segunda-feira, 17 de setembro de 2018

SOPRO


o tempo parou no instante em que as suas mãos tocaram as minhas coxas
enquanto eu me 'amontava' sobre você tal qual Coco e Stravisnky,
lá fora o mundo caía aos pedaços na modorra da tarde e nós dois, um dentro do outro na completude do ser nos fazíamos criaturas divinas e pelo viés do meu decote meu seio na sua boca alimentava o menino de ontem e o homem de todos os tempos .
sou a cria de todos os seus desejos batizada no seu gozo, apaziguando as minhas entranhas - carne vermelha - alma transparente no reflexo dos seus olhos para sempre presos no meu olhar.


Luciah Lopez

domingo, 9 de setembro de 2018

VÉRTEBRAS


Acordei dentro das suas dores, como parte das suas vértebras, da sua coluna, do seu eixo.  Sou parte da sua medula, do sangue doce que corre pelas suas veias, vasos, artérias, vênulas. A dor dos seus punhos, do seu 'muque',  é nas minhas mãos,  feito o seu cansaço buscando o aconchego das minhas palavras, porque não estamos sós, nunca estivemos e nunca estaremos. Sou parte sua, parte da sua dor, parte do seu êxtase de viver e sonhar a ancestralidade da carne que desaguou dentro de mim e agora navega os meus rios de infinitas corredeiras. Todos os unguentos estão nas minhas mãos, que se perderam na geografia da sua pele entre afagos e suores restituindo a sua paz.

para Odur

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

VELHOS PRESSÁGIOS






No sopro do vento em cada grão de areia uma solidão agreste 
desemboca na foz do coração. No lombo ardido a sangria chove a solicitude das notas azuis de um antigo blues.Pés descalços entre passos, longa demora na dança delírio na porta agora fechada. No leito de um semi-deus, arreios caindo imensos vazios anseios de mulheres apupos e aplausos. Pé ante pé meu olhar se detêm nas voadoras palavras que acompanham o teu nome. Incoerência é soluçar agora. Recostada nos muros da memória desfaleço. Ainda um impulso de beijar tua boca distraída bêbada e definitivamente minha. A mim não importam os sonho. Vagabundos sonhos soltos no vácuo pálido das parede sou escondidos no muro dos quintais . São como os dentes-de-leão que sopro ao vento, repetidamente sopro ao vento. Matizes febris na ligadura das duas luas a sua e a minha. Salientando esta distancia de sombras e escombros e raízes expostas e brocadas, ouço uma música inacabada e tropeço um gesto convexo procurando teu corpo na fúria brejeira que me toma e escorre por minhas pernas no momento exato que o meu sol explode em tuas mãos deixando-me nua diante do menino que existe em você.





imagem: Tomaz Alen Kopera


PENSAMENTO HORIZONTAL



o vento anda cansado de tanto correr mundo não há mais bocas vazias onde o eco faz morada a inquietação ri enquanto unhas são roídas e o rosbife é tostado em fogo baixo janelas se abrem sobre o pensamento horizontal e as palavras satisfeitas em vestidos de noiva antecedem o enlace/desenlace valesse a lembrança do que foi dito o olhar se perderia num buraco negro e a fumaça de mais um cigarro não seria nada a não ser a desfaçatez da corrente e dos ponteiros marcando a hora e o tempo entre a ferrugem e o anoitecer



quarta-feira, 29 de agosto de 2018

O PRIMEIRO VOO


Tantos passos eu tive que dar e resplandecer na distância até chegar à mim mesma e me descobrir revolucionária em busca da felicidade. Vieram os anos e a permanência daquele milésimo de segundo, entre um click e um piscar de olhos mudou a minha história. A minha existência desprendeu-se de mim e os sentimentos confessaram o meu segredo em PLENILÚNIO -, me senti aliviada. Enquanto eu vivia os meus sonhos, a vida elaborava as minhas asas para o momento exato do meu primeiro voo. Era certa a maneira do voo e da paixão legendária emplastrando de amor todo aquele espetáculo entre as colunas de águas coloridas e as calçadas estreitas em meio às tardes suarentas . Eu sempre quis estar naquele lugar, desde sempre o meu olhar se fixava nas pedras que pareciam boiar nas águas do rio ou acompanhando o singular voo dos pássaros por sobre os varais. As religiões me falavam do tempo e dos sinos, como se o espírito daquele homem e o meu fossem, um parte do outro - uma pintura de Gossaert revelando a nudez diante do paraíso. A réplica de todos os amores e a perfeição nostálgica dos corpos se encaixando enquanto a tarde morria lá fora.


para Odur


sábado, 25 de agosto de 2018

MIGRAÇÕES





o dia começa
meu pai está aqui
a vida e a morte andam juntas
feito a ferida e a casca
 a repulsa e o nojo são os cavalos dessa loucura.
cavalgando a poesia na pressa do existir
me acostumei ao suor e ao fel 
como as anêmonas e os peixes à solidão abissal.
vejo o meu sangue no espelho quebrado
 e os meus ancestrais gritam 
em cada glóbulo e em cada hemácia recém nascida
 um pouco da tortura dos corvos na carne abjeta.
sei que não sou de lugar algum
a raiz e nem a flor
assim como a abelha que faz veneno e mel
sabe a razão do seu breve existir
ou mesmo conta os dias em cada pôr do sol
ou a sanha do tubarão entorpecido
é tormento praquele que será o seu alimento.
jamais voltarei a olhar àqueles olhos de adeus
porque cada um sabe a urgência dos seus passos 
os caminhos de ditadura eterna são o interior da serpente
ossos vísceras e vértebras 
regem a peçonha na malemolência da língua.
meu pai está aqui
segura a minha mão e
me conduz pela sala
pelos quartos
sobre os livros empoeirados e mofos
pelas engrenagens do velho relógio
pelos quadros antigos 
pelo quintal e jardim.
entre espinhos sombras e a escuridão das palavras rotas
todos os meus medos uivaram
desatrelando a velha canga 
livramento do espinhaço sob o peso das asas molhadas.
é quase noite na inércia dos pensamentos
meu pai segue ao meu lado
é preciso catalogar as misérias 
cortar do corpo os brotos e figos podres
olhos de peixe e calosidades
e indagar pelos cachorros perdidos e sem nomes
dar-lhes nomes e água para beber.
quem sabe isso os faça voltar a um estado de felicidade
quando as chuvas retornarem molhando a boca da terra.
gatos e cachorros bodes e cabras
homens e meninos sem nome caminham lado a lado.
em sua cegueira são como aves migratórias
que perderam a rota voando em círculos
tudo passa por mim como miragens.
ilusórias são as horas os dias os meses os anos
a resposta é dissolvida e desaparece na memória
eu não me importaria tanto com a dor
não fossem esses pássaros famintos voando ao redor
com seus olhos de rubi e seus bicos de jade.
meu pai me perguntou: qual o seu nome? 
jamais pude responder
mesmo raspando a minha pele com uma faca
nunca descobri o meu nome
isso dói demais por me sentir como animal selvagem
acuado
farejando no ar a umidade de uma chuva vindoura
anunciada em nuvens escuras.
aquela presença não decodificada
se avoluma em maré sanguínea e engole a lua e o sol
e todas as notas daquela canção
fazem silêncio agora e o céu escuro 
é denso útero de precárias tiranias
meu pai solta a minha mão
e eu experimento violenta e ofensiva tristeza
de estar só.
tive mil vidas.
terei mil vidas.
e a substância adocicada que escorre dos meus poros
é o avesso de cada lágrima que não chorei.

L.Lopez

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imagem: Odd Nerdrun

BLUE



Amanheceu e os meus olhos rasos ainda acostumados com a noite, se fecham, dando à minha alma, o tempo preciso para que acordem os meus pássaros e despertem as minhas flores iniciando a liturgia da vida. O silêncio é o frio lá fora, mas a poesia pulsa e vibra numa clave de sol dando alento ao coração de todos nós.