densos que não percebemos o nascimento das nossas asas e perdemos a urgência do vento em nos levar colina acima extinguindo de vez a nossa servidão. Há algo em seus olhos, algo que o faz tão especial que eu posso me sentar ao seu lado e olhar os pássaros em seus voos extraordinários.  


imagem: Andorinhas 
Aquarela sobre papel
Luciah Lopez





quinta-feira, 25 de junho de 2020

PAISAGENS



Os meus dias estão sendo lavrados e eu divertindo-me com a minha presença outonal. O diálogo existe e eu fico diante do espelho, porque em certos dias, eu sou a criatura esfumada e fugidia, e, noutros eu prefiro morrer do que revelar os meus pensamentos. Hoje eu acordei dentro de um sonho e permaneci assim por horas - no encalço do meu eu. Segui-me através de paisagens insólitas, e , mesmo que elas não existam, eu estava ciente dos espaços infinitos entre a minha realidade e eu. Pensar sobre isso aguçou os meus sentidos em relação as cores, formas, volumes e instantaneamente as flores voltaram a fazer parte do meu caminho.


imagem: Papoulas
Aquarela sobre papel
Luciah Lopez





segunda-feira, 22 de junho de 2020

IMBRÓGLIO


Eu escrevi longos poemas na areia e me esqueci do vento e suas devassidões, sempre soprando o redemoinho da vida na inútil tentativa de renovação. Fixos em mim, eram os sonhos de todas as criaturas, sobretudo aquelas que, tiveram a sorte de nascer aladas. Os meu pensamentos não me obedeciam, e eu me ajoelhava ante o fim do mundo e a complacência dos intelectuais, as palavras eram ditas em demasia e a verdade tinha um hálito revoltoso de mentiras. Houve então, um silêncio e a irrealidade estabeleceu o seu vínculo. Os poemas escritos na areia deram lugar aos sortilégios e atravessaram a úmida penumbra dos tormentos e a dor. A vida tornou-se insípida e o homem caminhou só...


imagem: Imbróglio
Naquim sobre papel
Luciah Lopez



quinta-feira, 11 de junho de 2020

POR DETRÁS DAS CORTINAS



Ele observou as aves e viveu entre aviões e as suas difíceis viagens através da membrana do tempo. Sonho de toda uma vida a negar da realidade, todas as tristeza, guardando em si a consciência ideológica que mantém acesos os instintos vitais. Nada mais me fala à sua saudade, do que manter os olhos fixos no voo das grandes aves, ou nos pequenos pássaros de alumínio que cortam o céu nos aproximando dos anjos...


imagem: Meu pai 


quinta-feira, 4 de junho de 2020

TODOS OS MUNDOS


Através da úmida neblina, a minha figura, acelera a solidão, e alça voo, rumo ao mundo exterior deixando para trás todos os mundos, onde os pecados são como as sombras sem nome e sem atrativos, que sucumbem pelos becos pelas sarjetas, nas calçadas, nos pisos de linóleo frio e se acumulando uns sobre os outros embalam a melancolia de todos os mundos. Lá, bem longe, onde o  horizonte é uma larga avenida que poucos podem caminhar indiferentes ao clamor da morte  - Que fazes aqui?  - perguntou a própria morte ao empobrecido ser humano - ¨Eu busco a mim mesmo" - mas não sendo dono da própria verdade, não lhe serve de amuleto, e, deixa que se vá claudicando aqui e acolá feito sístole e a diástole do fim do mundo.