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terça-feira, 26 de janeiro de 2021

SINE NOMINE





...e as três feras caminhavam juntas
desenhando os nove círculos
enquanto os mortos atormentados
ajoelham-se diante dos portões...
..a inocência mora aqui?!
_____quero comprar três moedas de prata
e desenhar em cada uma delas
o olho cego que tudo vê.



imagem: Anônimo
Aquarela/lápis de cor /giz sobre papel
Luciah Lopez

 


domingo, 24 de janeiro de 2021

PANTOMIMA

 



absurdo é o riso que não consigo sorrir porque a fome devorou
e eu vim parar aqui na curva de um rio
sonhando dormir acordei e cortei os cabelos

não era hora não era o tempo das portas abertas
no desvão apenas trastes empilhados que as traças devoram

estantes e instantes mordem o meu pensamento
pra me lembrar dos livros e da ferida e das pontes e das praças
das pedras que eu juntei e coloquei no meu prato

não era hora não era o tempo das portas abertas
pras varandas e portões e ruas enlameadas a solícita companhia

caminhantes de outras eras como gatos famintos de agrados
lada à lado se esfacelam e riem um riso azedo de outridade
e se constroem e se costuram como mulambos esfarrapados

não era hora não era o tempo das portas abertas
porque ousei sonhar um poema possível nos muros
nos telhados nas aldeias nas ruas nas montanhas nas cidades
nos becos nas vielas nos canaviais na pele na carne viva na alma imortal
não era hora não era tempo
não era hora não era
não era hora não
não era hora
não era
não


PERJÚRIO

 


é meu corpo que flutua

são minhas asas insanas

é minha boca morrendo na sua

é eterno perjúrio

é dor que não arrefece

não viaja no escaler da saudade

não se cala, não adormece.

é o inverno tardio

na minha pele de primavera

são as horas suicidas

as mãos vazias

é a noite tecendo filigranas

enfeitando a orla dos meus olhos

consentindo o amor

no meu peito de ternura

e embriaguez.



sábado, 19 de dezembro de 2020

POESIA DE AMOR


 


...O vento me fala do tempo futuro

das cores de um por do sol

das gotas de tinta escorridas numa tela que só eu sei pintar.

O vento afaga os meus cabelos vermelhos

tintos do suor das uvas que insistem em amadurecer agora

quando as portas da catedral ainda não se abriram...

O vento traz um perfume que eu não conheço

um perfume diferente do sândalo e da erva doce

com os quais lavei as minhas palavras

deixando-as secar sol para depois escrever as rima dos versos

que brotam como gemas preciosas...

Sopra vento... Traga-me o pó dos pergaminhos

o sangue da terra

o breu e a magenta florescida no coração que pulsa

no grito daquelas que controlam as horas em rocas de madrepérola...

Traga-me o futuro e o passado engastado num anel de tempo

pedra de fogo

luz dos meus olhos perdida nos seus olhos...

Antítese de um sonho preso num relicário.

Silencio!

O tempo agora dorme

enrodilhado feito um gato, no desvão de um olhar que não se abriu.


imagem: Amor Perfeito

Aquarela sobre papel Canson

Luciah Lopez


segunda-feira, 15 de abril de 2019

PRESSÁGIOS


Risos transbordam e  os pés estão cansados
devo chegar mais tarde
não me espere na lua de outono
antes____ vou fumar um cigarro
   Me espere na sua primavera


segunda-feira, 5 de novembro de 2018

FRIDA KAHLO



Na bacia de louça
se despe das cores ((aquarelas)) azedas
escorrem das tetas
em ca_chos de cachoeiras.
Se olha no espelho!
O que é, não está nas curvas 
nem no buço_____________olhos belos
sabem do azul 
que recobre as paredes do coração
e no sombreado da rua
o beijo que beija a própria boca.



imagem: Luciah Lopez 
aquarela sobre papel canson

sábado, 25 de agosto de 2018

MIGRAÇÕES





o dia começa
meu pai está aqui
a vida e a morte andam juntas
feito a ferida e a casca
 a repulsa e o nojo são os cavalos dessa loucura.
cavalgando a poesia na pressa do existir
me acostumei ao suor e ao fel 
como as anêmonas e os peixes à solidão abissal.
vejo o meu sangue no espelho quebrado
 e os meus ancestrais gritam 
em cada glóbulo e em cada hemácia recém nascida
 um pouco da tortura dos corvos na carne abjeta.
sei que não sou de lugar algum
a raiz e nem a flor
assim como a abelha que faz veneno e mel
sabe a razão do seu breve existir
ou mesmo conta os dias em cada pôr do sol
ou a sanha do tubarão entorpecido
é tormento praquele que será o seu alimento.
jamais voltarei a olhar àqueles olhos de adeus
porque cada um sabe a urgência dos seus passos 
os caminhos de ditadura eterna são o interior da serpente
ossos vísceras e vértebras 
regem a peçonha na malemolência da língua.
meu pai está aqui
segura a minha mão e
me conduz pela sala
pelos quartos
sobre os livros empoeirados e mofos
pelas engrenagens do velho relógio
pelos quadros antigos 
pelo quintal e jardim.
entre espinhos sombras e a escuridão das palavras rotas
todos os meus medos uivaram
desatrelando a velha canga 
livramento do espinhaço sob o peso das asas molhadas.
é quase noite na inércia dos pensamentos
meu pai segue ao meu lado
é preciso catalogar as misérias 
cortar do corpo os brotos e figos podres
olhos de peixe e calosidades
e indagar pelos cachorros perdidos e sem nomes
dar-lhes nomes e água para beber.
quem sabe isso os faça voltar a um estado de felicidade
quando as chuvas retornarem molhando a boca da terra.
gatos e cachorros bodes e cabras
homens e meninos sem nome caminham lado a lado.
em sua cegueira são como aves migratórias
que perderam a rota voando em círculos
tudo passa por mim como miragens.
ilusórias são as horas os dias os meses os anos
a resposta é dissolvida e desaparece na memória
eu não me importaria tanto com a dor
não fossem esses pássaros famintos voando ao redor
com seus olhos de rubi e seus bicos de jade.
meu pai me perguntou: qual o seu nome? 
jamais pude responder
mesmo raspando a minha pele com uma faca
nunca descobri o meu nome
isso dói demais por me sentir como animal selvagem
acuado
farejando no ar a umidade de uma chuva vindoura
anunciada em nuvens escuras.
aquela presença não decodificada
se avoluma em maré sanguínea e engole a lua e o sol
e todas as notas daquela canção
fazem silêncio agora e o céu escuro 
é denso útero de precárias tiranias
meu pai solta a minha mão
e eu experimento violenta e ofensiva tristeza
de estar só.
tive mil vidas.
terei mil vidas.
e a substância adocicada que escorre dos meus poros
é o avesso de cada lágrima que não chorei.

L.Lopez

.
imagem: Odd Nerdrun

segunda-feira, 2 de julho de 2018

NA TUA PELE / UM POEMA VIVO


Quero um poema vivo.

Quero letras/línguas
lambendo a pasmaceira do meio dia/hora inteira
na memória variante
que resguarda a tua ausência.
Quero devorar a contemplação da tua imagem
eterna – gravada em mim – partícula que me navega
onde quer que eu vá...
Sabor da tua saudade [quero] no eco das tuas risadas
e nas palavras entre[cor]tadas
no teu silêncio/boca/fome de mim
tua fome em mim [quero] sempre assim.
Entre a perfídia e a sombra que assombra
quero mais de você
mais muito mais que um simples e solene beijo.
Quero os teus sonhos, as  tuas verdades, as tuas risadas, os teus voos, as tuas dores, os teus suores, as tuas cicatrizes - as tuas incertezas.
E da tua pureza, quero a pressa com que me acalmas
Quero a lascívia do teu corpo
No fôlego da tarde [catando prazeres]
Nos deslizes da minha língua na tua orelha...
quero amar o teu amor menino
entre as paredes nuas
e o chão riscado que esconde os olhos
porque eu te amo.

Voo nos teus braços/voo de pássaro aprendiz...

...buscando pouso nas tuas mãos (...)
Eu quero amar um poema vivo
Quero o poema na tua pele
Sou o poema que
eu escrevi...


para Odur LAM

quinta-feira, 31 de maio de 2018

ÚLTIMO POEMA DE MAIO



Quando a noite deita seu véu sobre a terra
meu coração se cala.

Mi'alma se cala, emudece e eu penso: porquê o meu amado não está ao meu lado, se o amor se faz presente em nós?
Tristeza maior não existe, que a ausência dos beijos teus
mesmo sentindo o teu amor a me envolver nas horas da tarde em suspiros e doces ais, meu coração clama, meu corpo reclama, mi'alma padece...

...ah, meu amor adorado, meu anjo de luz resplandescente, tua imagem, dos meus olhos não desvanece, e as tuas águas de flores brancas em cachoeiras amenizam a saudade da tua essência.

Último dia de maio...

Três estações se passaram e o meu amor e seu, seguem juntos. Fomos um no outro ungidos com óleo e bálsamo e as nossas silhuetas ficaram impressas no linho branco que recobre o Tempo.

Faz o caminho da nossa saudade, e lê estes versos suplica mi'alma
repousada em dor silente_____sempre a tua espera
pois o amor é dádiva da vida e não da morte.

Ultimo dia de maio e o teu ciclo se fecha dentro do meu. 


Para LAM




imagem Faisal Iskandar


terça-feira, 29 de maio de 2018

CÂNTICO DO PURO AMOR


CÂNTICO DO PURO AMOR

Caminhei sobre as folhas secas de outono, tingidas de sangue e ouro. Minhas vestes, em trapos se tornaram expondo a nudez da pele, os meus cabelos desgrenhados, as minhas mãos crispadas faziam sangrar o relicário acordando a sua imagem. Eu era a dor. Eu era a consistência da dor. Nem mesmo as aves noturnas, fugitivas do umbral e presas em teias pegajosas, eram minhas companheiras. Era a dor. A mais angustiante dor desfazendo os sonhos e a vontade de viver. A salmoura corria nas minhas veias e a planura dos meus ossos doía-me na urgência da lava fervente. Não havia horizonte aos meus olhos, porque não estava o meu amor ao meu lado. O negrume dessa noite recai sobre o coração dos homens, reparte amor, em tristeza e solidão. Há quem pense serem fantasmas, que, acorrentados à consciência da carne maldizem o amor, transformando açúcar em sal, ouro em pedras sem valor. Alimentam o monstro que os consome diuturnamente e reinventam um céu sem estrelas...

Era o sexcentésimo septuagésimo sexto dia!
O meu olhar finalmente encontrou o espelho dos seus olhos
Morri e perdi a conta de quantas vezes renasci
Menina
Mulher
Sacerdotisa do seu amor
Amante do seu corpo
Mulher
Menina
Nos seus sonhos.
Naquele momento
Na ansiedade suarenta das mãos
Que se reconhecem ao primeiro toque
Não existe passado
Não existe futuro
Existe a procura
A sede
O sonho
A vida
O amor
A fome
O desejo
E o beijo se derrama liquefeito
De afogamentos em ondas convulsivas
Em nossos lábios náufragos.


... um céu sem estrelas é manto de veludo jogados aos pés da santa, é mortalha do Sagrado Coração pendurado na parede que acende o medo nos seus olhos de menino...

Era o meio do dia!
“Dê-me as suas as suas mãos
As minhas são suas”
Passos e caminhos
Pedras gastas
Calor
Ruas
Carros
Praças
Casas
Portas
Escadas
Porta
O mundo girando a sua presença
Feito um anjo em carrossel
O meu paraíso
O meu pecado
O dorso
O reverso
O côncavo
A fonte
A dádiva
A fêmea
O Macho
Alfa e Omega
A pedra
O sacrifício
A dor
O prazer
A vida
O amor

... nas águas de um rio batizei os meus pés-, deixei para trás todas as mulheres que eu fui, todas as mágoas, todas as lágrimas e renasci criatura ante o criador. Recitei um salmo, colhi uma flor, comi uma fruta, beijei suas mãos, afaguei seus cabelos, respirei o seu sono, me aqueci no seu corpo adormeci em você pra nunca mais acordar em mim...

“Será que isso é amor? Um puro amor, uma quase maré?”

... uma praça, uma igreja, poesia de boca em boca ____ sua boca e a minha seu olhar e o meu____um pedaço de pão, um gole de café, sua risada e um beijo gelado de sorvete. Uma foto na janela, uma cerveja outro beijo, uma subida e uma descida, um cigarro e um descanso, seus pés descalços, seu corpo nu, cicatrizes, maciez, ternura, sua boca, seus dedos, um papel, um livro, uma foto. Uma janela de vidro, um rio e suas lembranças... uma libélula pousa na minha mão____ isso é amor sem ter começo e nem fim. Somos dois, somos um e o tempo brincando ao redor daquele menino...

Só um menino...
Só um menino/amor





para LAM



sábado, 15 de julho de 2017

ENTRE VERSOS


____ o que será de mim, será ENTRE VERSOS?!
Serei a carne e a rima
os ossos e a plástica do poema
a textura de cada página
o desenho 
o símbolo
a letra que minh'alma desenha
em forma de versos
re_versos o que será de mim
por ser eu____ um verso?!



foto: LL



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

CONFESSO-TE!


Confesso-te!
______esta que vive em mim
ama e sofre e chora
morde os lábios e esfrega os olhos.
Esta que sou___se revela para pouca gente
(( incoerência?! ))
mas o verso sem rima
tenta unir o que nos separa ___o tempo sem pressa
ladeira a baixo até a flor de carne
retalho d'alma que nas veias pulsa
Ah, como eu quero teu amor assim bem louco
e este teu viver que me rodeia
em penas de arcanjo...

para Odur


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

CONSTEL_AÇÃO



CONSTEL-AÇÃO

Caminhando lado a lado
de mãos limpas e alma lavada
lá vão elas___ com suas toucas de orelhas de gato
((pussy hats))
arranhando com palavras/garras
defendendo seu espaço,
fugindo do laço
e do mormaço
____exigindo seus direitos de brilhar feito estrelas
da grande constelação _ Mulher!



sexta-feira, 22 de abril de 2016

IMORTAL


Imortal


Não haverá noite, nem amanhãs...

Somente o ser
pisando no barro e
cuspindo no sonho que lhe sobe pelas encostas,
conduzindo estrelas e as dores curtidas
nesta argamassa que lhe reveste os ossos.

A boca que segreda esquinas
lambe
as feridas cruas,
e agora – um silencio de pedra
no assoalho das catacumbas...

O medo
onde a lua veleja na lembrança e
surge solitária e densa
por detrás das araucárias – gênese sob a cruz!

E o calvário do olhar pentassílabo 
padece 
enquanto navego este céu viandante da noitidão da alma 
que me fecha as asas
calando os malefícios e soluços
dos nobres.

Recitando o Salmo e incorporando
o renascer do mundo
caminho descalça pelo átrio
desta quimérica Babilônia.


foto: Lu Genovez


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

QUERERES




Quereres

Das tuas palavras __________o eco é comigo
a vestimenta e a pele
o verniz e o lustro
quinquênio e horas passadas.

Dos teus gestos, 
a realidade e a pergunta
a decência e a dormência _____e a raiz de um verso
que não encontra rimas...

Da tua ausência_____ a sombra é a esquina
o travo na boca, 
e a rosa no chão 
e o espinho, 
que na mão, faz sangrar.

Dos teus passos 
o rastro e a dessemelhança do adeus.

foto: LL