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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

NATAL NA CAATINGA



Com o mapa nas mãos, Noel sobrevoa a Caatinga buscando o local indicado e devidamente marcado com um X, feito com carvão. O mapa feito num pedaço de papel de embrulho, tem um dos cantos “mastigado” e apresenta marcas de dedos sujos, mostra claramente onde devem ser depositados os presentes – a árvore de Natal! Noel, pegou novamente a carta. Olhou-a demoradamente enquanto coçava a longa barba branca. Tentava entender o motivo daquele pedido inusitado. Acostumado a viajar o mundo em seu trenó, sempre levando brinquedos – bolas, bonecas, carrinhos – desta vez, a carta trazia um pedido diferente. Tudo poderia ser apenas uma brincadeira de algum desocupado, mas, sendo ele o Papai Noel, não podia deixar de atender o pedido, e sobrevoava aquela terra árida levando os presentes e de vez em quando, um pouco apreensivo coçava a barba e tentava acalmar as renas... “Vamos, meninas, já esta estamos chegando” e chamava carinhosamente cada uma delas pelo nome: “Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donder e Blitzen , em frente!” Com um "solavanco" no trenó, ajeita a carga tendo o cuidado de olhar se tudo continuava no lugar. Não podia perder nada, principalmente ali, no meio daquela “secura” desertificada. Se perdesse algum dos presentes, não teria como arrumar outro, pois 95% da totalidade da carga fora “comprada” e não confeccionada pelos duendes na sua fabrica no Pólo Norte. Uma lufada de ar quente e seco traz até o seu nariz, o cheiro da carga de presentes – carne de sol, farinha, manteiga de garrafa, rapadura e outros itens que foram devidamente descritos nos seus detalhes – iogurte, bolacha recheada, arroz, feijão, doce de leite, café, goiabada, um metro de fita de cetim vermelha e muitos outros. Além disso, trazia também uma nota à parte pedindo: sal grosso, farelo, alfafa e ração para cachorro e um lembrete. ps: NÃO ESQUECE, É IMPORTANTE! De repente uma árvore se destaca no meio da planície seca. Noel observa o relevo e identifica como sendo o ponto de entrega. Faz um gesto com os arreios e diz: Desçam! E as renas conduzem o trenó com suavidade aterrizando na Caatinga entre cactos espinhentos e galhos secos. Noel desce e caminha até a árvore e lê o bilhete preso no tronco seco. “Papai Noel, eu quero qui o sr. trais pra nóis um poco de comida porque aqui, a fome mata um mininu tudu dia. Não queru qui meus irmãozinho morre de fome, então to pedindo a cumida e um carrinho que é pra eu dá pro Cirço, porque ele só tem um ano e pode brinca di carrinho. Nóis já num pode. Trabaiamô na carvoaria... Papai Noel, num esquece da cumida do Branco o meu cachorro e nem da cumida das cabritas purque elas tem qui dá leite. A fita vermêia, é pra minha mãe por nos cabelo e quem sabe ela fica feliz de novo e para de chorá? Um abraço e a sua “bença” Papai Noel. Assinado: raimundo da silva".

Noel, enxuga as lágrimas e autoriza aos duendes ajudantes que descarreguem o trenó...



quarta-feira, 20 de julho de 2016

ANACONDA


  ANACONDA

Foi numa manhã de primavera que ela chegou à pequena cidade de Areia Branca. Toda vizinhança em polvorosa, pois nunca tinham visto uma beleza igual. Parecia um anjo caminhando com passinhos rápidos fazendo o vestido florido esvoaçar. Um ano após a sua chegada, ela já estava totalmente envolvida na rotina da cidade e seus moradores tudo faziam para cair nas graças da professorinha de biologia. A macharia disponível, se coloca à disposição para  acompanhá-la à missa aos domingos ou para carregar suas sacolas de compras, mas ela nem ai pra tanto chamego. Aconhecer Redclif. Foi paixão à primeira vista e logo no dia de Santo Antonio o padroeiro de Areia Branca. Padre Olavo não pensou duas vezes e foi  abençoando a união. As baratinhas de sacristia, ops! -, as beatas seguidoras do padre,  enocntram um novo assunto para fuxicar - o novo casal de Areia Branca, igual dois pombinhos arrulhando pelos arredores da cidade. Tão logo Maria da Fé, ficou sabendo do namoro, criou coragem e tomou a liderança e  foi falar com a professorinha, avisando sobre o moço, que nada tinha de 'bom moço'-, era um papa virgem! Filho mimado de seo Ludovico que ensinou ao filho, como se tira um cabaço de donzela. De nada adiantava os lamentos de dona Candoca, o filho seguia fazendo alegria do pai: "mulher é igual cabrita, gosta de ser fodida". Mas a professorinha estava cega de amor e não deu ouvido e foi dizendo: -Comigo vai ser diferente, vai ter que casar! E o namoro continuou e tudo foi preparado para o casamento dos dois, que seria na próxima festa do santo casamenteiro, e assim foi. Ela de véu e grinalda, cheirando a flor de laranjeira. Ele num terno cinza de risca de giz, impecavel até no brilho dos sapatos, esperou por ela no altar. Contrariando os bons costumes, a noiva entrou sozinha, já que não tinha nenhum parente pra fazer as honras e entregá-la no altar. Padre Olavo reclamou, resmungou e acabou aceitando a modernidade. Festa das boas, muita comilança, bebida e muita música até a despedida dos noivos, que aos beijos, seguiram pra lua de mel. Redclif estava afoito, passou um ano inteiro tentando uma bolinadinha, uma mão boba, mas a professorinha incisiva:"Só depois de casada!" -, e assim foi. Na lua de mel, a professorinha teve mais orgasmos que estrelas no céu. A  paixão e amor só aumentou e de noite o feitiço do amor era na base de beijo e muita gemeção. Dois anos se passaram. A vida da professorinha já não era o mar de rosas -, Redclif saia todas as noites com os amigos, indo jogar um carteado, uma sinuca ou mesmo tomar umas doses de Rabo de Galo num boteco da periferia, de onde sempre saia acompanhado de alguma moleca espevitada e dispostas a servir de cabrita gemedeira, sempre de quatro no banco de trás do carro estacionado num lugar ermo. Depois de muita safadeza, Redclif deixa a cabritinha mamadeira no mesmo boteco e voltava para casa altas horas da madrugada, sempre com cheiro de perfume barato, as manchas de batom e as costas arranhadas. Se deitava ao lado da mulher sem se preocupar com maiores explicações. A professorinha estava prenha e cheia de vontades de comer pepino com geléia, jaca, chupar limão, roer caco de telha e outras coisas mais. Redclif estava sem saco pra tanta falação de mulher buchuda,  já que estava de olho em Melinda, a filha do alfaiate que fez o seu terno de risca de giz. Menina nova, magrinha, corpo bem feito, seios durinhos sempre soltos dentro da blusiha de alça, cinturinha fina, bunda empinada, coxas grossas e andar espremido de menina virgem doidinha pra gozar. Não se fez de rogado e espichou a conversa, cercou pra lá e pra cá, até que Melinda aceitou as flores, bombons, perfumes e acabou nua dentro do carro, gemendo igual gata no cio e arranhando as costas de Redclif. Em casa, a professorinha, prepara o banho do marido e percebe os arranhões, as mordidas e chupões pelo pescoço. Ela não falou uma palavra sequer, mas também não pregou os olhos e quando Redclif acordou, não encontrou a mulher, procurou pela casa toda e não a encontrou. Foi ataé a casa dos pais e nada sabiam sobre o paradeiro da professorinha. Nas ruas, na igreja, na padaria, ninguém sou dar uma informação sequer. Dois dias se pasaram e até  Mané polícia foi acionado para fazer as buscas pelas redondezas e as beatas de padre Olavo já estavam nas orações. Na manhã do terceiro dia, um táxi vindo da capital, parou em frente ao portão da casa de Redclif e a professorinha, desceu, ainda mais barriguda que antes. Foi uma falação sem fim! Todos querendo uma expolicação e ela nada -, nem ai! Depois dos ânimos calmos, ela avisou ao marido, que durante a noite, recebeu uma ligação avisando da morte súbita de um parente distante e que herdou uma casa numa cidade próxima. Disse que gostaria ir com ele, passar uns dias, antes do filho nascer, que seria igual na lua de mel - só os dois. Redclif não pareceu entusiasmado, mas quando ela sussurou em seu ouvido: "Se você for, eu deixo você me foder por tras igual uma cadela no cio"-,  ao ouvir essas palavras, ele teve uma ereção! Aceitou na hora e partiram em viagem ao final do dia, mesmo sob os protesto de dona Candoca e das beatas, alegando que mulher prenha não pode sair por ai sem paradeiro porque isso faz a criança virar e dificulta o parto. Durante a viagem, ela foi bolinando o marido ao ponto de seu pênis latejar. Ele não se continha em pensamentos, afinal teria o seu prêmio tão cobiçado desde que bateu os olhos na professorinha. Já era noite quando chegaram a tal casa, um velho sobrado com vários quartos e uma sala ampla, uma boa cozinha, banheiros, um sótão  e um porão que certamente cheirava a mofo. A casa  bem afastada da cidade não tinha vizinhos por perto. Parecia uma velha casa abandonada não fosse pela luz acesa. Redclif levou a única mala que trouxeram e também uma grande cesta com as coisas para o lanche da noite. Enquanto Redclif leva a mala pra o quarto, a professorinha arruma a mesa com bolos, sucos e sanduíches e serviu o marido varios copos de suco e muito carinho. Deram risadas e ele falou sobre o que fariam logo mais e como ela ia gozar e gemer feito uma cadela vadia. Ela sorriu. Ele sentiu uma comichão que começou no pênis e foi subindo pelo corpo todo, um torpor. Sentiu a boca amarga e seca, quis tomar mais um pouco de suco e não conseguiu segurar o copo. Tentou ficar em pé, mas as pernas não sustentaram o peso do corpo. Caído no chão, Redclif olhou para a professorinha-, ela sorriu! Ele não consegue se levantar, braços e pernas não obedecem. Sua cabeça lateja, sua visão embaçada e a boca seca. - Sua cadela, o que você fez?! Eu vou acabar com você, sua vadia! Sem dizer uma só palavra, a professorinha se levanta, vai até o sofá onde deixou a bolsa e volta com um rolo de fita adesiva. Ajoelha-se ao lado do marido e calmamente coloca a fita sobre a boca de Redclif dando varias voltas em torno da cabeça o impedindo de gritar os palavroes e ameças. Ainda sorrindo, ela junta as mãos do marido e prende os pulsos com várias voltas de fita adesiva fazendo a mesma coisa nos tornozelos, tirando os sapatos dele e guardando junto com a fita, na bolsa. Caminhando lentamente, ela passa junto ao marido que ainda se debate parecendo um verme tentando inutilmente gritar. Ela vai até a porta que leva ao porão, abre, acende a lampada. Volta até Redclif e ainda sorrindo, olha direto em seus olhos e percebe que ele esta apavorado. Ela o segura pelos pés e começa a puxá-lo. Precisa fazer muita força, pois além do peso do marido, a sua barriga a impede de movimentos rapidos. Ao final de alguns minutos e muita força, Redclif está deitado no piso frio do porão. A luz fraca e amarelada, quase não o deixa ver nada ao redor a não ser que a janela esta pregada com tábuas. Redclif se debate, as pernas e os braços não reagem e sua cabeça lateja. O medo toma conta do seu corpo, ele tem um unico pensamento: Ela vai me matar! Em pânico se lembra que não contou aos pais pra onde iam em lua à mel. Ninguém sabe onde estão. Nesse instante a professorinha se ajoelha e beija a boca do marido, mesmo por cima da fita adesiva. -'Você vai ficar em boa companhia!' Ele se debate e sem poder falar nada, vê a mulher se levantar e sair do porão, subindo as escadas bem devagar. Ela apaga a luz e ele ouve a porta fechando. Tudo é silêncio. Um escuro profundo como o pavor que se apossa dos seus pensamentos. Ele tenta respirar auele negrume enquanto as lágrimas correm pelos cantos dos seus olhos. O ronco do motor do carro chega aos seus ouvidos, ele compreende que ela esta indo embora, mas ainda tem um pensamento abestalhado pelo medo: Ela está me dando um susto, vai ver descobriu sobre a cabritinha e está me dando um corretivo. É isso!Ela vai voltar, ela me ama! O carro se afasta e tudo volta a ser um silêncio negro. Algo faz barulho  no porão. Redclif  sente  o  coração acelerado no peito. Continua a ouvir algo se arrastando no canto embaixo da escada. O pavor toma conta do seu corpo. De todos os poros vaza um suor de medo, a urina e as fezes escorrem quando Redclif sente a presença do imenso réptil ao seu lado, farejando o seu medo  - uma anaconda. Redclif fecha os olhos... O dia amanhece em Viradouro, uma pequena cidade muito distante de Areia Branca, onde uma mulher que mais parece um anjo, dá à luz uma criança que nasce sorrindo.



 imagem: Google 
Anaconda (Eunectes spp)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

VIBRAÇÕES HUMANAS




VIBRAÇÕES HUMANAS


Havia um silêncio.

Só foi quebrado pelas sirenes dos carros da polícia e do falatório dos curiosos se aglomerando cada vez mais perto para poder ver melhor.
Havia também um cheiro forte_________um cheiro que nós, os ainda vivos não conseguimos sentir sem que venha acompanhado pela careta de nojo ou asco. O cheiro da morte. O cheiro que mostra o desequilíbrio entre a vida e a morte e que revela o nosso mais profundo medo.
A moça estava lá. Deitada no chão, com o mato a sua volta todo pisoteado. A roupa tinha sido rasgada e atirada longe, ainda estava pendurada nos galhos mais fortes. Suas pernas afastadas revelando o negrume das suas partes íntimas incineradas, calcinadas pelo fogo ainda revelavam os pedaços da estopa que fora embebida em gasolina e depois colocada em seus genitais para que fossem queimados numa tentativa cruel e insana de tentar remover qualquer prova de violência sexual. Suas mãos crispadas ainda seguravam um pouco de terra e grama (talvez uma última tentativa de manter-se viva). Os seus mamilos foram extirpados a dentadas e cuspidos ao lado do corpo. Sua pele fora retalhada por alguns instrumento cortante exibia a carne e o sangue grudado nas bordas das feridas. A tortura durou algumas horas, eram quatro os seus carrascos. Seus gritos chegaram a ser ouvidos  por moradores de perto mas, na duvida, resolveram se aquietar em suas camas e dormir o sono dos 'justos' até que finalmente ouviram o tiro e silêncio de morte encobriu a volta dos quarto anjos da morte para a claridade da luz dos postes.
A moça ficou lá. Quieta. Inerte. Sem vida. Os ratos do campo e os pássaros vieram visitar os despojos - talvez tenham se alimentado do sangue e da carne exposta. Talvez tenham ficado em silêncio, pois, destes ciclos perversos só fazem parte os homens e suas aflições puramente humanas. A moça foi levada e nos prantos derramados foram validados todos os votos que um dia a mulher que a trouxe ao mundo, fez. Os dias se foram e o mato voltou acrescer onde foi queimado e pisoteado, só a moça não voltou a sorrir.

+Daniele da Silva Santos, 24 anos



sexta-feira, 23 de novembro de 2012

SOB O CÉU



SOB O CÉU

Olhei o céu através da vidraça embaçada.
Não havia estrelas. O céu estava profundamente escuro.
Um céu diferente daquele que eu olhava quando ainda era uma menina, um céu vivo de cores e formas alegres que se movimentavam diante dos meus olhos sonhadores.
Sempre que estávamos na fazenda e a noite nos surpreendia por lá, eu aproveitava para me deitar no terreiro de secagem do café, em cima dos montes cobertos com lona amarela e me perdia no azul profundo do fim da tarde.
Quando a noite finalmente chegava trazendo estrelas tímidas, eu vibrava olhando o faiscar celeste. Minha mãe dizia: “Mariame, os anjos estão acendendo suas velas para clarear o nosso caminho até Deus. Todos nós temos um anjo especial que nos cuida e nos protege de todo mal” – e então eu imaginava uma enorme procissão pelo céu...
Hoje eu olhei o céu... Não vi as estrelas e me perguntei: Onde estão os anjos?! Onde esta o meu anjo, aquele que deveria estar cuidando de mim? Onde ele está, se o céu esta apagado neste aguaceiro?
Não sei – Talvez não fossem anjos lá no céu da minha infância. Talvez minha mãe estivesse errada. Senti uma lágrima. Lembrei-me de mim e dos sonhos que eu tinha, dos planos que fazia – “Ah, eu quero ser piloto de avião e voar sobre as nuvens”. E logo a seguir tudo mudava “eu quero ser exploradora e morar na África” “eu quero ser escritora e contar estórias” e contando estrelas eu nem percebi o tempo passar.
Hoje o céu esta encoberto e silencioso. A vidraça me separa do frio e do vento mas deixa o meu pensamento que se perder nas lembranças. Procuro o silêncio mas, ouço o riso de alguém dentro de mim. Talvez a menina que insiste em viver nos meus sonhos presa qual Rapunzel em sua torre, ela corre pelos corredores das minhas lembranças escondendo-se entre as cortinas azuis ou contando estrelas através das janelas dos meus olhos. Fecho os olhos. Fecho as janelas. Não há mais risos nem correrias. Cortando o silencio apenas um chorar triste. Fecho os olhos e não há luz pelos corredores. Fecho os olhos. Talvez assim a menina finalmente adormeça. Não ouvirei mais as estórias que ela conta enquanto caminha pelas minhas lembranças adormecidas.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

O COLAR DE PEDRA AZUL


O Colar de Pedra Azul


Nos tempo do casarão azul, para onde as crianças da minha família eram levadas no período das férias, dando sossegos aos pais e atormentado a avó; existiam lugares que para nós eram proibidos. O escritório de meu avô, o quarto de vestir onde minha avó guardava seus tesouros - seus baús, seus leques, seus chales de renda e seda, e, claro, a despensa! Ficava “pegadinho” à porta da cozinha – paraíso de todas as guloseimas da casa.

Nossos dias eram longos, acordávamos com o sol bem a tempo de ver a retirada do leite, a alimentação dos cavalos, carneiros, porcos e demais moradores do pátio da fazenda... Após o café reforçado, estávamos livres para brincar naquele paraíso tropical.
Eu, sendo ainda muito pequena não podia me afastar muito dos olhos de minha avó devido ao perigo de alguma cobra, ou do rio de corredeiras fortes e os bois. Alguns até “alongados”, o que os torna mais perigosos, segundo os peões da fazenda. Então eu ficava por perto e quando alguém se descuidava, eu via a chance de excursionar pelos lugares proibidos da casa. Meu avô sempre estava lendo em seu escritório ou na varanda, fumando seu narguilé, então restava o quarto principal - no alto da escada, porta sempre fechada – mistério!

Era um quarto amplo, arejado, com móveis austeros. Tudo muito limpo e arrumado, com cheiro de lavanda inglesa [eu acho] e o quarto de vestir insinuava-se cheio de prateleiras, com muitas caixas e os baús de todos os tamanhos. Não foi possível conter-me! Entrei e peguei um bauzinho de couro marrom com cantoneiras douradas [um tanto gastas], mas bonitas. Por sorte, não tinha chave - “Esta aberto”! Virei tudo em cima da cama.  Me sentei na cama e espalhei o tesouro de vovó, na colcha de crochê! Eram anéis de pedras grandes e pequenas, pedras coloridas, broches, fivelas para cabelos, alfinetes de gravata, os relógios de meu avô [um deles tinha uma tampinha!] cordões e intermináveis perolas perfeitas. E a coisa mais linda que meus olhinhos já tinham visto! Um colar de perolas trançadas e com um pingente de coração com uma pedra azul.

Foi amor à primeira vista! E ao primeiro susto! Minha avó entrou. Me olhou, eu ali, muda, no meio dos broches e anéis... Ela sentou-se em silêncio. Eu havia quebrado as regras da casa! Sabia que seria castigada, mas para minha surpresa, vovó começou a retirar suas coisas delicadamente e guardando-as no bauzinho foi contando a história de cada peça e o que significava para ela.

Quando chegou ao colar em minhas mãos, falou sobre a pedra azul, sobre como eram feitas as perolas,mostrou-me o trabalho delicado do ourives, nos engastes das pedras e delicadamente como sempre fazia tocou em meu queixo levantando meu olhar até o seu, falando-me: –“Meu amor, ainda é muito cedo para você usar estas coisas, mas um dia vou presentear todas as minhas netas com uma lembrança minha. Isto que você tem nas mãos, são apenas pedras bonitas, não se comparam ao meu tesouro maior – seu avô, meus filhos e meus netos e netas. Vocês são o verdadeiro tesouro.E as coisas verdadeiras moram no coração. O resto Mariame, são apenas pedras bonitas"...
Entendi o recado – nunca mais abri o baú...



para minha avó, que caminha pela minha memória.




segunda-feira, 24 de outubro de 2011

AS BORBOLETAS NÃO MORREM


As Borboletas Não Morrem

Minhas férias escolares sempre foram motivo de muita alegria - era a própria liberdade na fazenda dos meus avós - promessa de longos dias de aventura pelas matas, banhos de rio, cavalgadas pelos pastos com o vento no rosto. A noite, as histórias do meu avô.


Era o meu País de Faz de Contas. Onde tudo era possível, onde eu era a princesa soberana de todas as histórias - que mais eu poderia querer?!
Meu avô era mestre em contar histórias de lugares distantes, de um povo guerreiro, de princesas de olhos negros e pele de veludo - Vovô, os meus olhos não são escuros! - Ele respondia sorrindo -"Mariame, seus olhos tem a cor das areias, da dunas".


Essas histórias povoaram minha mente por  muitos anos e as histórias reais eu aprendi junto com meu avô. Com ele conheci o milagre da vida no nascimento de potros e bezerros, na transformação de flores em frutos, na maturação destes frutos e o surgimento da semente. E também a mão certeira da morte colhendo suas vítimas e o séquito alado  sobrevoando, a espera do banquete.

Tudo me foi passado de uma maneira tão doce quanto o mel que colhíamos dos favos e lambuzávamos nossos dedos aproveitando cada gota dessa dádiva de Deus. Ficávamos horas intermináveis deitados à sombra das pitangueiras ouvindo o baque surdo do monjolo e outras horas mais, olhando os peixes descansando por baixo das ninfeias em flor. Tudo em perfeita comunhão com o universo pulsante de insetos e pássaros que nos brindavam com seu canto melodioso.

Uma tarde, meu avô levou-me a um lugar secreto. Um olho d'água!! Uma lágrima da Mãe Terra, pronta para saciar nossa sede. A terra em volta da mina d'água, era úmida, coberta de bambus e taquaras formando uma sombra refrescante. Foi uma visão do paraíso descortinando-se aos meus olhos de criança. O chão coberto de borboletas de todas as cores, de todos os tamanhos. Elas pousavam na areia úmida, desenrolavam sua língua-tromba e sorviam água para depois voar e pousar mais além. Quando me aproximei, todas voaram.

Me senti num carrossel de anjos coloridos que esbarravam em mim, e eu, tentando pegá-las enquanto meu avô em gargalhadas dizia: "São fadas, faça o seu pedido". - Um  desejo nascido do coração de uma criança pode tudo. Então percebi algumas borboletas imóveis no chão - mortas! Não voavam mais - estavam mortas! Fiz o meu pedido.

Pedi para que as borboletas nunca mais morressem, e fossem voando para o céu e assim ficassem aos anjos em nossos sonhos. Talvez, hoje, meu avô esteja com alguma borboleta pousada em sua mão, como ele fazia..."veja Mariame, ela veio me dar bom dia".


para meu avô - vivo na minha memória.