sábado, 16 de abril de 2016

A PRIMEIRA VOCÊ NUNCA ESQUECE



A Primeira Você Nunca Esquece

"Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto". Kafka


Acendo a luz (argh!), lá esta ela dentro da caixa de papelão! Com seus olhos compostos – nada mais nada menos que 2000 lentes, enquanto nossos olhos humanos, apenas duas! Percebo que ela me olha, antenada e lustrosa limpando das patas dianteiras os farelos da última refeição – migalhas do meu biscoito favorito. Imediatamente penso: “Devia ter levado o lixo para fora!”, mas de onde surgiu este representante pré-histórico blindado – Elo Pedido?! Não sei o que fazer, ela continua quieta apenas olhando, talvez até sorrindo com sua boca sem dentes, mas capaz de 'mastigar' tudo que encontra e que tenha cheiro de comida. Movo meus braços e ela se move! Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...
Volto!Ela se move! Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii...Talvez essa barata tenha assistido algum filme de Bang-Bang dos anos 70 - do tipo: O Biscoito Furado, Uma Barata Chamada Cavalo, Doze Baratas e Um Destino porque eu me senti diante do inimigo, pronta para um duelo ao por do sol: Calamity Lucy and the Cockroach! Cadê minha “Doze”?! Tem que ser uma “doze” e de cano serrado. O tiro tem que ser fatal! Matar elefante no Kenya é moleza, agora mata uma barata, mata! Numa única chinelada não tem quem acerte! Parece que a maldita usa Óxido Nitroso e tem tantos cavalos-motor que nem o Alonso pode alcançá-la quando resolve sair em disparada vindo sempre ao encontro dos nossos pés... Quem já sentiu os pezinhos cabeludos de uma barata subindo pelas pernas?! É igual Du Loren – você nunca esquece!! Resolvi sorrir para ela, já que não podia fazer mímica nem sinais de fumaça – “Mim Pokahontas, você Barata, amiga?!” Não deu resultado! Melhor incorporar The Flash e tampar a caixa... Foi o que eu fiz e gastei um rolo de fita crepe [larga] para isolar qualquer saída. Ela que se FD! Coloquei a caixa na lixeira, esfreguei as mãos e sorri...




TEREZINHA CAI CAI



Terezinha Cai Cai

Tudo era só calmaria no bairro Ibirapuera, até que ela veio morar com a irmã, casada com um jogador de futebol do Atlético Clube de Paranavaí, que moravam em frente à minha casa. Pronto, acabou a monotonia das tardes modorrentas da minha infância. Ela era diferente das mulheres que eu conhecia, tinha um "sei lá o quê"  - , que deixava a mulherada com inveja ou ciúmes, e os homens, ah, estes ficavam babando e com aquela cara de peixe morto fingindo nem saber que ela trocava de roupa com a janela aberta. Até a minha mãe, que era um poço de ciúme, rezou um sermão pro meu pai, embora até onde se saiba, ele não saia da linha, mas a minha mãe fez uma pequena observação: "Pode estar chovendo canivete, mas se a Terezinha estiver na rua, deixa que se molhe, entendeu ou quer que eu desenhe?!" -,  e meu pai nem piscava os olhos verdes e nunca mais ficou de bobeira no jardim de casa, pra não correr o risco de ficar sem os mesmos! E eu, só olhando e percebendo que ela, Terezinha,  era diferente, isso ela era. Até dona Lair, do professor Laércio, ficou anuviada depois que Terezinha veio morar no bairro, e, olha que dona Lair era  lindona. Hoje eu sei qual a diferença entre as duas.Dona Lair era o tipo de mulher clássica, bonita, elegante, olhos verdes, sempre vestida com discrição, mas a Terezinha - ah, essa era diferente. Tinha uma cintura fina  marcada por um cinto e uma 'bundona' gigante salientada pelo vestido sempre justo. Seu Gonçalo era o cunhado, jogador do Atlético e toda vez que ele saia de casa para ir ao clube treinar, Terezinha se arrumava toda - horas a fio pra lá e pra cá na frente da janela mudando de roupa até acertar na escolha. Quando, enfim, decidia pela cor e modelo, ela partia pra maquiagem - quilos de pó de arroz e um batom vermelho pra combinar com as unhas, depois era um sapato de salto alto e uma bolsa. Ah, ia me esquecendo do cabelo -, era sempre um penteado desfiado, avolumando no alto da cabeça e uma franja jogada para o lado e tudo coberto de laquê. Ela dava uma última olhada no espelho, depois pegava a bolsa e ganhava a rua - na época, a então Avenida Rio Grande do Norte não era asfaltada. Era um areião lascado no sentido da casa dela, e o um barranco cheiro de mato entre as duas pistas, mas isso não era empecilho pra Terezinha. Ela saia pisando leve, só com a ponta dos pés pra não afundar no areião e fazia questão de passar bem na frente da serralheria do seo Luiz Casado, fazendo a alegria dos empregados que só faltavam saltar a bulica dos olhos e ela nada, nem olhava pro lado.
Na quadra seguinte, já sem o problema da areia solta, ela podia caminhar com segurança, o que facilitava o rebolado da bundona gigante. Ia toda faceira, passava pela frente da loja de peças Auto Motor e a mesma coisa acontecia - era só 'fiu fiu' que se ouvia e ela nada, nem olhava pro lado. Andava mais duas quadras e passava pelo ponto de Taxi e toma 'fiu fiu'. Então ela deixava a Avenida Paraná e seguia pela Manoel Ribas esquina com a Souza Naves, onde tinha um bar, cujo nome, eu não me lembro, mas que na época era o reduto dos fazendeiros da cidade e região para acertar a venda de bois. Um pouco antes, ela dava uma paradinha, abria a bolsa e pegava um espelhinho de mão, dava uma olhada básica, retocava o baton e aplicava umas gostas a mais do perfume Classic Charisma -, segundo ela, sua marca registrada. Com tudo pronto,  ela saia rebolando e com a cara mais seria deste mundo  chegava em  frente ao bar e era acometida por uma tontura repentina, cambaleava procurando apoio e finalmente caia na calçada. A homaiada de plantão, já com os ânimos elevados pelas cervejas, saia em disparada pra socorrer a bunduda e era só mãozada pra lá e pra e ela nada de acordar do desmaio. Descaradamente ela abria as pernas e ficava toda mole e toma mãozada nas coxas e tudo era feito na maior discrição, afinal estavam acudindo uma 'senhorita' já um pouco passada na idade, mas ainda uma senhorita indefesa. O dono do bar, que já sabia das coisas, mandava trazer a moça pra dentro do estabelecimento e trazia uma garrafa de vinagre pra passar nos pulsos e fazê-la cheirar - era um santo remédio, ela acordava na hora. Nesse momento, um dos socorristas se oferecia para leva-la até a sua casa, coisa que ela recusava dizendo já estar bem, mas diante da insistência , acabava aceitando e saia do bar amparada, entrando no carro do 'escolhido' que  desaparecia avenida abaixo deixando os outros com cara de tacho. Horas mais tarde, quase na boca da noite, um carro parava na esquina antes da casa do seo Gonçalo e Terezinha descia bem faceirinha e pisando mole, atravessava o areião indo pra casa. Foi assim por uns dois anos até que o passe do seo Gonçalo foi vendido para outro time e tiveram que mudar de cidade. Muito ainda se falou de Terezinha Cai Cai...



quinta-feira, 14 de abril de 2016

A CASINHA É MINHA!



A Casinha é Minha!
 

Era sempre assim que tudo terminava: "A casinha é minha!"-, e o pau comia. Isso nas tardes quentes de 1967 em Paranavaí, eu, Bete, Roseli, Lurdinha, Rosane e Nanai brincávamos de 'casinha' no quintal da minha casa. Nós estudávamos no Grupo Escolar Três Marias num horário muito favorável, das 11h às 14 h, portanto, o fervo começava assim que o uniforme era trocado por um shortinho, uma camiseta e um tênis Conga com biqueira de borracha branca. Eu sempre usava camiseta com estampa de um dos anões da Branca de Neve e o tênis era sempre vermelho.O quintal da minha casa mais parecia o Sitio do Pica Pau Amarelo, tinha muitas árvores - goiabeiras, cajueiro, mangueiras e a mais importante de todas - o abacateiro! E isso sem falar nas flores que a minha irmã plantava em todo lugar, até mesmo na horta que Suzana teimava em manter organizada e protegida dos meus cachorros , galinhas, patos, coelhos, porquinhos da índia e de um ou noutro leitãozinho rejeitado pela mãe e trazido para mim, lá da fazenda e tratado na mamadeira, pra depois eu fazer o maior berreiro quando o meu pai resolvia leva-lo de volta. Aquilo era o paraíso para as nossas aventuras. Mas o que nós mais gostávamos, era de juntar as panelinhas e fazer comidinha usando as verduras da horta. Tudo corria as mil maravilhas, até que por qualquer razão ainda desconhecida, eu armava uma briga, sempre com a Roseli. Era sagrado - todo dia pra finalizar a coisa, eu encrencava com ela. Como a 'casinha' era no meu quintal, é claro que eu tinha que ser a 'mamãe', senão, eu não brincava e pronto. Elas já sabendo da regra, aceitavam. Nós tínhamos a mesma idade, variando apenas no tamanho e eu era a mais alta e isso sempre fez a diferença. Pois bem, lá pelas tantas, eu já de saco cheio da brincadeira de comidinhas e bonecas, armava de colocar a filhas de castigo e a Roseli sempre reclamava. Era a deixa que eu precisava pra ir até o pessegueiro, quebrar um galho fino e mandar ver nas pernas dela. Era só grito e choro e a mãe dela aparecia na janela e gritava chamando pelos filhos: Roseli, Rosane e Roberto, já pra casa! A irmã e o irmão dela, eram menores e portanto brincavam em outro quintal com as crianças menores, irmãos da Bete e da Márcia - eu era a caçula na minha família. Bom, a brincadeira acabava sempre do mesmo jeito - Roseli indo pra casa passando pelo vão da cerca de balaústres, com a boca aberta chorando e com as pernas marcadas pelas varadas. Márcia, Lurdinha, Nanai e a Bete saiam de fininho já sabendo que a minha mãe ia pedir pra Suzana ou pra minha irmã, trazer a cinta, porque na cabeça dela, eu tinha que levar uma surra também - isso pra ela não ficar mal com a vizinha. E o pau comia solto até o dia que eu descobri que era melhor eu fugir antes da minha mãe chamar a Suzana ou a minha irmã. Dito e feito - subi no abacateiro feito um gato e lá de cima, só olhando as coisas. Minha mãe ficou furiosa. Tentou me fazer descer sob ameaças e eu nadica de nada, só olhando. Então, ela mandou a Suzana trazer um bambu que era usado pra levantar o varal e tentou me cutucar pra eu descer. Nada feito, eu subi mais alto e como ela era baixinha, não pode fazer nada. Mas o destino estava contra, pois na brincadeira, eu tinha tinha tirado o tênis pra não sujar o tapete da casinha e na fuga, não deu tempo pra calçar, portanto eu estava descalça me equilibrando nos galhos mais altos do abacateiro. Minha mãe desistiu do bambu, mas não largou a cinta e pra meu desespero e dor nos pés, mandou trazer uma cadeira e sentou, olhou pra cima e falou: Vamos ver quanto tempo você vai aguentar ai em cima, porque eu tenho o resto do dia pra esperar. As minhas amigas, já de banho tomado saíram para os respectivos quintais junto com as mães e ficaram assistindo a minha tortura: se eu descesse ia apanhar e ficando lá em cima, os meus pés estavam doendo. Minha mãe, de boa sentada batendo papo com a mãe da Roseli e da Bete, só esperando - de vez em quando dava uma olhada pra cima pra ver com eu estava. Eu, fingindo que não sentia nada, mudava o pé no galho a cada cinco minutos, mas resisti bravamente até as 18h, quando finalmente o meu pai chegou. Minha mãe relatou o acontecido e meu pai mandou trazer outra cadeira e sentou junto com ela e pra meu desespero, ele mostrou o embrulho que tinha na mão - os meus doces! Putz! Todos os dias ele passava na Confeitaria Suga e trazia bomba de chocolate, papos de anjo e banana kasutera, meus doces prediletos! Eu não acreditei quando ele abriu o pacote e serviu os "meus doces" pra Roseli, Bete e os demais observadores da desgraça alheia, inclusive minha mãe, minha irmã e a Suzana comeram os doces. Depois disso, ele falou: Desce! E eu desci até onde aguentei e ele me pegou no colo e me levou pra dentro de casa - dai, longe de todos eu abri o berreiro porque os pés estavam doendo e eu não tinha os doces.Meu pai rezou um sermão de meia hora, mandou eu tomar banho, o que eu fiz - sentada, por conta da dor nos pézinhos. Depois, fomos até a Confeitaria Suga comer uns mil e quinhentos doces - rsrsrsrsrs - e no outro dia, Roseli apanhou de novo, mas não foi com galho de pessegueiro, mas com uma vara de pesca! E o tempo passou entre brigas e choros, até eu vir embora pra Curitiba e nunca mais vi a Roseli. Com as outras amigas mantenho contato até hoje...


segunda-feira, 11 de abril de 2016

ALICE E O ESPELHO


Alice e o Espelho

"O meu sucesso! A minha glória!" Ah, Alice e os devaneios... Tão aloprada que nem percebe o cigarro queimando entre os dedos - Alice menina, correndo desembestada pelo caminho dos bois no pasto, mais parece um bicho selvagem - abre os braços e corre com o vento - quer voar alto, acima das nuvens, quer subir com uma lufada de vento, mas o vento que traz o  cheiro de bosta das vacas. Alice fecha os olhos e da risadas - ela é feliz em seu estado natural. Mal sabe ela, que o mundo dá voltas e as coisas mudam da noite para o dia. As mãos não seguram o vento e nem a boca sorve toda água da chuva. Um dia, a noite chega mais cedo e a lua fica no céu junto com o sol, então Alice abre a sua caixa de Pandora e deixa que saiam todos os seus segredos, todos os  seus anseios - e assim, olhando  os seus guardados voarem feito borboletas, ela não se dá conta do Tempo. Já não é mais menina, já não pode correr com o vento e nem pegar a cauda do cometa. O Tempo passou e  Alice pariu um filho e não sentiu as dores, as rasgaduras, os suores - só ouviu o choro e alimentou a boca e agasalhou de amor - Alice sorriu olhando o filho. Depois dela cantar cantigas de ninar, a noite não foi embora, encalhou, fez o sol adoecer e cair de cama. A noite era feita de veludo e não cedeu lugar para estrelas e nem a lua apareceu - era só negrume e silêncio. Nem o vento com cheiro de bosta das vacas, nem o canto dos quero-queros, nem os grilos, nem as cigarras - era a solidão, a sua companheira. O cometa passou, Alice olhou o céu na esperança de ver o rabo do cometa e desejou segurá-la bem forte e viajar a imensidão - Halley foi embora e ela não.
Hermeto fez uma música nova, alguém foi à lua mais uma vez, fizeram uma passeata pelas "diretas já", pintaram o bondinho da Rua XV, o saxofonista anônimo toca blues na noite curitibana, Dalton não sai às ruas, Thor coloca poesias em garrafas e joga ao mar - Alice também escreve poesias no espelho do banheiro - passa baton nos lábios, arruma os cabelos vermelhos, limpa dos olhos as lágrimas e ler as poesias - até se perder dentro de um olhar. Alice já não é mais menina e o espelho diz isso enquanto ela insiste em escrever nos próprios lábios, o nome que tem no coração. Alice olha pela janela e o céu está lá, e o sol e a lua estão juntos - é o Tempo preso dentro do Tempo que faz Alice ficar menina e mulher para sempre. 




terça-feira, 22 de março de 2016

CARTA V


Já é noite e eu ainda estou em silêncio. Ainda está chovendo... O céu está prestes a dilui-se e escorrer pelas bocas de lobo em cada esquina perdida nesta imensa avenida que "come" minhas horas. A chuva fria, espanta meus pensamentos. Me deixo na cadência dos raios e na luz riscada que abre o peito do céu e despeja água sobre minha tristeza.
É uma água salgada. Lágrimas?! Não sei! Talvez possam ser lágrimas. Estou voltando para casa, voltando para "casa"... 
Andar na chuva e sentir a água molhar meu rosto me faz bem... Lava cada pensamento melhora a condição humana 
e me faz mais leve em meus pensamentos e reflexões.
... A chuva é tão fria e tão doce...



Boa Noite, Odur




Boa noite, Odur

A cidade adormecida não sabe das conquistas e nem faz parte do rol das pessoas felizes. No exercício do meu livre arbítrio e imbuida de uma felicidade repentina, eu me esqueço das horas e mesmo de pijama e descalça eu vou pro quintal olhar a lua. A certeza absoluta da cumplicidade lunar é interrompida pela garoa fininha e gelada que cai do céu e chega ao meu rosto feito carícia. Os meus pés descalços e a grama recém cortada... me esqueço de tudo e me ponho a dançar. Não estou preocupada com convenções e, sim, com a inspiração da minha alma e a diretriz que ela me aponta e a promessa de uma jovialidade que nos mantém, assim, tão juntos e tão simples em nossas descobertas. Ah, cidade, durma em paz as suas línguas maldosas, as suas
preocupações infundadas, os seus ciúmes absurdos, o seu senso inferior, durma as suas neuroses, os seus medos e a dissociação de seus parcos momentos do que é a felicidade. Durma! Durma enquanto eu continuo aqui, dançando ao som imaginário de The Köln Concert e absolvida de qualquer sentimento de culpa por estar tão feliz assim.

Amo você, boa noite, Odur




quinta-feira, 17 de março de 2016

DESENCONTRO



DESENCONTRO
Esta noite minh'alma dormiu fora de mim 
e eu senti quando ela saiu,
 porque a noite e o vento 
tornaram-se mais intensos. 
Ninguém veio, ninguém fez meia volta, 
ninguém olhou os meus olhos, assim, 
como ninguém ouviu meu choro - só o espelho estava lá, aonde moram os duendes e as fadas. 
Eu estava sozinha e senti medo - por isso procurei sua mão
e tudo que eu queria
era o seu peito, onde eu pudesse esconder o rosto
e ficar em silêncio, junto ao seu coração
Mas todas as minhas palavras
encontraram o próprio reflexo
em tantos cacos de espelho
caídos pelo chão