Se eu esperasse rendas e flores, poemas e canções, talvez fosse mais fácil deixar o momento e seguir em frente sem olhar para trás. Mas não é assim: eu não espero nada disso.O que eu quero dessa Vida é respeito e o direito de traçar metas e objetivos mantendo a dignidade que assumi ao escrever pela primeira vez o meu nome. Quero caminhar um caminho limpo, sondar as minhas profundezas e sabê-las à luz da consciência, para que eu possa compreender atitudes e comportamentos sem distorcer a realidade. Quero a intimidade da minha alma na harmonia com a criação gerando a igualdade cósmica entre todos nós. Não espero rendas e nem flores porque nada é estático -, nós somos parte de tudo e os conceitos se renovam a cada dia e não estamos isentos dessa significância. Eu sei que alguns anos se passaram e outros tantos se passarão até que a história se torne real na verdade escrita de próprio punho e a minha imagem incline-se sobre a minha sombra beijando a si mesma.
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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018
quinta-feira, 28 de julho de 2016
Agnaldo, o Mííípi
Agnaldo, o Mííípi
Eu particularmente nunca gostei de ver animais presos em pequenas jaulas, seja em circos ou em zoológicos e até hoje eu só tive um passarinho, porque ao passar em frente ao aviário, percebi numa grande gaiola, que vários passarinhos estavam bicando um coitadinho. Comprei o bichinho -, um Diamante Mandarim que até então eu nem sabia existir e pensando em solta-lo na Serra do Mar, comentei com o vendedor, mas o homem disse que um pássaro que nasceu em cativeiro, não sobrevive solto no mato. Levei o passarinho com gaiola e demais acessórios e o batizei de Agnaldinho. Driblando a síndica do prédio entrei pela garagem e uma vez em casa, coloquei a gaiola sobre a mesa e esperei ele cantar. Mas tudo que ouvi foi algo parecido com "míííípi"... Frustei! Mas com o passar dos dias, eu já estava íntima do passarinho e conversava com ele chamando de Míipi ou Grinaldinho. Quando eu ia pra faculdade, deixava a gaiola no chão com a portinha aberta e uma tigelinha com água pra ele tomar banho. Mas o danadinho adorava mesmo era a pia do lavabo, então eu passei a deixar um filetezinho de água escorrendo e o Míípi fazia a festa e deixava um monte de côcozinhos pra eu limpar. Quando eu chegava, costumava ficar quieta procurando colocar a chave na fechadura da porta sem fazer o menor ruído, mas que nada, o danadinho escutava e gritava Míííípi, escondido na samambaia pendurada no canto da cozinha. Depois que eu entrava no banho, ele ia pra gaiola e ficava deitadinho no ninho até o outro dia. Foi assim durante anos até que um dia eu acordei e o Mííípi tinha ido cantar lá no céu. Enterrei ele dentro de uma caixinha forrada com papel de seda azul e rosa porque nunca soube se o Mííípi era menino ou menina...
quarta-feira, 27 de julho de 2016
O CIRCO
O CIRCO
Na minha infância, era muito comum os pequenos circos se instalarem num terreno próximo a minha casa. Armavam a grande e puída lona, faziam as chamadas pelo bairro e ficavam em média dois finais de semana. Depois desmontavam tudo e sumiam da mesma forma que chegaram - em silêncio. Nesses períodos era sempre a mesma coisa -, o sumiço de gatos e cachorros do bairro. Muita gente falava à boca miúda-, que era o pessoal do circo, quem desaparecia com os animais, mas ninguém podia provar. Restava só falatório sempre que alguém sentia falta de um gato ou cachorro. Diziam que o pessoal do circo recrutava a molecada do bairro e trocando um gato ou cachorro por entradas no espetáculo e os animais eram jogados como comida aos leões magricelas e mal tratados, que passavam a vida inteira presos em pequenas jaulas de 2 x 2 metros, urrando a noite inteira. Numa dessas aparições de um pequeno circo, o meu cachorro, um pointer marrom e branco chamado Napoleão, fugiu enquanto minha irmã entrava pelo portão de casa. Não deu outra -, eu aos prantos, esguelando e chamando o cachorro e todo mundo procurando por ele. No bairro todos conheciam o meu cachorro e ajudaram a procurá-lo até o final da tarde e nada de encontrar o Napoleão. Eu ainda esguelando esperava o meu pai chegar. Mal ele parou o carro e foi cercado por todos, falando ao mesmo tempo sobre o sumiço do cachorro. Meu pai deu uma olhada para constatar o meu estado lastimável (olhos inchados, nariz melequento e a boca escancarada num choro sem fim) e sem mais a falar ou fazer, entrou no carro e foi até o circo. Pimba! E chegou na hora. O cachorro estava lá, amarrado com uma cordinha talvez esperando a hora de virar comida de leão. Meu pai chamou a polícia e armou um barraco. Moral da história - o circo desarmou o acampamento e partiu, mas o Napoleão voltou pra casa são e salvo.
quarta-feira, 6 de julho de 2016
MISTÉRIOS
Mistérios
Desde o início sempre foi você. No meu coração em desalinho, uma ansia e um sofrer, um tanto querer outro tanto não ter -, era assim, só assim o meu viver. E quando tudo era ausência, meus olhos mergulhavam à sua procura e a tristeza era a companhia de hora onde o sono era a fuga pra remediar -, eu sonhava um sonho atras do outro e rabiscava poesias a nâo mais querer. Muitas vezes, eu confesso, chorar até adormecer, noutras vezes, somenta à lua eu confessava todos os meus quereres e me fingia sua, em cada verso em cada rima de poesia crua. Mas quem mandou, coração amar quem não era meu?! E tanto eu sonhei até que acabei presa dentro de um sonho com medo de acordar... O tempo, inexorável segue adiante e tudo que eu quero, tudo que eu desejo, segue comigo pra onde eu for e eu preciso de um vento forte pra secar todo esse choro antes de adormecer, enfim.
para LAM/Odur
terça-feira, 5 de julho de 2016
MEU IRMÃO MAIS VELHO
MEU IRMÃO MAIS VELHO
Todos os dias era a mesma coisa -, choradeira após o banho na hora de pentear os meus cabelos e arrumá-los numa trança ou rabo-de-cavalo (norma da escola, para as meninas). Sendo cacheados, passar um pente era coisa mais que dolorosa e eu gritava e esperneava até minha mãe perder a paciência e me dar uns tapas. E no meio do chororô, o meu salvador adentrava o quarto já empunhando o pequeno pente de tartaruga e pacientemente tomava o lugar da minha mãe na dificil tarefa de desembaraçar e trançar aquele emaranhado de fios molhados e cheios de nós. Mas com jeito, o trabalho rendia e a minha trança era sempre enfeitada com um belo laço de fita ou uma fivela. Terminada a sessão tortura, eu estava pronta para almoçar e depois ir à escola. Nesta época, eu era muito ligada ao meu irmão mais velho e gostava de ficar junto, enquanto ele montava as réplicas de aviões. O esqueleto do avião tomando forma, o revestimento com um papel especial que recebia varias camadas de resina até ficar bem resistente. Depois da secagem, vinham os adesivos nas laterais e nas asas do avião. Alguns modelos, tinham elásticos presos à hélice e quando estas eram giradas torciam o elástico e isso dava propulsão ao avião, fazendo-o decolar num pequeno voo que na maioria das vezes acabava num desastre. Depois vieram modelos mais elaborados e com motor movido à combustível. Não sei qual era, mas gostava do cheiro e do barulho do motor. Mais tarde, quando eu estava com 12 anos, meu irmão mais velho, resolveu brincar com aviões de verdade e foi fazer o curso de piloto, coisa já esperada porque meu pai era do Ministério da Avição e sempre morou próximo ao aeroporto por causa do trabalho no Departamento de Aviação Civil. Nesta época, meus cabelos eram curtos e eu não precisava mais de ajuda para arrumá-los, e os meus interesses também mudaram -, descobri os livros e ficava horas 'empoleirada' na minha goiabeira, lendo As Viagens de Gulliver, Robinson Crusoé e os gibis. E por conta dos tais gibis, eu acabei descobrindo uns livros que estavam embrulhados e guardados dentro de uma mala, embaixo de um monte de gibis do Recruta Zero e Seleções Reader's Digest. Naquele tempo, as camas tinham cabeceiras altas e no lado oposto, uma proteção com a metade da alura da cabeceira e foi sobre essa proteção que eu alcancei (na pontinha dos pés) os tais livros. Fui apresentada a Cassandra Rios e Adelaide Carraro. Depois do choque da primeira olhada, eu consegui ler algusn livros antes de ser apanhada num flagrante e receber um castigo daqueles. Então, meus 15 anos, festa, novos amigos novos interesses e o meu irmão mais velho sendo mais caseiro, tambem se distanciou e rrumou uma namorada. Eu, uma adolescente querendo ir à bailes e festinhas, dirigir carros e pilotar moto, descobri em meu outro irmão o parceiro ideal. Sendo ele também piloto, me deixava carro e moto aos meus cuidados sempre que viajava. Meu irmão mais velho se casou e me deu a alegria de ser tia da Daniela, que logo estava comigo passeando de carro sentadinha numa cadeirinha no banco da frente. O tempo era algo que não me preocupava - eu era feliz, tinha uma família feliz, o que podia dar errado?! A ordem era viver e ser feliz, não haviam motivos pra preocupações. Meus pais eram maravilhosos, embora Suzana já não morasse mais na nossa casa, minha irmã cuidava de mim me fazendo todos os caprichos. Meu irmão mais velho, agora casado e com uma filha e um filho, tinha se tornado mais distante, mais fechado e isso me aproximava mais do meu outro irmão. Tudo era festa, tudo estava perfeito demais. Julho! Quatro de julho aniversário da minha irmã e ela no hospital se recuperando de uma cirurgia na coluna. Seis de julho, meu aniversário sem festa. Onze de julho de 1981 - 20h - vou sozinha à missa ecumenica da minha formatura de segundo grau - 22h30 chego em casa e logo vou me deitar - 23h55 meu pai atende o telefone e eu escuto ele falando: "Estou indo" e desliga o telefone. Meu pai vem até o meu quarto e me diz: " Vamos pra Cornélio, sua irmã morreu" e começa a chorar indo até o quarto do meu irmão dar a mesma noticia. Entramos no carro e ninguém falou nada, nehuma palavra durante a viagem. Quando chegamos ao hospital, eu olhei para o rosto do meu pai - ele estava mais velho!! Envelheceu durante a viagem e calado foi se encontrar com a minha mãe e providenciar a volta da minha irmã não para nossa casa. Foi a primeira vez que a morte chegou perto. Chegou e levou o meu anjo de luz. A vida segue o seu curso, a dor vai cedendo lugar à saudade. Venho para Curitiba para estudar e fico morandodefinitivamente em Curitiba. Meu filho nasce em 24 de março de 1986. Três de março de 1987, aniversário da minha mãe - internamento emergencial - amputação da perna - 16h consigo falar com minha mãe pelo telefone, dio que a amo, desejo feliz aniversário e que estou indo pra lá a noite - 17h ela sente dor, pede um medicamento, enfermeira ministrando morfina e.v. - choque - coma! Onze de março 18h - casa dos meus pais, atendo o telefone e o médico que a operou me diz: "Eu sinto muito, infelizmente a sua mãe faleceu" - segunda vez que a morte chega perto e levou a minha mãe. A tristeza do meu pai foi imensa, reclusa e silenciosa. Durante 12 meses ele não fez outra coisa além de ir ao aeroporto, ao posto de gasolina pagar os funcionários e voltar antes das 18h estar em casa e sozinho até a hora de dormir.Todos as noites eu ligava para saber como ele estava e desejar boa noite: " Te amo papai, bons sonhos" - Vinte e quatro de setembro, a primavera não me trouxe flores. A morte se aproximou mais uma vez e levou o meu pai enquanto ele dormia. A impotência diante da morte, a mais completa solidão, a angustia mais profunda eu experienciei naquela manhã de sábado ao atender o telefone e ouvir do meu irmão mais velho: " O papai faleceu"... Vinte oito anos se passaram. Muitas coisas mudaram na minha vida. Muito aprendizado e a certeza de que preciso melhorar muito e aprender muito.Desde 2004 por um motivo tão fora de propósito, acabei por me afastar do meu irmão mais velho e não nos falamos mais e não nos viámos desde de então. Dois de julho - 9h56 - minha sobrinha Daniela me avisa que o pai dela faleceu durante a madrugada. O pai dela é o meu irmão mais velho - 12 anos de silêncio e uma eternidade para eu pensar se valeu a pena. De antemão eu digo: Não valeu nada! Embora tenhamos sido criados na mesma casa, recebemos os mesmo conceitos sobre moral, sobre perdão, sobre a convivência entre irmãos, não soubemos dar continuidade aos ensinamentos do meu pai e com a sua morte, nos afastamos por motivos tão insgnificantes se colocados à luz da verdade de que somos irmãos e agora só restamos dois, eu aqui e o meu outro irmão em algum lugur no Uruguai, mas este eu vou procurar e dar um abraço antes que 'ela' venha nos visitar novamente.
*J.L.R. estaja em paz e na companhia dos nossos pais e irmã
foto: LL 02/07/2016
quarta-feira, 22 de junho de 2016
LEMBRANÇAS
Lembranças
Hoje pela manhã, logo que cheguei ao trabalho, tive um mau subito e mesmo recebendo um pronto atendimento, não foi possível controlar o quadro e minha ida ao hospital foi inevitável. Lá chegando, fui imediatamente colocada numa maca no P.S. e minha melhor veia no dorso da mão, serviu de acesso para um cateter calibroso por onde o soro fisiológio e medicamentos rapidamente escoaram, causando um relaxamento imediato. Nesta altura da minha vida, eu já não sinto pavor por estes "instrumentos de tortura" -, sou uma paciente bastante compreensiva e, sem nada a fazer, passei a observar o gotejar solene do líquido translúcido responsável pelo meu bem estar. De repente, muitas imagens vieram à minha mente. Aquele gotejar antes silencioso, agora tinha som. Parecia o bater ritmado de um coração - o meu coração!! Fechei os olhos e procurei desviar o pensamento, mas o som continuava forte- Tum! Tum Tum! Tum! TumTum! Senti a palma das mãos ficando úmidas e frias. Pensei em chamar a enfermeira, mas desisti da ideia porque não tinha o que dizer a ela. Fiquei quieta. Estava muito frio, puxei a manta para cobrir a mão onde estava o cateter e fechei os olhos na esperança de adormecer e quando acordar, tudo estar bem. "Tudo ficou escuro. Tão escuro que era quase impossível respirar e foi quando senti o gosto do sangue pela primeira vez. Senti também a viscosidade quando passei a mão pelo meu rosto tentando limpar os olhos e então eu senti dor. Tinha um corte profundo no meio da testa e saia muito sangue. Naquela escuridão, não era possível ver nada à minha volta. Escuro! Um cheiro ruim de mofo, a poeira fina grudando nas minhas mãos, coisas grudentas nos meus cabelos -TEIAS DE ARANHA! Um grito que não saiu -, morreu na garganta junto com o choro sufocado pelo sangue. A mãe era a salvação! Cadê a minha mãe?! - eu não queria ser engolida por aquela boca enorme e fedorenta de mofo e teias de aranha - devia ter milhões delas, com seus olhinhos capazes de ver na escuridão, todas rastejando na minha direção. Não consegui gritar. Senti o calor da urina molhando as minhas pernas. Fui me encolhendo cada vez mais em posição fetal, feito um bichinho rendido diante do pavor. Meu coração batia forte, acelerado Tum Tum Tum TumTum Tum -, minha cabeça doía, meu corpo girava no escuro e na lama de urina e poeira e de repente eu senti o vento soprando meus cabelos e os movimetos do balanço me levando cada vez mais alto e mais alto entre as risadas - eu não estava só. Eu era criança, estava num balanço, mas não estava só. Eu podia sentir as pequenas mãos tocando nas minhas costas me empurrando cada vez mais alto e nós riamos muito e o sol nos meu olhos, me obrigava a fechá-los. Então o balanço foi diminuindo e diminuindo até parar e eu abro os olhos e vejo as mãos estendidas: "Dê-me as suas mãos, as minhas são suas. Vem! Vamos correr!' -, segurei aquela mão e sai correndo". Então eu ouço: _Me dá mão, vem! Me dá a mão! E alguém segura com força a minha mão, mais precisamente o meu braço e me puxa violentamente me trazendo à luz do dia. Fui levada às pressas para o Hospital São Lucas. Minha mãe aos prantos tentava me limpar daquela massa de sangue, poeira, teia de aranha e urina enquanto eu -, eu só olhava o mundo e sentia o vento e o balanço pra lá e pra cá. Depois de muito choro, levei 6 pontos na testa, tomei uma injeção e voltei pra casa com um curativo enorme e nunca mais eu vi o meu dom Pixote com a bengala e a cartola. Nunca mais passei perto daquela portinhola que fechava a entrada embaixo da casa e onde eu tinha entrado para recuperar um brinquedo e ao sair, fui surpreendida pela porta que se soltou me acertando em cheio no rosto, se fechando a seguir, me mantendo presa no escuro por hum milhão de anos luz até ser enocntrada pela minha mãe e nosso vizinho, que me tirou de lá em choque. Anos depois, quando demoliram a casa de madeira, finalmente eu pude rever o meu brinquedo e o mantive comigo por mais alguns anos até que finalmente se perdeu e algum lugar entre o aqui e aquele lugar onde o balanço me levava ao céu cada vez que as suas mãos tocavam as minhas costas. Há muitos tempo eu não me lembrava disso, até mesmo porque a cicatriz na testa passou a fazer parte de mim.Hoje eu me senti completamente só e com frio e senti medo, então me cobri com a manta e deixei a mão um pouco descoberta, esperando pela sua mão. Pela hora do almoço, fui liberada e voltei para casa. E cada vez mais, a certeza do que eu quero me toma por completo. Tá bom, você pode não acreditar em nada do que eu digo, mas eu sei o que eu sinto e o quanto tem de verdade em cada palavra esticada nesta linha chamada vida.
"O que está guardado no coração, é para sempre"
domingo, 12 de junho de 2016
MEU TIO SAUL
MEU TIO SAUL
Era tão bom quando eu me sentava ao seu lado e ouvia as suas histórias -, mesmo as mais loucas que um ser humano é capaz de inventar. Ele sempre com o olhar perdido no vazio entre a cidade e aquela casa, aquela varanda alta, aquele chão vermelho, o cachorro deitado aos seus pés, a fumaça do cigarro entre os dedos amarelados, a mão apoiada no joelho -, era ali, naquele espaço de silêncio que ele vivia as suas experiências sem prestar contas à realidade. Com a sua voz grave, ele me contava fatos que a minha inocência não era capaz de assimilar e muitas vezes, ele segurava a minha mão com o seu jeito peculiar e apontava o meu dedo indicador, um ponto entre o céu e a terra dizendo: É pra lá que eles foram!-, eu olhava atentamente sem contudo, perguntar - Quem foi pra lá?! Quem?!-, na verdade eu sentia medo de perguntar qualquer coisa e me dispunha a ouvir. Então, de repente ele sorria e me perguntava se eu queria um doce ou um passeio no viveiro de mudas que ficava do outro lado da rua. Eu sempre respondia a mesma coisa - primeiro o passeio e depois o doce! E de mãos dadas, atravessávamos a rua mergulhando num mundo de flores, mudas de árvores ornamentais e frutíferas as quais ele conhecia pelo nome científico. Além das flores, tinha os aninais - coelhos angorá, porquinhos da índia, gansos e patos. Os pequenos micos com seus olhos enormes, preás, cotias, jabutis, um lagarto que comia ovo, e um grande viveiro de pequenos pássaros e as barulhentas araras. Ficávamos por longas horas passeando à sombra do arvoredo. Muitas das vezes, era estação das frutas e eu me deliciava com carambolas, romãs, pitangas, jabuticabas, isso tudo, antes dos tais doces que eu não esquecia. Antes de ir embora, era a vez dos peixes ornamentais nos grandes aquários e os alevinos nos taques cobertos com uma tela fina para evitar que as garças fizessem um banquete à céu aberto. Depois de nosso passeio ecológico, ele segurava a minha mão e caminhávamos em silêncio até a rua de cima, onde ele comprava os doces: canudinhos com doce de leite e banana kasutera os meus prediletos (ainda gosto!!) De volta à casa da minha avó, eu me sentava na área (varanda) e ele voltava a sua posição acocorada junto a parede do quarto e abríamos os saquinhos de papel pardo e nos entregávamos aos doces e risadas. Há um mundo misterioso, diante do qual os covardes se apavoram, um mundo que ele conhecia tão bem. Soube como entrar, mas nunca soube como voltar.
só a saudade nunca tem fim
sexta-feira, 3 de junho de 2016
FIM DE TARDE
Fim de Tarde
Uma das lembranças que eu guardo da minha infância, são as tardes como esta -, o céu azul/violeta e as nuvens se desmanchando ao sopro de algum vento ligeiro. Lá em Paranavaí (da minha infância), o fim da tarde era sempre uma alegria, uma apoteose -, bandos de pardais fazendo uma gritaria na copa do grande jequetiba, que imperava absoluto no terreno baldio, na esquina, quase em frente a minha casa. Minha mãe e eu, sempre nos sentávamos numa daquelas cadeiras com armação de ferro e recoberta com plástico tipo macarrão, muito comuns naquela época -, e em silêncio ficávamos ouvindo os pardais e em determinadas épocas, os bandos de andorinhas vinham passar o verão na nossa cidade. Era um espetáculo à parte! Algumas se exibindo em voos rasantes, se distanciavam do bando em formação compacta, dando a impressão de ser uma nuvem escura contra o céu azul violáceo. Engraçado, como estas lembranças permanecem vívidas em mim e eu me pergunto, se alguém mais se lembra da grande árvore, aquele belo jequetiba, que por muitos anos serviu de morada aos pardais e andorinhas naquela esquina, um terreno baldio entre a Av Parigot de Souza e Antonio Vendramim. Não sei, não acredito que alguém mais se lembre daqueles finais de tarde modorrentas, não fosse a algazarra dos pardais e a presença da minha mãe, talvez nem eu mesma fosse capaz de uma lembrança assim.
foto LL
quinta-feira, 5 de maio de 2016
O VAMPIRO E A CRUZ
Quando nos apaixonamo, perder a razão, a lucidez e deixar de enxergar coisas evidentes é o mais comum. Em outra situação, saberíamos como proceder e qual atitude mais óbvia para evitar choros e lágrimas quando não se sabe o porquê. É triste constatar que pessoas se satisfazem de maneira torpe ao saber serem amadas, desejadas por outra. É triste, ter que desatar os nós da paixão, deletar os sonhos assim como se deletam palavras mal escritas. Quem ama - ama, mas quem é amado nem sempre ama. Nem sempre pode ou quer amar da mesma forma que é amado. Fomentar uma paixão da qual não se quer nada além que "uma válvula de escape" para aliviar a tensão ou mesmo como fonte inspiradora de belas palavras -, isso é o mesmo que matar, assassinar a outra pessoa. É roubar o que de mais precioso, o mais puro de sua essência e menosprezando o amor como parte de uma brincadeira inconsequente. Somos presas fáceis quando nos dizemos apaixonados, quando revelamos os nossos anseios, os nosso sonhos e passando a dividi-los. É extremamente doloroso quando a noite chega acompanhada de surpresas fazemdo entender que tudo era só uma brincadeira e que se danem os nossos sentimentos tão ingênuos, tão pueris - afinal, tudo se resolve assim, como o vampiro que sempre foge da cruz!
sexta-feira, 29 de abril de 2016
SONHOS
Sonhos
Uma das coisas mais incríveis que já me aconteceu , foi um sonho repetido varias vezes durante uma fase ruim na minha vida. Não um sonho corriqueiro, mas um sonho com muitos signos e que sempre me deixava angustiada ao acordar. Por mais que houvesse da minha parte a busca pelo entendimento daqueles signos, me faltava conhecimentos para tal, então eu passava dias tomada por uma melancolia que era perfeitamente observada nos meus olhos. Este é o meu sonho: Eu caminhava apressada por uma rua deserta, era perto do fim da tarde e o céu estava numa cor entre o azul e o violeta. Olhava para os meus pés e eles estavam calçados com uma sandália de salto alto, o que dificultava a rapidez dos passos. Vez ou outra eu volta a cabeça olhando para trás e sabia que estava sendo seguida, só não conseguia ver que me seguia. O pânico tomava conta de mim, minha respiração ficando cada vez mais ofegante e o coração acelerado era sinal do medo diante do perigo iminente. Tudo era muito rápido, mas eu via claramente as janelas sendo fechadas quando eu passava. Procurei a igreja e a enorme porta estava sendo fechada, eu bati violentamente e a porta não foi aberta. Então comecei a correr em direção a uma ponte e comecei a correr por ela, mas ao chegar ao meio da mesma, olhei e percebi que ela não era mais de concreto e sim uma ponte pênsil, de madeira toda carcomida e que balançava muito conforme eu andava. Olhei para os meus pés, estavam calçados com uma sandália simples, de couro em cor natural e sem muitos detalhes. Percebi que a minha roupa também não era a mesma de antes. Eu estava com uma saia longa de tecido escuro, achei estranho, mas continuei correndo tomando cuidado para não cair, eu segurava na lateral da ponte, uma corda muito grossa, áspera e cheia de nós.
Então, alguém chama pelo meu nome e eu olho pra trás e me assusto com o que eu vejo (mas nunca me recordo quem é a pessoa) , entro em desespero e começo a correr e acabo caindo antes de sair da ponte ( sinto muito medo) e então - surge outra pessoa que estende as mãos - aquelas mãos se abrem à minha frente e eu agarro a elas, me levanto e saímos correndo de mãos dadas. Eram mãos de um homem. Delicadas, magras, dedos finos mas, mãos de um homem. Ao sair da ponte pênsil, eu vejo que tudo é diferente; as casas, as ruas, as pessoas. Mas ele não para e me leva para um lugar que mais parece uma caverna, me segura pelo braço e me dá de beber numa caneca, uma bebida doce, mas com um travo amargo no final. Me manda sentar num pequeno banco, senta-se à minha frente, eu olho para os meus pés e a sandália de couro e percebo que ele usa uma sandália parecida com a minha e os pés dele estão próximos aos meus, fico olhando os seus pés e penso - são bonitos!Ele toca na minha mão e diz: "Sonhos tem muito de realidade e você vai entender tudo na hora certa"-, falando isso, ele coloca na minha mão um livro bastante velho e escuro, eu consigo ler o que está escrito na capa do livro A Origem dos Sonhos e a Verdade do Homem. Vou abrir o livro e não consigo, então eu levanto os olhos e o homem não está mais ali - eu estou sozinha com o livro nas mãos. Acordo a seguir. Anos mais tarde alguém me manda ler um livro sobre sonhos...
segunda-feira, 25 de abril de 2016
FINALIZANDO
Finalizando
...hoje quando acordei, tudo por aqui estava envolto em neblina. Mas com o sol, o céu se derrama em partículas de ouro em pó...
Misteriosamente uma cigarra (imaginaria) começou a cantar, grudada ali, na veneziana do meu quarto. O canto da cigarra me transporta para um outro lugar - um recanto escondido na minha memória - chamado "infância". E o mesmo acontece com o cantar do bando anus, seguindo os bois pelo pasto e dos bem te vis pousados no ramo mais alto da "touceira" de bambus, onde eu, me balançando fugia do mundo. E as frutas! Sempre as frutas - jacas, pitangas, melão de São João, Maria preta, seriguela, gabiroba e outras, mas estas, em especial, fazem parte dos sabores da minha memória.Tudo ali, reunido ao santificado sabor do doce de leite, de goiaba e marmelo, de mamão verde e o cheiro do queijo assando na chapa do fogão à lenha. Aqueles dias podem ser tão longos quanto a eternidade, mas o que eu sabia sobre a eternidade?! E quando o vento soprava forte, anunciando a chuva, eu subia no galho mais alto da minha goiabeira de frutos brancos e me balançava - imaginando voar; e voava mesmo! Voava nas asas dos gaviões e das corujas buraqueiras e depois pousava no lombo de algum boi solitário e pedido em seus pensamentos 'mascando' uma touceira de capim manteiga. Quando vinha chuva lá do céu, molhando aquela terra e escorrendo pelos veios dos barrancos, expondo as raízes da velha e frondosa Ceboleira, eu me punha a navegar em barcos feitos de papel... E quando a tarde ia morrendo - os bois 'rezavam' num mugido triste e rouco e tudo ficava mais lento e mais lento até o sol se deitar por detrás dos meus olhos e dormir o mundo dentro dos meus sonhos.
sábado, 16 de abril de 2016
TEREZINHA CAI CAI
Terezinha Cai Cai
Tudo era só calmaria no bairro Ibirapuera, até que ela veio morar com a irmã, casada com um jogador de futebol do Atlético Clube de Paranavaí, que moravam em frente à minha casa. Pronto, acabou a monotonia das tardes modorrentas da minha infância. Ela era diferente das mulheres que eu conhecia, tinha um "sei lá o quê" - , que deixava a mulherada com inveja ou ciúmes, e os homens, ah, estes ficavam babando e com aquela cara de peixe morto fingindo nem saber que ela trocava de roupa com a janela aberta. Até a minha mãe, que era um poço de ciúme, rezou um sermão pro meu pai, embora até onde se saiba, ele não saia da linha, mas a minha mãe fez uma pequena observação: "Pode estar chovendo canivete, mas se a Terezinha estiver na rua, deixa que se molhe, entendeu ou quer que eu desenhe?!" -, e meu pai nem piscava os olhos verdes e nunca mais ficou de bobeira no jardim de casa, pra não correr o risco de ficar sem os mesmos! E eu, só olhando e percebendo que ela, Terezinha, era diferente, isso ela era. Até dona Lair, do professor Laércio, ficou anuviada depois que Terezinha veio morar no bairro, e, olha que dona Lair era lindona. Hoje eu sei qual a diferença entre as duas.Dona Lair era o tipo de mulher clássica, bonita, elegante, olhos verdes, sempre vestida com discrição, mas a Terezinha - ah, essa era diferente. Tinha uma cintura fina marcada por um cinto e uma 'bundona' gigante salientada pelo vestido sempre justo. Seu Gonçalo era o cunhado, jogador do Atlético e toda vez que ele saia de casa para ir ao clube treinar, Terezinha se arrumava toda - horas a fio pra lá e pra cá na frente da janela mudando de roupa até acertar na escolha. Quando, enfim, decidia pela cor e modelo, ela partia pra maquiagem - quilos de pó de arroz e um batom vermelho pra combinar com as unhas, depois era um sapato de salto alto e uma bolsa. Ah, ia me esquecendo do cabelo -, era sempre um penteado desfiado, avolumando no alto da cabeça e uma franja jogada para o lado e tudo coberto de laquê. Ela dava uma última olhada no espelho, depois pegava a bolsa e ganhava a rua - na época, a então Avenida Rio Grande do Norte não era asfaltada. Era um areião lascado no sentido da casa dela, e o um barranco cheiro de mato entre as duas pistas, mas isso não era empecilho pra Terezinha. Ela saia pisando leve, só com a ponta dos pés pra não afundar no areião e fazia questão de passar bem na frente da serralheria do seo Luiz Casado, fazendo a alegria dos empregados que só faltavam saltar a bulica dos olhos e ela nada, nem olhava pro lado.
Na quadra seguinte, já sem o problema da areia solta, ela podia caminhar com segurança, o que facilitava o rebolado da bundona gigante. Ia toda faceira, passava pela frente da loja de peças Auto Motor e a mesma coisa acontecia - era só 'fiu fiu' que se ouvia e ela nada, nem olhava pro lado. Andava mais duas quadras e passava pelo ponto de Taxi e toma 'fiu fiu'. Então ela deixava a Avenida Paraná e seguia pela Manoel Ribas esquina com a Souza Naves, onde tinha um bar, cujo nome, eu não me lembro, mas que na época era o reduto dos fazendeiros da cidade e região para acertar a venda de bois. Um pouco antes, ela dava uma paradinha, abria a bolsa e pegava um espelhinho de mão, dava uma olhada básica, retocava o baton e aplicava umas gostas a mais do perfume Classic Charisma -, segundo ela, sua marca registrada. Com tudo pronto, ela saia rebolando e com a cara mais seria deste mundo chegava em frente ao bar e era acometida por uma tontura repentina, cambaleava procurando apoio e finalmente caia na calçada. A homaiada de plantão, já com os ânimos elevados pelas cervejas, saia em disparada pra socorrer a bunduda e era só mãozada pra lá e pra cá e ela nada de acordar do desmaio. Descaradamente ela abria as pernas e ficava toda mole e toma mãozada nas coxas e tudo era feito na maior discrição, afinal estavam acudindo uma 'senhorita' já um pouco passada na idade, mas ainda uma senhorita indefesa. O dono do bar, que já sabia das coisas, mandava trazer a moça pra dentro do estabelecimento e trazia uma garrafa de vinagre pra passar nos pulsos e fazê-la cheirar - era um santo remédio, ela acordava na hora. Nesse momento, um dos socorristas se oferecia para leva-la até a sua casa, coisa que ela recusava dizendo já estar bem, mas diante da insistência , acabava aceitando e saia do bar amparada, entrando no carro do 'escolhido' que desaparecia avenida abaixo deixando os outros com cara de tacho. Horas mais tarde, quase na boca da noite, um carro parava na esquina antes da casa do seo Gonçalo e Terezinha descia bem faceirinha e pisando mole, atravessava o areião indo pra casa. Foi assim por uns dois anos até que o passe do seo Gonçalo foi vendido para outro time e tiveram que mudar de cidade. Muito ainda se falou de Terezinha Cai Cai...
quinta-feira, 14 de abril de 2016
A CASINHA É MINHA!
A Casinha é Minha!
Era sempre assim que tudo terminava: "A casinha é minha!"-, e o pau comia. Isso nas tardes quentes de 1967 em Paranavaí, eu, Bete, Roseli, Lurdinha, Rosane e Nanai brincávamos de 'casinha' no quintal da minha casa. Nós estudávamos no Grupo Escolar Três Marias num horário muito favorável, das 11h às 14 h, portanto, o fervo começava assim que o uniforme era trocado por um shortinho, uma camiseta e um tênis Conga com biqueira de borracha branca. Eu sempre usava camiseta com estampa de um dos anões da Branca de Neve e o tênis era sempre vermelho.O quintal da minha casa mais parecia o Sitio do Pica Pau Amarelo, tinha muitas árvores - goiabeiras, cajueiro, mangueiras e a mais importante de todas - o abacateiro! E isso sem falar nas flores que a minha irmã plantava em todo lugar, até mesmo na horta que Suzana teimava em manter organizada e protegida dos meus cachorros , galinhas, patos, coelhos, porquinhos da índia e de um ou noutro leitãozinho rejeitado pela mãe e trazido para mim, lá da fazenda e tratado na mamadeira, pra depois eu fazer o maior berreiro quando o meu pai resolvia leva-lo de volta. Aquilo era o paraíso para as nossas aventuras. Mas o que nós mais gostávamos, era de juntar as panelinhas e fazer comidinha usando as verduras da horta. Tudo corria as mil maravilhas, até que por qualquer razão ainda desconhecida, eu armava uma briga, sempre com a Roseli. Era sagrado - todo dia pra finalizar a coisa, eu encrencava com ela. Como a 'casinha' era no meu quintal, é claro que eu tinha que ser a 'mamãe', senão, eu não brincava e pronto. Elas já sabendo da regra, aceitavam. Nós tínhamos a mesma idade, variando apenas no tamanho e eu era a mais alta e isso sempre fez a diferença. Pois bem, lá pelas tantas, eu já de saco cheio da brincadeira de comidinhas e bonecas, armava de colocar a filhas de castigo e a Roseli sempre reclamava. Era a deixa que eu precisava pra ir até o pessegueiro, quebrar um galho fino e mandar ver nas pernas dela. Era só grito e choro e a mãe dela aparecia na janela e gritava chamando pelos filhos: Roseli, Rosane e Roberto, já pra casa! A irmã e o irmão dela, eram menores e portanto brincavam em outro quintal com as crianças menores, irmãos da Bete e da Márcia - eu era a caçula na minha família. Bom, a brincadeira acabava sempre do mesmo jeito - Roseli indo pra casa passando pelo vão da cerca de balaústres, com a boca aberta chorando e com as pernas marcadas pelas varadas. Márcia, Lurdinha, Nanai e a Bete saiam de fininho já sabendo que a minha mãe ia pedir pra Suzana ou pra minha irmã, trazer a cinta, porque na cabeça dela, eu tinha que levar uma surra também - isso pra ela não ficar mal com a vizinha. E o pau comia solto até o dia que eu descobri que era melhor eu fugir antes da minha mãe chamar a Suzana ou a minha irmã. Dito e feito - subi no abacateiro feito um gato e lá de cima, só olhando as coisas. Minha mãe ficou furiosa. Tentou me fazer descer sob ameaças e eu nadica de nada, só olhando. Então, ela mandou a Suzana trazer um bambu que era usado pra levantar o varal e tentou me cutucar pra eu descer. Nada feito, eu subi mais alto e como ela era baixinha, não pode fazer nada. Mas o destino estava contra, pois na brincadeira, eu tinha tinha tirado o tênis pra não sujar o tapete da casinha e na fuga, não deu tempo pra calçar, portanto eu estava descalça me equilibrando nos galhos mais altos do abacateiro. Minha mãe desistiu do bambu, mas não largou a cinta e pra meu desespero e dor nos pés, mandou trazer uma cadeira e sentou, olhou pra cima e falou: Vamos ver quanto tempo você vai aguentar ai em cima, porque eu tenho o resto do dia pra esperar. As minhas amigas, já de banho tomado saíram para os respectivos quintais junto com as mães e ficaram assistindo a minha tortura: se eu descesse ia apanhar e ficando lá em cima, os meus pés estavam doendo. Minha mãe, de boa sentada batendo papo com a mãe da Roseli e da Bete, só esperando - de vez em quando dava uma olhada pra cima pra ver com eu estava. Eu, fingindo que não sentia nada, mudava o pé no galho a cada cinco minutos, mas resisti bravamente até as 18h, quando finalmente o meu pai chegou. Minha mãe relatou o acontecido e meu pai mandou trazer outra cadeira e sentou junto com ela e pra meu desespero, ele mostrou o embrulho que tinha na mão - os meus doces! Putz! Todos os dias ele passava na Confeitaria Suga e trazia bomba de chocolate, papos de anjo e banana kasutera, meus doces prediletos! Eu não acreditei quando ele abriu o pacote e serviu os "meus doces" pra Roseli, Bete e os demais observadores da desgraça alheia, inclusive minha mãe, minha irmã e a Suzana comeram os doces. Depois disso, ele falou: Desce! E eu desci até onde aguentei e ele me pegou no colo e me levou pra dentro de casa - dai, longe de todos eu abri o berreiro porque os pés estavam doendo e eu não tinha os doces.Meu pai rezou um sermão de meia hora, mandou eu tomar banho, o que eu fiz - sentada, por conta da dor nos pézinhos. Depois, fomos até a Confeitaria Suga comer uns mil e quinhentos doces - rsrsrsrsrs - e no outro dia, Roseli apanhou de novo, mas não foi com galho de pessegueiro, mas com uma vara de pesca! E o tempo passou entre brigas e choros, até eu vir embora pra Curitiba e nunca mais vi a Roseli. Com as outras amigas mantenho contato até hoje...
segunda-feira, 11 de abril de 2016
ALICE E O ESPELHO
Alice e o Espelho
"O meu sucesso! A minha glória!" Ah, Alice e os devaneios... Tão aloprada que nem percebe o cigarro queimando entre os dedos - Alice menina, correndo desembestada pelo caminho dos bois no pasto, mais parece um bicho selvagem - abre os braços e corre com o vento - quer voar alto, acima das nuvens, quer subir com uma lufada de vento, mas o vento que traz o cheiro de bosta das vacas. Alice fecha os olhos e da risadas - ela é feliz em seu estado natural. Mal sabe ela, que o mundo dá voltas e as coisas mudam da noite para o dia. As mãos não seguram o vento e nem a boca sorve toda água da chuva. Um dia, a noite chega mais cedo e a lua fica no céu junto com o sol, então Alice abre a sua caixa de Pandora e deixa que saiam todos os seus segredos, todos os seus anseios - e assim, olhando os seus guardados voarem feito borboletas, ela não se dá conta do Tempo. Já não é mais menina, já não pode correr com o vento e nem pegar a cauda do cometa. O Tempo passou e Alice pariu um filho e não sentiu as dores, as rasgaduras, os suores - só ouviu o choro e alimentou a boca e agasalhou de amor - Alice sorriu olhando o filho. Depois dela cantar cantigas de ninar, a noite não foi embora, encalhou, fez o sol adoecer e cair de cama. A noite era feita de veludo e não cedeu lugar para estrelas e nem a lua apareceu - era só negrume e silêncio. Nem o vento com cheiro de bosta das vacas, nem o canto dos quero-queros, nem os grilos, nem as cigarras - era a solidão, a sua companheira. O cometa passou, Alice olhou o céu na esperança de ver o rabo do cometa e desejou segurá-la bem forte e viajar a imensidão - Halley foi embora e ela não.
Hermeto fez uma música nova, alguém foi à lua mais uma vez, fizeram uma passeata pelas "diretas já", pintaram o bondinho da Rua XV, o saxofonista anônimo toca blues na noite curitibana, Dalton não sai às ruas, Thor coloca poesias em garrafas e joga ao mar - Alice também escreve poesias no espelho do banheiro - passa baton nos lábios, arruma os cabelos vermelhos, limpa dos olhos as lágrimas e ler as poesias - até se perder dentro de um olhar. Alice já não é mais menina e o espelho diz isso enquanto ela insiste em escrever nos próprios lábios, o nome que tem no coração. Alice olha pela janela e o céu está lá, e o sol e a lua estão juntos - é o Tempo preso dentro do Tempo que faz Alice ficar menina e mulher para sempre.
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016
REFLEXÕES DE ALICE
Reflexões de Alice
Puta que pariu! O país de deteriorando, a merda vazando pelos bueiros e eu aqui, sentada sem saber o que fazer dessa minha vidinha de merda sabendo que o tempo está passando e já já, eu vou estar velha e com certeza enfiada em algum asilo - triste fim de Alice Quaresma!
Hoje é sexta feira, e eu me pergunto - O que isso traz de bom? O que isso acrescenta à minha vida, além de mais uma ida ao supermercado e voltar pra casa carregada de coisas inúteis?! Se bem que cerveja não é inútil, é companhia sempre bem vinda, mesmo para mim que bebo tão pouco, mas em certos momentos a cerveja cai bem.
Hoje o dia foi tenso. Aquele entra e sai de gente, aquela falação danada de quem não tem o que fazer a não ser entrar e sair das lojas, provando tudo que encontra pela frente e no final, não levar nada ou somente aquela blusinha da liquidação. Coisa mais cacete! Eu daria tudo pra não ter que voltar na segunda feira e enfrentar tudo novamente: "Moça, eu quero 'provar' essa calça, mas tem que ser numero 42, tá?"-, número 42 o caramba! A mulher é enorme, deve usar numero 48 e me pede para trazer numero 42 e reclama quando não entra na calça. Puta que pariu! Ah, mas agora eu tô em casa, no meu apertamento "minha casa, minha divida (eterna)" e a merda do chuveiro queimou outra vez - lá vai banho de caneca e isso até me acalma. Vou usar o sabonete que ganhei de presente de Páscoa, eu nunca tinha visto isso - ganhar sabonete de presente de Páscoa, mas num foi má ideia não, afinal eu nunca ganhei sabonetes importados Fiorentino, e achei muito melhor que aquela caixinha de Bis ou aquele ovo de chocolate rançoso que deixa a boca da gente sebosa e fiquei passada com a atitude da 'madame', mulher fina, chique, nunca vi fazer isso, dar presente pra vendedora de loja - isso pode ser promessa, mas que seja, rsrsrs, só pode ser promessa pra segurar homem. Se eu tivesse coragem perguntava pra ela se foi mesmo.Mas deixa quieto... Enquanto a água esquenta nas únicas três panelas que eu tenho, vou dar uma olhada no Face - quem sabe "ele" postou alguma coisa nova. Vamos lá, entra. Humm. Wow! Não disse, ele postou! Putaquepariu! Outra poesia linda pra cacete, pena que não é pra mim. Ô cacete, Alice, não viaja, você e uma vaca atolada num brejo são a mesma merda, aliás, é bem capaz de aparecer alguém e salvar a vaca! Eu daria qualquer coisa pra que "ele" um dia olhasse pra mim, eu até curti aquele poemão lindo da semana passada, mas que nada, ele nem viu... Quequecequé?! Fala ai, Alice, quequecequé???? Que um cara desses olhe pra você?? É mole, que ele vai olhar e se fizer, é só pra zoar. Ah, mas que ele é lindo, isso eu num posso negar. Tem um jeitinho de menino e escreve cada coisa de saltar butiá do cacho enquanto eu, nem sei escrever direito sobre a linha. Miór nem pensar, vou ver a água pro banho e me deliciar com o sabonete importado.
PUTAQUEPARIU!!! Pobre tem que se fuder mesmo!!! Sexta feira, dez horas da noite e o gás acabou!!! Ô mô pai, que castigo é esse?! Vou ter que passar paninho úmido?! Tenha dó!!
Bom, pelo menos a cerveja tá gelada... O jeito é olhar a foto "dele", tomar umas três cervejas e dormir, porque a vida só fode com quem tá com a bunda na reta. Fui...
domingo, 17 de janeiro de 2016
PRA VOCÊ EU GUARDEI
Pra Você eu Guardei
Eu amo você. E isso independe de fatos, pois o meu amor por você É, Está e Será, porque não é condicionado a nada, nem normas ou formas e nem nada. Eu amo porque você é quem é, com seus defeitos e qualidades e tudo o que vem junto. É um pacote completo e isso me faz amar e me completa mesmo assim como estamos - geograficamente falando, mas por outro lado, você está em mim e isso me faz feliz e me permite saber o que eu quero e como quero. Creio estar sendo repetitiva, mas eu sou humana, densa demais e as paixões humanas muitas vezes roubam o nosso juízo (não interferindo no amor), mas acredito que seja isso - a paixão quando bem administrada enfeita o amor. Reveste-o com cores novas, para que ele não seja comum aos nossos olhos. Eu amei você desde o primeiro momento, mas não me apaixonei, porque eu não saberia administrar sozinha a paixão. O meu amor por você manteve o meu coração aquecido, manteve os meus sonhos, manteve a minha alegria, mas foi a paixão que acordou a minha parte primitiva, a mulher, o animal fêmea que esta sempre com olhos arregalados buscando pelo seu macho. E ela sente o seu cheiro e sabe das suas necessidades, porque são iguais às dela - isso dói! E sabendo dessa dor, eu mantive a paixão fora do meu corpo. Acolhi o amor, dei guarida, deixei que fizesse morada, mas no meu íntimo, eu desejava a paixão e toda loucura que ela nos traz. Não existe o acaso (você mesmo afirmou), então eu só posso crer que, de alguma maneira, o fio que me mantem ligada à grande urdidura da Vida, se entrelaçou ao seu - e de agora para frente eu não sei como será, mas tenho certeza de que, não será mais como antes - mormaço! Digo a você que minha alma te ama e o meu corpo também e neste momento se alguém me perguntar o que eu quero, eu só tenho uma resposta absoluta: Eu quero você!
Embora o Tempo a Vida e a Morte sejam inevitáveis, e, eu ainda neste corpo, quero o toque e o calor do seu corpo. Quero a sua pele e o seu gosto e o seu cheiro e o seu riso, porque, o que é o querer, senão, a janela das possibilidades e nada pode cercear o querer, a não ser nós mesmos.
para "Odur"
MADAME ZOHAYDÈ
MADAME ZOHAYDÈ
Eu a conheci na faculdade, em 2004. Uma das pessoas mais alegres e mais extrovertida que eu tive o prazer de conhecer. Todos os dias ela aprontava alguma coisa pra fazer a turma toda cair na risada, tinha bom humor e uma presença de espírito fora do comum, além de ser negra e dizer: "é um orgulho assumir a minha negritude". Quando nos conhecemos no primeiro dia de aula, ela chegou usando uma saia longa e muito colorida e uma blusa verde limão que chegava doer os olhos e como se não bastasse as cores fortes da roupa, os cabelos trabalhados com tranças nagô com contas coloridas nas pontas. Ela chegou na porta da sala de aula, colocou a mão na cintura e deu o maior "Boa Noite, gente!" seguido do maior e mais branco sorriso que já vi. Sentou-se ao meu lado e a amizade foi imediata. Formamos o nosso grupo de estudos com mais três pessoas e eu posso afirmar que foram as melhores risadas que eu dei em toda minha vida. Era surpreendente e criativa em todas as brincadeiras e a turma toda, inclusive os professores, que ficavam alerta esperando a palhaçada da noite. Num dos períodos, nosso grupo foi 'sorteado' pelo professor de Fundamentos Sócio-Antropológicos para apresentar um trabalho sobre Karl Marx e na sequencia fomos avisados que ninguém podia levar 'lembretes' - era mão limpa. Viviane, uma das amigas, entrou em pânico dizendo que não conseguia explicar trabalho a não ser lendo alguma coisa ( o tal lembrete proibido). Na aula seguinte, Julia (este o nome dela) chegou alegre, mas durante a aula o sono bateu, e ela, disfarçando, apoiou o cotovelo na carteira colocou uma das mãos na testa e com a outra seguiu escrevendo e dormiu, riscando a folha do caderno numa posição de quem está psicografando uma mensagem do além. Era o que precisávamos para salvar Viviane na apresentação do trabalho. Reunimos a turma, e decidimos fazer um teatrinho. Julia seria a Madame Zohaydè, e nós as suas discípulas. Fizemos uns panfletos anunciando a presença da "vidente" convidando para uma palestra e também avisando que a mesma faria uma demonstração dos seus poderes e coisa e tal. Durante a semana, como eu chegava mais cedo, entrava em varias salas e escrevia no quadro negro em letras grandes: Em breve receberemos a grande vidente Madame Zohaydè e suas discípulas. Em Curitiba, na época Dirce Alves era uma astróloga muito conhecida por seu programa na Radio e como não podia deixar de ser, era amiga de Julia, então fomos até a casa de Dirce e na cara dura ela pediu que a mesma fizesse um mapa astral (ou coisa parecida) de uma pessoa (Karl Marx), Dirce pediu a data do nascimento e mais umas coisinhas e para nossa surpresa, Julia abriu a bolsa e tirou um papel com os dados que conseguira na Biblioteca Pública e ficamos esperando até que Dirce ligou e disse que estava pronto. Todo mundo curioso, panfletos por tudo lado, e nós, de boa montando as coisas. No dia do trabalho, chegamos mais cedo e começamos a produção. Julia, com uma roupa de mãe de santo, com direito a turbante e tudo, e nós seguindo a mesma linha, até com uma estrelinha na testa. Colocamos um tapete, almofadas e uma mesinha baixa, com um aquário redondo, com a boca para baixo imitando uma bola de cristal, baralho, cartas de tarô, uma coruja empalhada, uma vela de sete dias, e muitas folhas de papel e canetas sobre a mesa ( era uma folha em branco e a outra com a parte do trabalho que cada uma de nós devia explicar). Não podia faltar o incenso e isso foi resolvido com um turíbulo cheio de tabletes de incenso de Rosa Musgosa, direto da Lojinha Rosa Cruz. Tudo montado, fechamos a sala e deixamos o ajudante do laboratório cuidando e nos refugiamos numa sala ao lado. Quando todos entraram, inclusive o professor, foi uma confusão total. E ninguém sabia explicar o que estava acontecendo, a porta da sala fechada então o rapaz abre a porta e avisa ao professor que a tal vidente está ali e quer falar com ele. O professor muito puto da cara com aquela parafernália toda dentro da sala, diz que não, mas o rapaz insiste e ele acaba concordando, desde que ela - a vidente seja rápida pois a sala deve ser limpa. Entra a Sílvia, com o turíbulo balançando pra lá e prá, cheio de incenso queimando e fazendo uma fumaceira dos diabos e logo atrás, Viviane e eu. Demos uma volta pela sala que veio abaixo de tanta risada e nos sentamos na ordem das folhas do trabalho. Então, surge a Julia (Madame Zohaydè) em meio a fumaça e muita risada e sem falar nada , senta numa almofada e pede silêncio. A turma se cala imediatamente, já se preparando pra se mijar de rir. Julia assume a postura e coloca amão sobre a bola de cristal e começa a encenação ( risadas) " Eu serr a Grrande Vidente Madame Zohaydè ! Eu estarr rrezebendo uma mensagem do além. Zilêncio! Eu prreciza conzetrrazon! " A cara do professor era indescritível. Ele não sabia se mandava todo mundo pra 'pqp' ou se caia na risada. Optou pelo silêncio. Julia pegou uma caneta e começou a psicografar e falar: "Eu estrrarr rrezebendo o contato de um taurino, nazido em 05 de maio de 1818 na cidade de Trèveris (e segue lendo tudo que a Dirce Alves tinha feito no tal mapa) eza pezoa manda uma rrecado pra vocês: Então ela pega uma das folhas do trabalho e passa pra Viviane e pede que a mesma LEIA o recado. Viviane se levanta e começa a ler, sem olhar para o professor que ficou roxo! E assim foi com as outras partes do trabalho. Todas nós lemos e explicamos o 'recado' de Kral Marx e no final a sala veio abaixo!!! O professor caiu na risada e depois, sem poder reclamar, teve que dar um 10 merecido pela nossa atuação!!
Julia realizou o sonho! Formou-se em Nutrição e como ela mesma dizia : Agora eu deixo de ser uma ajudante de cozinha numa creche municipal e vou ser alguém!" - infelizmente, a Julia viajou logo após a formatura vítima de um câncer no cérebro. Ela deixou em todos que a conheceram, um pouco da sua simplicidade e alegria de viver e certamente o cardápio lá no céu esta muito mais saboroso e balanceado. Esta é uma das muitas histórias de Julia Ferreira de Souza, uma mulher negra, mãe, amiga e NUTRICIONISTA formada em 2007 pela Uniandrade Curitiba.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2016
PELAS PALAVRAS
PELAS PALAVRAS
Por um longo período na minha vida me senti como um barco, à deriva. Permitindo-me ficar ao sabor da corrente sem forças para me desviar das agressões causadas pelos recifes cortantes, imersos em águas turvas.
Não havia nada. Apenas um silêncio interno e o barulho das ondas - eterna cantilena do mar. Não era triste, porque não me chegava essa tristeza. Era apenas a existência sem razão; sem benefícios, entrecortada por pensamentos e pelas imagens abstratas.
Eu flutuava, me cortando nas adversidades ao meu redor, tornando-me cada vez mais cética quanto aos sentimentos humanos. Me encontrava num processo de auto-comiseração. Estava resolvida a esquivar-me do contato físico e assim me perceber numa solidão existencial ou até mesmo egoísta.
Descobri que olhar o céu noturno em seu cravejado caminho estelar, alivia; contudo não é suficiente para um despertar. Nem mesmo a sabedoria milenar dos cometas, me libertou. Todas as estações passaram por mim, todos os dias e seus sofrimentos, todas as horas e seus silêncios, mas tudo apenas me feriu a pele.
"Não há paisagem quando nossos olhos não querem ver". Isso é formidável. A vida se transforma num passar de tempo sob esta abóbada de silencio onde não executamos nenhuma comunicação, nem mesmo com nosso próprio ego.
Por milhares de anos fiquei à deriva. Observei as civilizações, os profetas, os homens sábios e os déspotas. Vi o peso da lei e a suspensão da mesma. Vi a natureza em seu cio constante, vi a ciência, a verdade, a vida e a morte. Tudo se passando aos Olhos de Deus.
Naveguei neste caldo morno e primordial que denominamos existência, vida ou apenas consciência de tempo e gradativamente executou-se o milagre. Meus dedos tocaram algo. Finalmente entrelaçaram -se a outros dedos. Foi quando senti a necessidade de estar viva. Milenarmente viva!
Ressuscitei de dentro dos meus medos e das minhas desesperanças que se afogaram no silêncio e pari diamantes em meus olhos. E entrelaçados, os meus dedos e os outros dedos, coloquei meu corpo e a apresentação do mesmo numa suspensão temporária da decência quando encostei-me de leve no seu corpo, aquecendo o mundo aquoso ao meu redor.
Abri com suavidade as minhas portas e inclinei minha cabeça finalmente olhando dentro daqueles olhos de esperança. Busquei prolongar a emoção naquele aposento líquido, imerso no silêncio das nossas palavras.
Com a força de quem renasce das leis da natureza e se define como mulher, finalmente entendi o meu lugar ao seu lado e senti suas palavras ditas ao meu coração num murmúrio suave no meu ouvido. Finalmente entendi você.
(esperando Odur)
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
ENTRE O CÉU E A TERRA
Entre o Céu e a Terra
_ O que é isso? O que esta acontecendo com você? Será que está louca?!- me perguntou a amiga. E isso em 2008. Eu não tive uma resposta no momento. Calada, minimizei o que eu estava escrevendo e salvei como rascunho. Fiquei muito sem graça por ter sido pega em flagrante. Minha amiga era rápida demais com os olhos e conseguiu ler algumas linhas do meu texto, alem de ter visto claramente a fotografia que ilustrava o mesmo - um poemeto pra lá de meloso, falando de sonhos e fantasias ilustrado com a sua fotografia.
Dei um longo gole no vinho que estava tomando, acendi um cigarro e me preparei para ser executada sem dó nem piedade. Ela não perdeu tempo e rasgou o verbo - disse que aquilo era uma atitude puramente infantil e que o melhor era eu não pensar mais na pessoa em questão - esquecer, porque além de ser impossível, o mesmo era "ferrenho" e falou dando um ênfase assustador. Eu mordi o lábio superior (desde criança minha mãe dizia que era o sinal pra eu abrir um berreiro sem igual), mordi e rezei pra não chorar. Afinal, o que tinha de mais, eu escrever um poema?! O que tinha demais, eu usar uma fotinha, quase uma 3 x 4 para ilustrar o meu poema?! O que tinha de mais, eu amar??? Neste dia eu percebi a diferença entre quem ama e quem não sabe o que é o amor. Amei no instante em que os meus olhos se deparam com a foto. Uma imagem pequena demais para ver os detalhes do rosto, mas suficientemente grande para me alcançar. Suficientemente forte para tocar o meu coração e nunca mais ser esquecida. E ouvindo tudo o que a amiga me dizia de ruim, eu olhei a fumaça do cigarro e voei com ela pela janela - ganhei o céu enegrecido por nuvens de chuva e fui buscar aconchego no amor. Voei por dias, que se tornaram semanas, meses e anos. Durante este voo, muitas e muitas vezes eu senti a necessidade de ver o amor, de olhar a fotografia (aquela e outras que surgiam aleatoriamente). Muitas vezes eu ficava triste com o que eu via e chorei muitas vezes - a lágrimas eram amargas e doloridas aos olhos. O Tempo inexorável continuava com a sua mão lapidando aqui e ali, ate que um dia, o amor me viu ou a minha poesia - o meu "Cântico dos Cânticos" chamou sua atenção - foi êxtase! Mas, os dias se passaram e tudo continuou como antes e eu voltei a voar e escrever poesia nas nuvens, isso porque me era mais ameno que chorar o amor que não podia ter. Voando não vi o dias passando por mim e se tornando anos ( 8 anos). Todas as estações novamente passaram por mim - primavera, verão, outono e inverno e as fases da lua - ah, a lua! A magia da lua em seu Plenilúnio fez com que ele, o meu amor sentisse a minha presença. Estou feliz - êxtase! Poder enfim, conversar e conhecer mais a pessoa maravilhosa que todos os dias vem me trazer alegria, é bom demais! Eu não quero pensar no amanhã (ele pode nunca chegar), mas o agora será eterno em mim. Não há mais como eu dizer que não estou apaixonada, eu estaria sendo hipócrita e onde a felicidade está, não há um só momento para dúvidas e incertezas. E você, de noite é o meu feitiço do amor...
O acaso não existe, isso sabemos, então foi a magia da lua...O Plenilúnio! E eu te amo, fazer o quê?
para Odur
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