quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

RODA D'ÁGUA



Do fogão à lenha, vinham os chiados e estalidos da madeira meio verde, sendo consumida pelo fogo na pressa do fogo e na mansidão de cozer o leite e assar o pão. O arrastar dos chinelos de couro e no vai e vem do avental branco pela cozinha, um ramo de salsa cai distraidamente ao chão. E na chapa quente, o tostar do queijo faz dual com o café forte, escorrendo do coador de pano [tão escuro de tantos banhos]. O crepitar da lenha faz voar os vaga-lumes ardentes, e, entre dentes, um sorriso de satisfação. No olhar calmo de carinhos plenos, se vê brilhando, o alumínio das panelas. Do fio da faca, caem as cascas das frutas e nascem as doces estrelas de carambolas, quadrados de mamão, corações de abóbora secando na peneira feita de taquara. Sobre a grande mesa, nos vidro ainda quentes, as compotas de goiabas, marmelos, laranjas da terra e limão cravo esperam a hora de descansar nas prateleiras da despensa. Um queijo, um beijo, marmelada e paixão – vida de cheiros agridoces entre as tampas e o pilão. Na réstia de alhos e cebolas, uma trança e um limão. Nas gamelas sobre a mesa, o verde das folhas do agrião. Um pano branco bordado com os dias da semana marca o tempo que não passa. E no calor dessa hora, na janela o sol espia e, se enfia no aconchego de um abraço entre cada beijo estalado, um biscoito "casado" e um sorriso de maria-mole. Água fria, descansada no gosto do barro da velha moringa, escorre entre os goles, doces goles do vermelho das romãs. Entre as cinzas do borralho, surge o gato Malmequer, que nada quer, a não ser dormir e sonhar odores. O tempo e suas escamas coloridas brilham no olho do boi, enquanto tudo gira num silêncio onde fermentam as saudades guardadas nas gavetas e nos armários. Lá no quintal, as galinhas ciscam o chão, descobrindo o segredo de germinar minhocas. E a roda d’água gira sem parar, gira os sonhos, gira a vida, gira o tempo de todos nós.


imagem: Roda d'água

Aquarela sobre papel

Luciah Lopez

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

QUANDO TUDO NÃO PASSA DE UMA TARDE GRIS




o homem troca de nome e permanece menino _____ brinca com o juízo dos mortos, rodopia as  palavras de vida e morte_____ mergulha em suas próprias águas afogando-se em seus pensamentos_____ ressurge amado qual anjo da anunciação ao dar significado ao romançario da tarde gris_____e levanta ereto, e disfarça a claudicante condição de bastardo ignóbil_____ se afasta da memória de todas as coisas se julga deus quando não passa de um menino.


imagem: google

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

PRECISÃO


 As minhas mãos nuas de chuva se escondem entre as ramagens. Os meus pés calçam flores que ficam pelo chão. Os meu olhos desviam olhares de dois lugares - céu e terra - e eu guardo o ouro que cavei nas minhas andanças de cavadora de terra. Nas minhas costas o peso da existência e o misterioso desenredar do inexpressivo. Aqui o meu grito povoou com precisão absoluta a vida irrestrita.


imagem: Série Flores
Aquarela sobre papel
Luciah Lopez 



quarta-feira, 8 de julho de 2020

CAPÍTULO PRIMEIRO


O fim daquela brincadeira e a minha salvação, eram a mesma coisa e eu percebi um tanto orgulhosa, que não carecia mais de disfarces. A vida se escancarou diante de mim como poucas vezes aconteceu, as conexões mitológicas, os dogmas revelaram a amplidão diante dos meus olhos e eu vislumbrei a consciência. Caminhei ereta. Mantive ao meu lado, os peixes e suas bexigas natatórias como se fossem bússolas sempre me mostrando o norte de todos os caminhos. Raras vezes olhei para trás, porque eu não existia antes e nem mesmo a minha sombra pertenceu ao passado. A partir desse dia entrei e sai daquela paisagem sem receio algum, pois já não éramos pessoas estranhas a quem o destino trata de forma incompreensível. Não. Não somos indiferentes um ao outro, porque vencemos a escravidão das horas e o jugo dos filósofos de meia boca. Minha consciência tornou-se ampla, límpida e as interrogações deram lugar ao riso num processo de cor e luz dentro de mim.


imagem: Vista do Morro Anhangava
Aquarela sobre papel Hahnemühle
Luciah Lopez


domingo, 5 de julho de 2020

EPIFANIA - CRISÁLIDA


O músico tocou a sua melodia e o vento carregou o pólen. O acaso não existe e verdadeiramente necessitamos desse encontro: músico,melodia,vento. O resto é tal qual Bach acender um bico de gás e as mariposas esvoaçando na plácida luz. Eu não modifiquei os meus dias, eu vivi cada um deles como se me apresentaram até agora. Percebi cada detalhe como quem observa as pituras de Monet ou a textura das pétalas ou mesmo a leveza da borboleta. Percebo agora que silenciei - individualizei. Sou um ser homogêneo. Sou viajante e o universo me pertence assim como o néctar da flor pertence a borboleta. Sou viajante e a escuridão se distancia e o caminho é o sopro celeste. 


imagem: Aglais io
Aquarela sobre papel
Luciah Lopez


sábado, 4 de julho de 2020

EPIFANIA - RESPLANDECÊNCIA




Em silêncio estendi as mãos para ela e, finalmente pude olhar em seus olhos. Não consegui dizer nada. Nenhuma palavra sequer, mas as palavras nunca foram importantes para nós. Bastava um olhar ou um gesto e expressávamos os nossos sentimentos. Éramos cúmplices em insondáveis momentos de silêncio, como os astronautas que em silêncio contemplam a imensidão infinita. Um dia ela se vestiu de branco e soltou a minha mão, e, de repente eu me senti tão só como se o tempo fosse absoluto e nunca mais nossos olhos se falaram ou os nossos pés caminharam juntos pelo jardim enquanto as nossas mãos colhiam flores...


Imagem: Cattleya
Aquarela sobre papel
Luciah Lopez


Para minha irmã Dulce, a minha saudade


sexta-feira, 3 de julho de 2020

EPIFANIA - GANHANDO ALTURAS


Há um pássaro dentro de mim. Sou eu a sua masmorra, seu cárcere. Sou eu quem impede a sua liberdade, o voo cego dentro das nuvens e a sua absoluta certeza de voar sobre o mar. Eu, e a minha diminuta significância nos isolamos do Sagrado, e o pássaro em meu peito anseia a liberdade da segunda hora. É necessário que portas e janelas sejam abertas e possamos ganhar o horizonte e reconhecendo assim, a própria maneira de ser - essa é a lei divina.


imagem: Pássaro
Aquarela sobre papel Hahnemühle
Luciah Lopez