domingo, 4 de novembro de 2018

TECENDO PALAVRAS




E me chama de irmã - a poesia
e me faz diversa entre as mulheres
e quando chega aos meus pés
a réplica dos seus passos
eu me faço estrela - inefável aos seus olhos
por detrás das cortinas - entre o cárneo das paixões
e o rumor do seu coração na caixa sonora do tempo...

[Alfazemas são queimadas sob o sol
e a deidade senta-se ao meu lado
(permanecemos primavera por todas as estações)
e mais do que nunca
o perfume das alfazemas incensou-se
permitindo-me tecer palavras na pele do mundo.]

... e o seu coração de infância e riso
de súbito adormece entre as minhas mãos
absolutamente puro - como uma criança...

[ Nas alturas do mundo
estrelas são acesas e
as caravelas navegam o infinto mar
do meu coração]


Luciah Lopez


imagem: Lucia Joyce

O AMOR



Tantos momentos onde a dor é a única companhia e a introspecção me faz perceber o quanto somos confusos diante do Amor. Diversas situações clamam por uma resposta imediata, contudo, a objetividade é dissipada mediante palavras escritas ou mesmo pronunciadas. Tanto espero em função de vivências, que se criou um triângulo inexato, que me leva a buscar um canal por onde possam fluir as respostas para o que eu não entendo, porém vivencio. Uma certa impaciência se faz presente, mas o amor privado da consciência reflexiva me mantém onde sempre estive e estarei. Valorizando o sentimento, eu  priorizo o que foi estabelecido mesmo antes da certeza do amanhã. Assim é o Amor: um elogio íntimo que nos mantém reféns um do outro sem que nada se altere.





imagem: EViriato



sexta-feira, 5 de outubro de 2018

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

EXISTÊNCIAS




É dele a voz que me acalmou 
me resgatando de mundos que transfixam corpo e alma
na indulgência do amor distanciado.
É dele a presença iluminada 
brancazulada que tira longe os despojos e as dores
que ferem os meus pés na impiedosa travessia dos séculos.
É dele a boca que me deu o beijo
sal da vida nas primeiras horas da minha existência.
É dele a mão que me ampara e cura as minhas feridas
embriagadas de desejo nas profundas do meu ser mulher.
É dele a certeza do amor porque eu me despi diante dos seus olhos
e caminhei nua no seu coração 
e sou eu quem bebe o gole de absinto e fel
enquanto os dias saltam do calendário preso em paredes imaginárias.
É dele a pele, os pelos, a verdade, a mentira, a sede, a fome, a febre, a dor
a vértebra desviada, o sangue, a saliva, a urina, a noite e o dia
o sol no riso solto, a lua no olhos inquietos.
É dele o meu amor, a minha veia, o meu sangue, o meu pulso
o meu riso, porque eu chorei e morri a minha morte pra renascer
todos os dias e noites na musica da sua voz.
É dele o meu amor porque não se explica a existência da alma
nem a covardia de não saber amar.




segunda-feira, 17 de setembro de 2018

SOPRO


o tempo parou no instante em que as suas mãos tocaram as minhas coxas
enquanto eu me 'amontava' sobre você tal qual Coco e Stravisnky,
lá fora o mundo caía aos pedaços na modorra da tarde e nós dois, um dentro do outro na completude do ser nos fazíamos criaturas divinas e pelo viés do meu decote meu seio na sua boca alimentava o menino de ontem e o homem de todos os tempos .
sou a cria de todos os seus desejos batizada no seu gozo, apaziguando as minhas entranhas - carne vermelha - alma transparente no reflexo dos seus olhos para sempre presos no meu olhar.


Luciah Lopez

domingo, 9 de setembro de 2018

VÉRTEBRAS


Acordei dentro das suas dores, como parte das suas vértebras, da sua coluna, do seu eixo.  Sou parte da sua medula, do sangue doce que corre pelas suas veias, vasos, artérias, vênulas. A dor dos seus punhos, do seu 'muque',  é nas minhas mãos,  feito o seu cansaço buscando o aconchego das minhas palavras, porque não estamos sós, nunca estivemos e nunca estaremos. Sou parte sua, parte da sua dor, parte do seu êxtase de viver e sonhar a ancestralidade da carne que desaguou dentro de mim e agora navega os meus rios de infinitas corredeiras. Todos os unguentos estão nas minhas mãos, que se perderam na geografia da sua pele entre afagos e suores restituindo a sua paz.

para Odur