sábado, 16 de janeiro de 2016

MADAME ZOHAYDÈ



MADAME  ZOHAYDÈ

Eu a conheci na faculdade, em 2004. Ela era uma das pessoas mais alegres e mais extrovertida que eu tive o prazer de conhecer. Todos os dias ela aprontava alguma coisa pra fazer a turma toda cair na risada, tinha bom  humor e uma presença de espírito fora do comum, além de ser negra e dizer sempre que era um orgulho assumir a negritude. Quando nos conhecemos no primeiro dia de aula, ela chegou  usando uma saia longa e muito colorida  e uma blusa verde limão que chegava doer os olhos e como se não bastasse as cores fortes da roupa, os cabelos estavam com traças estilo rastafári com  contas coloridas nas pontas. Ela chegou na porta da sala de aula, colocou a mão na cintura e deu o maior "Boa Noite, gente!" seguido do maior e mais branco sorriso que já vi. Sentou-se ao meu lado e a amizade foi imediata. Formamos o nosso grupo de estudos com mais três pessoas e eu posso afirmar que foram as melhores risadas que eu dei em toda minha
 vida. Ela era surpreendente e criativa em todas as brincadeiras e a turma toda, inclusive os professores ficavam alerta esperando a palhaçada da noite. Num dos períodos, nosso grupo foi foi 'sorteado' pelo professor de Fundamentos Sócio-Antropológicos  para apresentar um trabalho sobre Karl Marx e na sequencia ele avisou que ninguém podia levar 'lembretes' - era mão limpa. Viviane, uma das amigas, entrou em pânico dizendo que não conseguia explicar trabalho a não ser lendo alguma coisa ( o tal lembrete proibido). Na aula seguinte, Julia (era este o nome dela) chegou alegre mas durante a aula, o sono bateu e ela disfarçando, apoiou o cotovelo na carteira e colocou uma das mãos na testa e com a outra seguiu escrevendo e como dormiu, riscando a folha do caderno numa posição de quem está psicografando uma mensagem do além. Era o que precisávamos para salvar Viviane na apresentação do trabalho. Reunimos a turma, e decidimos fazer um teatrinho. Julia seria a Madame Zohaydè, e nós as suas discípulas. Fizemos uns panfletos anunciando a presença da 'vidente convidando para uma palestra e também avisando que a mesma faria uma demostração dos seus poderes e coisa e tal. Durante a semana, como eu chegava mais cedo, entrava em varias salas e escrevia no quadro negro em letras grandes: Em breve receberemos  a grande vidente Madame Zohaydè e suas discípulas. Em Curitiba, na época Dirce Alves era uma astróloga muito conhecida por seu programa na Radio e como não podia deixar de ser, era amiga de Julia, então fomos até a casa de Dirce e na cara dura ela pediu que a mesma fizesse um mapa astral (ou coisa parecida)de uma pessoa (Karl Marx), Dirce pediu a data do nascimento e mais umas coisinhas e para nossa surpresa, Julia abriu a bolsa e tirou um papel com os dados que conseguirá na Biblioteca Pública e ficamos esperando até que Dirce ligou e disse que estava pronto.  Todo mundo curioso, panfletos por tudo lado. e nós de boa montando as coisas. No dia do trabalho, chegamos mais cedo e começamos a produção. Julia, com uma roupa de mãe de santo, com direito a turbante e tudo e nós seguindo a mesma linha, até com uma estrelinha na testa. Colocamos um tapete, almofadas e uma mesinha baixa, com um aquário redondo, com a boca para baixo imitando uma bola de cristal, baralho, cartas de tarô, uma coruja empalhada, uma vela de sete dias, e muitas folhas de papel e canetas sobre a mesa ( era uma folha em branco e a outra com a parte do trabalho que cada uma de nós devia explicar).  Não podia faltar o incenso e isso foi resolvido com um turíbulo cheio de tabletes de incenso de Rosa Musgosa, direto da Lojinha Rosa Cruz. Tudo montado, fechamos a sala e deixamos o ajudante do laboratório cuidando e nos refugiamos numa sala ao lado. Quando todos entraram, inclusive o professor, foi uma confusão total. E ninguém sabia explicar o que estava acontecendo, a porta da sala fechada então o rapaz abre a porta e avisa ao professor que a tal vidente está ali e quer falar com ele. O professor muito puto da cara com aquela parafernália toda dentro da sala, diz que não, mas o rapaz insiste e ele acaba concordando, desde que ela - a vidente seja rápida pois a sala deve ser limpa. Entra a Sílvia, com o turíbulo balançando pra lá e prá,  cheio de incenso queimando e fazendo uma fumaceira dos diabos e logo atras, Viviane e eu. Demos uma volta pela sala que veio abaixo de tanta risada e nos sentamos na ordem das folhas do trabalho. Então, surge a Julia (Madame Zohaydè) em meio a fumaça e muita risada e sem falar nada , senta numa almofada e pede silencio. A turma se cala imediatamente, já se preparando pra se mijar de rir. Julia assume a postura e coloca amão sobre a bola de cristal e começa a encenação ( risadas) " Eu  serr a Grrande Vidente Madame Zohaydè ! Eu estarr rrezebendo uma mensagem do além. Zilêncio! Eu prreciza conzetrrazon! " A cara do professor era indescritível. Ele não sabia se mandava todo mundo pra 'pqp' ou se caia na risada. Optou pelo silêncio. Julia pegou uma caneta e começou a psicografar e falar: "Eu estrrarr  rrezebendo o contato de um taurino, nazido em 05 de maio de 1818 na cidade de Trèveris (e  segue lendo tudo que a Dirce Alves tinha feito no tal mapa) eza  pezoa manda uma rrecado pra voces: Então ela pega uma das folhas do trabalho e passa pra Viviane e pede para que a mesma LEIA o recado.  Viviane se levanta e começa a ler, sem olhar para o professor que ficou roxo! E assim foi com as outras partes do trabalho. Todas nós lemos e explicamos o 'recado' de Kral Marx e no final a sala veio abaixo!!! O professor caiu na risada e depois, sem poder reclamar, teve que dar um 10 merecido pela nossa atuação!!
 Julia realizou o sonho! Formou-se em Nutrição e como ela mesma dizia : Agora eu deixo de ser uma ajudante de cozinha numa creche municipal e vou ser alguém!" - infelizmente, a Julia viajou logo após a formatura vitima de um câncer no cérebro. Ela deixou em todos que a conheceram, um pouco da sua simplicidade e alegria de viver e certamente o cardápio lá no céu esta muito mais saboroso e balanceado.  Esta é uma das muitas histórias de Julia Ferreira de Souza, uma mulher negra, mãe, amiga e NUTRICIONISTA  formada em 2007 pela Uniandrade Curitiba.


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