Carta a Luciah Lopez: poesia não é ilusão. Se assim fosse, seria mágica.
Prefácio à obra de Luciah Lopez, " Entre Versos - A palavra branca é nua"
Por Mhario Lincoln/Luciah Lopez
A PALAVRA NUA
Carta a Luciah Lopez: poesia não é ilusão. Se assim fosse, seria mágica.
Prefácio à obra de Luciah Lopez, " Entre Versos - A palavra branca é nua"
Por Mhario Lincoln/Luciah Lopez
A PALAVRA NUA
Fonte:Mhario Lincoln/Luciah Lopez
Luciah Lopez com coragem poética, fala de Luz e Sombra
*Mhario Lincoln
"A tranquilidade não é a ausência de caos, mas a capacidade de lidar com ele de forma serena"
(Sêneca).
O poema publicado pela grande poeta brasileira Luciah Lopez, na antologia "República do Texto",
tem uma expressividade que qualquer cítrico literário a incluiria numa preciosa lista americana
de conceitos líricos chamada de - "List of surreal poets" – onde estão elencados, apenas, 132
poetas do mundo inteiro.
Uma lista mais que exclusivista. Porém, este poema (SEMELHANÇAS [ ! ]) é incrivelmente
enigmático. Foi-me difícil analisá-lo. Porém fui abordá-lo através da maneira como a obra
mescla reflexões existenciais com uma estrutura lírica que evoca a complexidade dos sentimentos
humanos. E como eu estudo e gosto muito desse tema, mergulhei fundo, a fim de descobrir nuances
nas entrelinhas espasmódicas dos versos. Por exemplo, o uso repetido do imperativo
"Tente, tente de novo!" me trouxe à baila a persistência e renovação (sempre) de Luciah Lopez.
Eu a conheço e com ela tenho um ótimo convívio. Essa é a razão de começar essa análise por
essa nuance muito perto do que os críticos podem chamar de tradição literária modernista
(até pós-modernista), onde são exploradas tensões entre desespero e esperança, isolamento
e a busca por significado. (Falas poéticas, claro!).
Outra nuance me chamou a atenção: semelhanças com TS Eliot também pela poética de Luciah
conter complexidade temática e, de certa forma, inovação estilística, a mesma que recentemente
li em livro do poeta Rogério Rocha, o extraordinário, “A Linguagem da Ausência”,
já resenhado no Facetubes(www.facetubes.com.br).
Luciah me remeteu "The Waste Land", onde Eliot explora a fragmentação da civilização moderna
e a busca contínua pela renovação em um mundo aparentemente sem esperança.
E quando você coloca, ambos, em sua frente Luciah e Eliott, fica mais claro
(há diferenças da construção;
porém similitude nas ideias e pressupostos). Leia, abaixo:
me ponho a caminhar(...)”
Ora, tais manifestações líricas me revelaram uma interessante interseção temática
de melancolia e reflexão sobre a condição humana. Enquanto em Eliot expressam
a crueldade do mês de abril, quando há uma sensação de renovação que é,
ao mesmo tempo, dolorosa, mas que também revive memórias e desejos que talvez
fossem melhor terem sido deixados em repouso.
Já os versos da poeta paranaense Luciah Lopez, membro da Academia Poética Brasileira,
seccional PR, falam de um silêncio que se instala na penumbra, onde uma “alma profana”
envolta em tristezas, começa a caminhar. Aqui, a ênfase está no silêncio e na tristeza,
na jornada solitária da alma. Logo, com características individuais e intransferíveis,
ambos os trechos lidam com temas de luz e escuridão, vida e morte, renovação e desolação,
explorando a
complexidade da experiência humana.
No fundo, me sinto mais seguro quando invoco a filosofia (poética) para expressar
minha visão sobre a "doença do espírito", citada no verso de Luciah: acho eu - em
total liberdade poética - um grito que reflete a ansiedade para encontrar ou manter a fé
em um mundo pós-moderno. Essa linguagem sugere uma tentativa de transcender
as limitações humanas e encontrar renovação espiritual através da perseverança,
mesmo que essa busca pareça fútil.
Maravilhei-me (como sempre), com esta produção lírica de Luciah Lopez, aliás,
com a maior parte da obra dessa poeta espetacular (que não visa aclames, reclames,
nem holofotes), na maioria das vezes, reflexões sobre a persistência em face do absurdo,
emolduradas dentro de uma análise mais ampla da poética filosófica, que questiona
e explora a resiliência humana diante das
adversidades espirituais.
Vamos ler juntos o poema publicado na Antologia APB, "República do Texto”:
SEMELHANÇAS
Luciah Lopez
[ ! ] do ontem, apenas a sombra
errante
e silenciosa
cala-se
na penumbra.
"Tente, tente de novo!"
e as vogais se embaraçam nos meus cabelos
as
fraquezas endireitam a existência
e
quanto mais aprendemos, mais nos isentamos
da
culpa (?!) e mais chafurdamos
na
doença do espírito - a falta de fé!
"Atordoada!"
[ ! ]
continuo caminhando
a
evadir-me na correnteza
"Tente, tente de novo!"
Cala-se a penumbra e
a
diáfana visão - misteriosa
alma
profana - envolta em tristezas
ponho-me
a caminhar.
Embalo no colo
as
badaladas do velho relógio
_________
e o Tempo adormece
ternamente...
"Tente, tente de novo!"
Como uma árvore grande, a mão de Deus se estende sobre a terra enquanto nós caminhamos na cegueira característica dos pequenos seres desprovidos de asas. A calma da manhã avança sobre o mundo de sotaques e os nosso ouvidos moucos não nos servem para nada. Há em cada momento da luz uma embriagues aos nosso olhos e jamais voltaremos a experienciar tamanha emoção. Somos gordos em nossa empáfia! Dormimos com os pombos e acordamos com os porcos, é inútil esperar pelas promessas da manhã enquanto o coração pesado faz curvar nossas vértebras a cada passo dado. Ninguém jamais calou a boca da noite ou os olhos da manhã, mas todos nós já nos esquecemos das nossas mãos, muitas vezes sujas de barro - e nos esquecemos até mesmo a origem do próprio nome. E não somos mais que crianças perdidas no embalo do vento fugindo de um calado e antigo fantasma.
imagem: Araucárias
aquarela s/ papel Canson
O teu olhar é pedra de fogo. Derrete a cera e escorre vernizes sobre as pálpebras da noite. Verte o amor dos poros da pele e recobre a história e a hóstia nos lábios pagãos. O teu olhar de fogo é pedra luminescente arreando a fera que me habita e caminha sobre o teu corpo no estertor da noite alvissareira. Fosse para mim a felicidade fresca e madura, a colheita de cada dia -, eu me deixava levar nesta seara de dores que antecede a promissão. E navegando entre as cores, arrebóis insondáveis da tua alma, seria eu, o reverso do silêncio e a paz aprazível que lhe beija as mãos?! Todavia, a voz e as palavras se desdobram em ecos de resoluções sem que eu possa mover os lábios. A noite chega estranha em sua dormência sob as rudes carícias das velhas cartas guardadas dentro de um livro e o teu olhar de pedra de fogo, alumia os meus sonhos através de paisagens desconhecidas. Ordenadamente o tempo vai empilhando as lembranças dando uma trégua ao coração sonoro. Não fosse tão doloroso viver, eu me diria feliz.
imagem: Sonhos / Série Emarginatus
Marcelo Tanaka - @marcelo tanaka
O meu mundo é estranho de silêncios e a chuva que chega de
repente me aceita como irmã. Alimenta as minhas raízes e lava as moedas que
tenho nas mãos. Quisera compreender o mistério dessas águas e o seu dulcíssimo
sabor de vida, porque nada é concreto e o poema que eu escrevo na areia,
fala a língua das águas, contudo, não fala a língua dos homens. Há uma
penitência infinita que tropeça no meu caminho me obrigando a mudar a direção
dos meus passos. Cedo ou tarde vou lançar ao mar as minhas sete moedas e com
isto, o presente será o futuro e o passado apenas uma ressonância. Tomo as
rédeas da minha existência e me transformo em luz.
imagem: Voo
aquarela s/ papel Canson
Luciah Lopez
ressuscita-me desse absurdo de horas perdidas em constantes caminhadas pelos becos da memória onde não se acha ninguém ___________ até mesmo a sombra desgrudou, isso acontece, né? mas eu vou sacudir o corpo numa janela como é costume fazer com as toalhas cheias de migalhas de pão após o café... doravante serei um cérebro serei surpreendida num voo sem asas [não preciso de asas] basta um fechar de olhos e o retrato que está sobre a mesa me convida para dançar...
Who cares if one more light goes out? In The sky of a milion stars...
incontáveis galáxias dentro dos meus olhos acendem suas estrelas e os cometas cortam os sete céusnada mais a fazer, o pássaro é livre - a imensidão cabe dentro do meu peito.
imagem: Sinapses
colagem sobre papel
Luciah Lopez
.
foto: LL
Todos nós desejamos a felicidade, seja em qualquer estágio da nossa vida, costumamos verbalizar esse desejo de forma a torná-lo mais próximo, mais real. Damos o que temos, fazemos o que podemos para superar nossas dificuldades, essa é a "meta de excelência" que levamos vida afora. Muitas vezes nos tornamos vulneráveis, porque supúnhamos estar vivenciando uma felicidade duradoura, coisa que nem sempre acontece, contudo, a maturidade também nos ensina a resolver nossas dificuldades mediante aprendizados até mesmo dolorosos. Posso dizer que aprendi algumas lições, neste último período da minha vida, tive alguns sobressaltos, algumas situações conturbadas mas, as respostas vieram dos mais inusitados lugares e formas; confesso que eu ansiava pelo término deste ano de forma a não carregar mais angustias ou medos. Finalmente tudo fará parte do passado e a inspiração é privilégio que me acompanha, todavia, não posso me esquecer que as dádivas que Deus nos concede, devem ser constantemente divididas para que se multipliquem. Pensando assim, costumo não fazer julgamentos ou críticas que possam causar mágoas, somos o sal, porém não temos o direito de salgar feridas alheias. Estou priorizando a felicidade de ter momentos comigo, de me conhecer e superar minhas limitações, dirigir a própria vida é gratificante, tão gratificante que se torna possível receber outras pessoas e sorrir e sonhar e fazer novos planos. Quem não for diverso a mim, será sempre bem vindo, pois a vida é uma via de mão dupla. Vambora viver!!
Feliz 2022!
Respira-me entre as tintas entre as cores, sobre papéis e folhas, respira-me. Respira-me entre os livros amarelados e velhos jornais estereotipados. Respira-me na ausência da luz e na sombra das velas, nos cantos nos becos, nas ruas e nos campos, respira-me. Respira-me na terra úmida, na relva, nas flores, nos frutos maduros. Respira-me no olhar dos bichos, na cantoria dos pássaros, na malemolência dos rios, na alma dos peixes, respira-me! Respira-me nas tuas mãos a extrair da terra a gema preciosa, a pedra encantada - o olho do dragão. Respira-me quando preso à tua vestimenta de homem, respira-me na tua pele nua - vestimenta de macho que ao me possuir derrama-se em suores saciando a minha sede liberta-me de todos os pudores dissipando a condição dogmática que me impede o retorno ao primitivo. Respira-me pelos teus poros, pelas tuas veias, pelas tuas entranhas, pelos teus olhos, através dos teus sentidos. Respira-me pelo teu sexo - elo entre os mortais - respira-me até eu me adonar de ti e não restar mais nada nem de ti e nem de mim na combustão dos corpos um orgasmo de todas cores e a finalização do homem no renascer do sagrado. Respira-me...
Imagem: Obra do artista plástico Dhi Ferreira - Curitiba PR
www.dhiferreira.com.br
Um dia eu resolvi me calar. Examinar os aspectos da vida pode levar anos e, todos os pensamentos fragmentados serão novamente avaliados de forma um pouco mais madura. Sei perfeitamente que nem assim, as nossas virtudes serão maiores que nossos defeitos - isso aos olhos de quem nos vê e, contudo, não nos enxerga. Daqui, onde eu me encontro, posso dizer que finalmente me encontrei. Houve um processo interior, um desapego existencial não aflitivo, não sofredor mas, necessário na linha evolutiva vertical. Por outro lado, a geometria sagrada presente em todas as coisas me revestiu de um forte sentimento de compaixão - posso finalmente olhar e enxergar sem transgredir as leis naturais mas, isso não me torna melhor do que ninguém, apenas não mais vinculada a uma condição ilusória que oferece brilho para quem não sabe acender a própria luz.
imagem: Sossego
aquarela s/papel Canson
Luciah Lopez
Respondi três perguntas feitas pelo Presidente da Academia Poética Brasileira, o jornalista e escritor Mhario Linconl
ML- O QUE MAIS
TE SURPREENDE EM TUA POÉTICA?
LL- O que tem me
surpreendido na minha poética é o retorno crescente que venho recebendo, até
mesmo porque é muito difícil transitar no meio literário onde existem cobranças
e julgamentos e criticas muitas delas negativas e quando não destrutivas, ao menos são desanimadoras. No meu caso a resposta tem sido muito satisfatória e isso vem refletindo na minha escrita que está mais consistente, mais madura o que é muito
bom para mim, para a minha evolução não apenas como poeta, mas como ser humano.
ML- AS
VERDADES DO MUNDO SÃO AS SUAS VERDADES?
LL- NÃO, a minha
verdade nada tem a ver com as verdades do mundo. Eu sei o que é compaixão e
esse entendimento me torna mais sensível diante do sofrimento alheio e mais
crítica perante desigualdades e dissimulações. A minha verdade age de forma
explícita, porém silenciosa, mesmo sem a necessidade de ser mencionada, ela é
genuinamente verdadeira.
ML- QUAIS A
CERTEZAS QUE A VIDA NOS OFERECE?
LL- A meu ver a
vida nos oferece duas certezas: a escravidão e a morte. Cada dia a humanidade
se torna mais dependente de bens materiais, posição social, domínio familiar e relações afetivas
conturbadas, amizades superficiais e outros. Quando há um rompimento em algum
destes segmentos, há um descontrole emocional e a realidade mostra que a vida embora
frágil e efêmera, é uma armadilha em busca de presas fáceis. Nós somos as
presas, mas esse despertar permite conhecer genuinamente a nossa capacidade de
desenvolver um potencial de liberdade e reger a própria vida. Diferente da
morte que não podemos evitar, contudo, podemos aprender que a morte não é o fim,
mas expansão da consciência.
*foto: Mhario Lincoln, advogado, jornalista, presidente da Academia Poética Brasileira e Embaixador Universal da Paz com Luciah Lopez
FACETUBES
BrasilTextos EscolhidosUm conto-thriller-erótico de muita dinâmica e arrepios escrito por Luciah Lopez, da APBCenas fortes. Conteúdo erótico.
25/07/2021 12h09Atualizada há 8 horas228Por: Mhario LincolnFonte: Luciah Lopez
O SERGREDO DA PROFESSORINHA
Luciah Lopez, da Academia Poética Brasileira
Foi numa manhã de primavera que ela chegou a Areia Branca, uma pequena cidade do interior. Todos os moradores em polvorosa, pois nunca tinham visto uma beleza igual. Parecia um anjo caminhando com passinhos rápidos fazendo o vestido florido esvoaçar. Um ano após a sua chegada, e totalmente inserida na rotina da cidade tanto que os seus moradores tudo faziam para cair nas graças da professorinha de biologia. A "macharia" disponível coloca à disposição para acompanhá-la aos passeios e a missa aos domingos ou mesmo, para carregar suas sacolas de compras, mas ela nem ai pra tanto chamego.
Até conhecer Redclif. Foi paixão à primeira vista e logo no dia de Santo Antonio o padroeiro de Areia Branca. Padre Olavo não pensou duas vezes e foi abençoando a união. As baratinhas de sacristia, ops! -, as beatas seguidoras do padre, encontram um novo assunto para fuxicar - o novo casal de Areia Branca, igual dois pombinhos arrulhando pelos arredores da cidade. Tão logo Maria da Fé, ficou sabendo do namoro, criou coragem, tomou a liderança e foi falar com a professorinha, avisando sobre o moço, que nada tinha de 'bom moço'-, era um papa virgem! Filho mimado de “seo” Ludovico que ensinou ao filho, como tirar um cabaço de donzela. De nada adiantava os lamentos de dona Candoca, pois o filho seguia fazendo alegria do pai: "mulher é igual cabrita, gosta de ser fodida". Mas a professorinha estava cega de amor e não deu ouvidos ao falatório e, foi logo dizendo: -Comigo vai ser diferente, vai ter que casar! O namoro continuou e tudo foi preparado para o casamento dos dois na próxima festa do santo casamenteiro, e assim foi. Ela de véu e grinalda, cheirando a flor de laranjeira. Ele num terno cinza de risca de giz, impecável até no brilho dos sapatos, esperou por ela no altar.
Contrariando os bons costumes, a noiva entrou sozinha, já que não tinha nenhum parente pra fazer as honras e entregá-la no altar. Padre Olavo reclamou, resmungou e acabou aceitando a modernidade. Festa das boas, muita comilança, bebida e muita música até a despedida dos noivos, que aos beijos, seguiram pra lua de mel. Redclif estava afoito, passou um ano inteiro tentando uma bolinadinha, uma mão boba, mas a professorinha incisiva: "Só depois de casada!" -, e assim foi. Na lua de mel, a professorinha teve mais orgasmos que estrelas no céu. A paixão aumentou e de noite, o feitiço do amor era na base de beijos e muita gemeção. Dois anos se passaram. A vida da professorinha já não era o mar de rosas -, Redclif saia todas as noites com os amigos, indo jogar um carteado, uma sinuca ou mesmo tomar umas doses de Rabo de Galo num boteco da periferia, de onde saia acompanhado de alguma moleca espevitada e disposta a servir de cabrita gemedeira, sempre de quatro no banco de trás do carro, estacionado em lugar ermo. Depois de muita safadeza, Redclif deixava a cabritinha mamadeira no mesmo boteco e voltava para casa altas horas da madrugada, envolto numa aura de perfume barato, manchas de batom e as costas arranhadas. Deitava ao lado da mulher sem se preocupar com maiores explicações.
A professorinha estava 'prenha' e cheia de vontades de comer pepino com geleia, jaca com torresmo, chupar limão, roer caco de telha e outras coisas mais, tentava inutilmente conversar com o marido, mas Redclif estava sem saco pra tanta falação de mulher buchuda, já que estava de olho em Melinda, a filha do alfaiate que fez o seu terno de risca de giz. Menina nova, magrinha, corpo bem feito, seios durinhos sempre soltos dentro da blusinha de alça, a cinturinha fina, a bunda empinada, as coxas grossas e o andar espremido de cabritinha virgem doidinha pra gozar. Ele não se fez de rogado e espichou a conversa, cercou pra lá e pra cá, até que Melinda aceitou as flores, bombons, perfumes e acabou nua dentro do carro gemendo igual gata no cio e arranhando as costas de Redclif. Em casa a professorinha prepara o banho do marido e percebe os arranhões, as mordidas e chupões pelo pescoço. Ela não falou uma palavra sequer, mas também não pregou os olhos e quando Redclif acordou, não encontrou a mulher, procurou pela casa toda e não a encontrou. Foi até a casa dos pais e nada sabiam sobre o paradeiro da professorinha. Nas ruas, na igreja, na padaria, ninguém soube dar uma informação sequer.
Dois dias se passaram e até Mané Polícia foi acionado para fazer as buscas pelas redondezas e as beatas de padre Olavo já estavam nas orações. Na manhã do terceiro dia, um táxi vindo da capital, parou em frente ao portão da casa de Redclif e a professorinha, desceu ainda mais barriguda que antes. Foi uma falação sem fim! Todos querendo uma explicação e ela nada -, nem ai! Depois dos ânimos calmos, ela avisou ao marido, que durante aquela noite, recebera uma ligação avisando da morte súbita de um parente distante e, que deixou como herança uma casa, numa cidade próxima. Disse também que gostaria ir com ele, passar uns dias, antes do filho nascer, seria igual a lua de mel - só os dois. Redclif não pareceu entusiasmado, mas quando ela sussurrou em seu ouvido: "Se você for, eu deixo você me foder por trás igual uma cadela no cio"-, ao ouvir essas palavras, ele teve uma ereção! Aceitou na hora e partiram em viagem ao final do dia, mesmo sob os protestos de dona Candoca e das beatas alegando que mulher prenha não pode sair por ai sem paradeiro porque isso faz a criança virar e isso dificulta o parto. Durante a viagem, ela foi bolinando o marido a ponto do seu pênis latejar.
Ele se deixava levar pelos pensamentos, afinal, teria o seu prêmio tão cobiçado desde que bateu os olhos na professorinha. Já era noite alta quando chegaram a tal casa, um velho sobrado com vários quartos e uma sala ampla, uma boa cozinha, banheiros, um sótão e um porão que certamente cheirava a mofo. Afastada da cidade, não tinha vizinhos por perto. Parecia uma velha casa abandonada não fosse pela luz acesa. Redclif levou a única mala que trouxeram e também uma grande cesta com as coisas para o lanche da noite. Enquanto Redclif leva a mala pra o quarto, a professorinha arruma a mesa com bolos, sucos e sanduíches e serviu ao marido vários copos de suco e muito carinho. Deram risadas e ele falou sobre o que fariam logo mais e de como ela ia gozar e gemer feito uma cadela vadia. Ela sorriu. Ele sentiu uma comichão que começou nas partes baixas e foi subindo pelo corpo todo, um torpor. Sentiu a boca amarga e seca, quis tomar mais um pouco de suco mas não conseguiu segurar o copo. Tentou ficar em pé, mas as pernas não sustentaram o peso do corpo.
Caído no chão, Redclif levanta os olhos para a professorinha-, ela sorriu! Ele não consegue se levantar. Braços e pernas não obedecem. Sua cabeça lateja, sua visão embaçada e a boca seca. - Sua cadela, o que você fez?! Eu vou acabar com você, sua vadia! Sem dizer uma só palavra, a professorinha se levanta, vai até a mesa onde deixou a bolsa e volta com alguns rolos de fita adesiva. Ajoelha-se ao lado do marido e calmamente coloca a fita adesiva sobre a boca de Redclif dando varias voltas em torno da cabeça o impedindo de gritar os palavrões e ameaças. Ainda sorrindo, ela junta as mãos do marido e prende os pulsos com várias voltas de fita adesiva fazendo a mesma coisa nos tornozelos.
Depois delicadamente segura os seus pés e tira os sapatos, o cinto, o relógio e a aliança e guarda junto com os rolos de fita na bolsa. Caminhando lentamente, ela passa junto ao marido que se debate, parecendo um verme tentando inutilmente gritar. Ela vai até a porta que leva ao porão, abre, acende a lâmpada. Volta até Redclif e ainda sorrindo, olha direto em seus olhos e percebe que ele esta apavorado. Ela o segura pelos pés e começa a puxá-lo. Precisa fazer muita força, pois além do peso do marido, a sua barriga a impede de movimentos rápidos. Ao final de alguns minutos e muita força, Redclif está deitado no piso frio do porão. A luz fraca e amarelada, quase não o deixa ver nada ao redor a não ser que a janela esta pregada com tábuas. Redclif se debate, as pernas e os braços não reagem e sua cabeça lateja. O medo toma conta do seu corpo, ele tem um único pensamento: Ela vai me matar! Em pânico se lembra que não contou aos pais para onde iam em lua de mel. Ninguém sabe onde estão. Nesse instante a professorinha se ajoelha e o beija na boca por cima da fita adesiva. -'Você vai ficar em boa companhia!' Ele se debate e sem poder falar nada, vê a mulher se levantar e sair do porão, subindo as escadas bem devagar. Ela apaga a luz e ele ouve a porta se fechar. Tudo é silêncio. Um escuro profundo como o pavor que se apossa dos seus pensamentos. Ele tenta respirar naquele negrume enquanto o suor se mistura às lágrimas que correm pelos cantos dos seus olhos.
O ronco do motor do carro chega aos seus ouvidos, ele compreende que ela está indo embora, mas ainda tem um breve pensamento abestalhado pelo medo: Ela está me dando um susto, vai ver descobriu sobre a cabritinha e está me dando um corretivo. É isso! Ela vai voltar, ela me ama! O carro se afasta e tudo volta a ser um silêncio negro e no meio desse silêncio, algo faz barulho no porão. Redclif sente o coração acelerar no peito. Continua a ouvir algo se arrastando no canto embaixo da escada. O pavor toma conta do seu corpo. De todos os seus poros vazam um suor de medo. Totalmente tomado pelo pânico, a urina e as fezes escorrem quando Redclif sente a presença do imenso réptil ao seu lado, com a língua bifurcada sibilando, farejando o seu medo - uma anaconda. Redclif fecha os olhos...
O dia amanhece em Viradouro, uma pequena cidade muito distante de Areia Branca, onde uma mulher que mais parece um anjo, dá à luz uma criança que nasce sorrindo.
Às vezes maravilhava-me com o brilho da lua, não obstante, meu espírito renunciar a um possível voo lunar, eu quis escrever um poema como se fosse um mapa porque hoje, um pouco me perdi. E com o coração pulsando enquanto conversava comigo mesma, ouvi minhas várias vozes repetidamente me contando histórias, as minhas histórias. Pouco a pouco emudeceram e, uma súbita incerteza se apossou do meu único pensamento – quem eu sou? A minha estrutura enclausurada pressentiu o abraço dos tentáculos da noite e, o terrível e amargo instante que se seguiu, empalideceu a minha tez, realçando a cicatriz – a emenda dos meus vários eus. E no mundo luminoso iniciou-se uma nova florada de estrelas cadentes...
_______ estranho e inquieto é objetivo Tempo. Traz as lembranças e o amor desenhados na pele alva dos papiros. E no retorno à claridade dos dias, insisto em perguntar: - De onde eu o conheço?! Não há caminhos entre os veios da memória, que eu não os tenha percorrido, sem contudo, encontrá-lo. Haveria talvez, um outro caminho, que em algum ponto tenha se cruzado com o meu e assim, deixado as suas marcas indeléveis para que pudesse encontrá-las?! Os meus ouvidos são acostumados às suas palavras e a sua risada faz eco no meu coração. As marcas que no pó da eternidade servem de molde aos seus pés, e as suas mãos se encaixam nas minhas mãos, como se o fossem correspondentes pares. Minha sombra reconhece a sua sombra e na minha boca -, a sede é da água da sua boca. Os seus olhos enfeitiçam o meu olhar tal qual nachash enfeitiça o olhar do pássaro. Minha alma se perdeu da sua alma e havia de sofrer o medo da solidão absoluta - a noite sem lua e nem estrelas. E todas as manifestações de tristeza se passaram por mim e antes que me pudessem consumir, me sentei à sombra da grande árvore e perguntei: - De onde eu o conheço?! E a serenidade da resposta, foi como o perfume dos narcisos, que à beira d'água, desabrocham seu olor embriagando nosso olfato, nos dando a salvação de sermos dois em um.
imagem: Sementes ao Vento
Aquarela sobre papel Canson
Luciah Lopez
Tantos são os caminhos e tantos são os
espaços que se apresentam em busca de uma postura interna como forma de
redenção. O destino permanece na
condução da existência humana auxiliando aqui e ali nas tentativas de avanços
vitoriosos sobre a própria vida. Cada passo dado ordena sucessivos desejos, e
as oportunidades de realizá-los se tornam visíveis, tão logo sejam avistadas - flores
na linha imaginária do horizonte.
Imagem: Série Flores
Aquarela sobre papel
Luciah Lopez
“E era outra a origem da tristeza.
E era outro o canto que acordada o coração para a alegria.
Tudo que amei, amei sozinho".
Edgar Alan Poe
ESQUINAS
Não me compadeço deste grito que alcança o infinito e chega escorrer enquanto as portas se fecham. Não me compadeço deste horizonte entalhado, que aparta o dia e a noite incendiando cartazes de ninfetas esquálidas, erráticas. Anjos da discordância que sucumbem na solidão cárnea que arrebata a cor de cada olho cego. Não me compadeço nem deste sol a pino que seca a mão e o ventre daquela que inutilmente pode parir, e esconde sob o lençol sujo de sangue e barro, colocando-se na mira das carabinas. Não me compadeço destes pássaros famintos e suas asas abertas, estendidas nas paisagens da imaginação revelando a densidão de cada voo, nem das suas carnes magras que revestem a brancura dos seus ossos enganosamente imortais. Não me compadeço desta multidão enlouquecida e seu cheiro de urina e suas sombras decapitadas e seu riso febril, instrumento das ladainhas que mistura angustia e cal, no pão seco dos filhos desta fome. Não me compadeço dos meninos e suas dores, do sono dos homens, das mãos calejadas, do relógio que desandou, da aliança que não se fez, do sonho que acabou, do cheiro do estrume, da lágrima da virgem, do pó da terra, do leme do barco, da vida em riste, do muro triste, da menina que ri. Não me compadeço do amor e seus tormentos, seus véus caídos, seus aleijões, sua desfigurada sonolência, sua incerteza, sua covardia, sua dor e seu humilhante ofício de enganar. Não me compadeço da vida nem da morte. O que me seduz é esta desesperada solidão arquejante aflita, quente, sofrida. Me engolindo, me castigando a amplidão do olhar que ainda contempla noites frias e azuis onde o silencio propicia o corte preciso e suave e o gotejar solene deste vermelho delírio insano que corre em mim.
Sagrado nasceu e viveu sozinho, talvez seja por isso que caminha cabisbaixo, e de esquina em esquina_______ faz uma parada e olha pra lá, pro além, e pensa: "será que o fim do mundo é ali, depois da próxima esquina?!" Pensando e remoendo os miolos, Sagrado segue na caminhada. Pensa que é rei, é bispo ou peão, e num súbito, dá um cheque mate no jogo xadrez que é a vida. O mundo mente. O além é aqui, entre o céu e a terra, onde as borboletas fazem seus ninhos e a mulher 'manquitola' carrega uma balança de dois pratos. Um deles, cheio de ouro o outro cheio de barro, e, nesse momento, há uma transformação no seu sentimento humano e novas leituras são feitas. Sagrado é então, xamã. É o leste e o oeste, o norte e o sul da consciência humana_____ o pentagrama e os cinco elementos à sombra da árvore da vida. Expressa a dor e a fantasia, agrega a materialidade visível dos símbolos aos olhos humanos interpretando a resposta imediata na leitura dos arquétipos. Num rompante, Sagrado se despe - vestes rotas e ideias imorais jazem na poeira do chão e completamente nu - Sagrado caminha pela rua em busca do fim do mundo.
foto: Luciah Lopez
Abaixo, um dos vídeos que tive muito prazer em fazer. Especialmente pela excelente prosa poético de nossa confreira Luciah Lopez.(Clique e veja matéria no ACERVUM, sobre o lançamento de seu primeiro livro físico).
Veja também o que o pensador e filósofo Júlio Mourão D'ávila falou sobre o vídeo: "Caro Mhario. Permita-me dizer que o texto dessa moça é surpreendentemente lindo. Emocionante. Permita-me, ainda, confessar que enxerguei, em alguns momentos, a poderosa Hilda Hilst. Obrigado pelo envio, distinto Mhario Lincoln (....)". Grato Júlio por sua apreciação.
Confio muito no que vc escreve e fala. Eu, por mim, digo: parabéns Luciah Lopez. Um texto efervescente. Iluminado. Intenso, com um final surpreendente, sem perder a ternura e a lembrança de sua doce mãe. Beijos. Grande abraço. Volta sempre.
À propósito, eis o prefácio que escrevi para seu primeiro livro físico: À GUISA DE PREFÁCIO (a palavra nua) (*) Mhario Lincoln Poesia não é ilusão. Se assim fosse, seria mágica. A poesia é sentimento. Por isso a emoção. Faz chorar, rir e sentir. Eis o milagre daqueles que realmente sabem escrever poesia. Aliás, escrever, não! Debulhar a alma. E isso, cara Luciah Lopez, você sabe fazer como ninguém. Um rápido exemplo neste livro de estreia: "Toda palavra branca é nua...", isto é, palavra nua, não tem nem cheiro de poesia, equivalendo mais a uma prosa ou narrativa. Por isso, confesso que me encanta ler sua obra, agora reunida neste livro.
Encanta-me a solidez do mote. A linha performática, até, com a qual você vai tecendo o tijolo poético, sob o prelo do conhecimento prático. Teus poemas me obrigam à lucidez interpretativa. Essa é a vantagem de traduzir um insight simples, quase comum, sem rimas lógicas ou perceptíveis, mas com espectro profundamente desestrutural.
Note-se: "Um dia que não amanheceu/E uma noite que não se desfez da escuridão". Isso significa que o verso bem elaborado não precisa de técnica, nem escolas, nem sofrimentos. Todavia, não deve ser uma palavra nua.
Essa é a grande diferença em sua bela obra. Incitado e excita o leitor pela condução poética, a fim de que ele possa construir seu enredo contemplativo, numa hermenêutica de passo a passo, sob o desenrolar do fluxo versicular, tirando desse, a maioria das sensações que a alma de quem lê possa disponibilizar naquele momento.
Isso é um fenômeno clássico. E como diz Antoine de Saint-Exupéry: "A verdade não é, de modo algum, aquilo que se demonstra, mas aquilo que se simplifica". Eis o segredo desta maravilhosa obra.
Então,Luciah, na mosca!.
Jornalista
Mhario Lincoln Crítico literário e presidente da Academia Poética Brasileira.
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