quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

DEZOITO E TRINTA


Havia dois pequenos detalhes e Alice sabia não ser possível, que a tarde obscurecida pudesse lhe trazer satisfação maior que olhar através da janela e ver o mundo paralelo. O velho relógio manipulava as horas adiantando ou atrasando o Tempo a seu bel-prazer enquanto as folhas amarelecidas se desprendiam das árvores no sopro suave do vento. Mas um espectro de demência fazia ver a negatividade das pessoas e o infortúnio à perguntar-lhe: será?! Às vezes é melhor mudar a posição da cadeira e aproximar-se do vidro encardido e absorver o conteúdo do mundo verdadeiro à viver excepcionalmente presa num papel feito as letras de velhos poemas. Um carro passa tremelicando pela rua de paralelepípedos e acontece a salvação de Alice...



foto LL

domingo, 21 de janeiro de 2018

Crossroad Blues

Se um milagre me salvasse, decerto seria véspera do apocalipse. Mas quem mandou sonhar assim?! Vai Alice, vai ser trouxa na vida! De que adianta as mãos espalmadas no quadril e um bico retorcido nos lábios se a unica certeza que tem, é estar presa na teia. Fodeu geral! - Alice e seus pensamentos como as encruzilhadas azuis: assustadoramente hilários! Na infância brincava de 'esperar o futuro' e uma vez no tal futuro/presente, percebe que tudo não passa de simulacros até ela mesma. - Sim, eu reconheço que estou paralisada e a espera do verdugo é um orgasmo que nunca vem. Excepcionalmente as migalhas chegam e eu não as quero mais porque são carícias de desespero quando na verdade eu quero uma barra de chocolate e na vitrola um vinil de Robert Johnson... 

foto : LL


domingo, 14 de janeiro de 2018

CARMINIBUS ET INCANTATIONIBUS



Agora, que você me encarou e verteu suor  e amostras de sangue, nos maus tratos das minhas mãos durante o plantão da Lua-, somos nós, um só e nada mais. O Olho Suspeito já não pode nos ver, porque  bebemos as nossas lágrimas  e trocamos as nossas digitais na emergência de vivermos a meia noite e o meio dia na obstetrícia do mundo. Meu coração é a metade do seu coração e na minha boca as sua palavras germinam e nos seus olhos a percepção das cores criam as paisagens que os meus olhos enxergam. E nas minhas veias os seus genes para sempre impressos vigiando o que somos um para o outro sem a necessidade da consciência de tempo, porque somos um só na incontestável verdade do existir: Amor.

para L.A.M

DISTÂNCIAS




Por quê aqueles dias escondiam o êxtase de viver, como se fosse proibido ser feliz pelo simples motivo de estar viva?! Havia um penhasco e uma vontade incontrolável de transpor a distância entre suas alturas  e uma pequena multidão a me observar num silêncio de algemas e grilhões. Mas o que fazer?! Meus pés recém nascidos eram acometidos de uma ânsia de caminhos e rapidamente perseguiam rastros de outros pés - tudo aceitável à beira do abismo. Minha boca seca havia de querer uma aliada à sua sede em sinal de protesto -, minha garganta queimando na imprecisão daquela água salobra engole a minha saliva adocicada e os meus ouvidos ouvem, mas a minha alma escuta a melodia do vento enquanto as minhas 'asas' são lentamente abertas - alguém grita: acabou a escuridão!



imagem: Chelsea Greene Lewyta



segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

RISO


Tudo dele refluía para mim de forma apoteótica e o meu coração pulsando num momento mais que verdadeiro -, provocava um acontecimento singular a me ensinar o caminho da salvação entre o "deslizar e subir" das coxas e a aspereza  necessária da tarde. Tentei conter o meu riso, mas ele se aproximou tanto que o seu nariz tocou o meu nariz e o seu riso juntou-se ao meu. E naquele momento, poderia até ter um cataclismo que eu não saberia os detalhes porquê estava suscetível a um daqueles rompantes de felicidade e contrariando a minha racionalidade -, meus pés não estavam no chão e os meus olhos ( sem exagero algum) se fechando em conchavo com os meus lábios entre abertos, já sabiam a hora do beijo.



quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

ÚLTIMO VOO


ÚLTIMO VOO 

O que se pode fazer, é observar o Tempo -, como se o mesmo fosse um velho livro de histórias. E no silêncio que se faz entre a aurora e o ocaso, cerrar os lábios e conceber na memória todo espetáculo que um dia foi a Vida. Não há mais necessidade das palavras porquê somos a origem do gene - a longevidade está em nós e em nossos pais. Somos a celebração diante da eternidade e as nossas culpas são absolvidas porque não fomos Caim e Abel na significação da palavra 'irmãos'. Era o meu pensamento - a ponte - entre o meu coração e a sua existência a recobrar o sorriso que não podia ser só seu - era meu também. E será meu até  mesmo como forma de protesto diante da tristeza de não mais sabê-lo. Eu havia crescido na sua memória feita de voos sobre as nuvens brancas sopradas pelo vento forte nas hélices daquele pequeno avião que nos aproximava do mundo dos anjos: seria você um anjo também?! Como sabê-lo?! Você se foi e nem me disse adeus... Todavia,  manter a sua presença nos meus dias é a forma de me manter viva dentro do contexto familiar - assim o Tempo transcorrerá sem que possa me aniquilar.  E eu me acostumo cada vez mais a esta solidão transformada em contemplação; porque não há dor maior que a impotência diante destas paisagens imaginarias que eu sei pintar tão bem. 

para meu irmão Plínio
(15/04/53 - 29/12/2017)



quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

NATAL NA CAATINGA



Com o mapa nas mãos, Noel sobrevoa a Caatinga buscando o local indicado e devidamente marcado com um X, feito com carvão. O mapa feito num pedaço de papel de embrulho, tem um dos cantos “mastigado” e apresenta marcas de dedos sujos, mostra claramente onde devem ser depositados os presentes – a árvore de Natal! Noel, pegou novamente a carta. Olhou-a demoradamente enquanto coçava a longa barba branca. Tentava entender o motivo daquele pedido inusitado. Acostumado a viajar o mundo em seu trenó, sempre levando brinquedos – bolas, bonecas, carrinhos – desta vez, a carta trazia um pedido diferente. Tudo poderia ser apenas uma brincadeira de algum desocupado, mas, sendo ele o Papai Noel, não podia deixar de atender o pedido, e sobrevoava aquela terra árida levando os presentes e de vez em quando, um pouco apreensivo coçava a barba e tentava acalmar as renas... “Vamos, meninas, já esta estamos chegando” e chamava carinhosamente cada uma delas pelo nome: “Dasher, Dancer, Prancer, Vixen, Comet, Cupid, Donder e Blitzen , em frente!” Com um "solavanco" no trenó, ajeita a carga tendo o cuidado de olhar se tudo continuava no lugar. Não podia perder nada, principalmente ali, no meio daquela “secura” desertificada. Se perdesse algum dos presentes, não teria como arrumar outro, pois 95% da totalidade da carga fora “comprada” e não confeccionada pelos duendes na sua fabrica no Pólo Norte. Uma lufada de ar quente e seco traz até o seu nariz, o cheiro da carga de presentes – carne de sol, farinha, manteiga de garrafa, rapadura e outros itens que foram devidamente descritos nos seus detalhes – iogurte, bolacha recheada, arroz, feijão, doce de leite, café, goiabada, um metro de fita de cetim vermelha e muitos outros. Além disso, trazia também uma nota à parte pedindo: sal grosso, farelo, alfafa e ração para cachorro e um lembrete. ps: NÃO ESQUECE, É IMPORTANTE! De repente uma árvore se destaca no meio da planície seca. Noel observa o relevo e identifica como sendo o ponto de entrega. Faz um gesto com os arreios e diz: Desçam! E as renas conduzem o trenó com suavidade aterrizando na Caatinga entre cactos espinhentos e galhos secos. Noel desce e caminha até a árvore e lê o bilhete preso no tronco seco. “Papai Noel, eu quero qui o sr. trais pra nóis um poco de comida porque aqui, a fome mata um mininu tudu dia. Não queru qui meus irmãozinho morre de fome, então to pedindo a cumida e um carrinho que é pra eu dá pro Cirço, porque ele só tem um ano e pode brinca di carrinho. Nóis já num pode. Trabaiamô na carvoaria... Papai Noel, num esquece da cumida do Branco o meu cachorro e nem da cumida das cabritas purque elas tem qui dá leite. A fita vermêia, é pra minha mãe por nos cabelo e quem sabe ela fica feliz de novo e para de chorá? Um abraço e a sua “bença” Papai Noel. Assinado: raimundo da silva".

Noel, enxuga as lágrimas e autoriza aos duendes ajudantes que descarreguem o trenó...