sexta-feira, 1 de julho de 2016

VICISSITUDES


 VICISSITUDES

...e a língua lambe as machucaduras da alma e o breu desce das mãos da noite e penetra as feridas que nada mais são, que flores abertas exalando o nectar do gozo de viver e mesmo que agora, eu bebesse da taça onírica e me permitisse a mais louca viagem que mesmo Don Juan já ousou -, mesmo assim eu ainda seria a mesma menina, com o olhar perdido nas esquinas do tempo e os pés calçados com tamanquinhos de solado de madeira. Ainda seria eu _____ali, parada ante a porta do infinito tendo todas as flores aos meus pés.


foto:LL 


quinta-feira, 30 de junho de 2016

JULHO



Julho...
Que tristezas calam os teus incontáveis dias fazendo adormecer os meus olhos banhados no sal e no eco das horas vazias? Noites frias... Aborrecidas e enfadonhas rondam a bestialidade dos meus medos gritando os meus temores sobre a única certeza ainda viva em meu coração - o meu amor por você! Amanheceres... Azul salpicado de cinza ou vice versa nessa aquarela descortinada que traz ao palco da manhã o canto das garças e o grito angústiado do último sonho... Ah, era mais um sonho que o pranto umidece e tinge de azul diante dos meus olhos incrédulos?! Às minhas mãos a tua ausência e ao meu coração a tua essência de amor e vida ainda tem o sabor dos teus beijos de romãnesta boca que não se cala... Tardes gris... Ameaçando o meu olhar de arco - iris a desenhar-te na distância entre uma esquina e a minha vida que em jardins te espera enovelando o sonho e a realidadena risada de uma criança. Julho... O vento frio ainda canta uma cantiga e sopra o fogo na lareira dançando as bailarinas chamas fazendo brilhar cada lágrima caída dos meus olhos ainda sem sonoainda sem alegria ainda olhando a distância entre a esquina e a minha vida. A distância entre o seu coração e o meu...

 foto: "álbum de família"

domingo, 26 de junho de 2016

NONSENSE

Nonsense

Não quero a arte de fingir palavras, desenhar escritas nem colorir os sonhos____não tenho tempo para apontar lápis de cor, então o melhor é derramar a tinta no veio das palavras e deixar que percorra os meus labirintos de Ariadne, desenhando o Minotauro na pele que te reveste concretizando a mancebia do seu corpo e o meu. As horas estão presas em rocas de fiar e a ancetralidade do tempo é refletida no espelho no mesmo instante em que o meu olhar mergulha no seu e uma vez longe de todas as fobias, as rimas saltam da tua boca para as minhas mãos, tal qual peixes voadores navegando no arrebol. 

para Odur



foto: LL



quarta-feira, 22 de junho de 2016

LEMBRANÇAS

Lembranças
Hoje pela manhã, logo que cheguei ao trabalho, tive um mau subito e mesmo recebendo um pronto atendimento, não foi possível controlar o quadro e minha ida ao hospital foi inevitável. Lá chegando, fui imediatamente colocada numa maca no P.S. e minha melhor veia no dorso da mão, serviu de acesso para um cateter calibroso por onde o soro fisiológio e medicamentos rapidamente escoaram, causando um relaxamento imediato. Nesta altura da minha vida, eu já não sinto pavor por estes "instrumentos de tortura" -, sou uma paciente bastante compreensiva e, sem nada a fazer, passei a observar o gotejar solene do líquido translúcido responsável pelo meu bem estar. De repente, muitas imagens vieram à minha mente. Aquele gotejar antes silencioso, agora tinha som. Parecia o bater ritmado de um coração - o meu coração!! Fechei os olhos e procurei desviar o pensamento, mas o som continuava forte- Tum! Tum Tum! Tum! TumTum! Senti a palma das mãos ficando úmidas e frias. Pensei em chamar a enfermeira, mas desisti da ideia porque não tinha o que dizer a ela. Fiquei quieta. Estava muito frio, puxei a manta para cobrir a mão onde estava o cateter e fechei os olhos na esperança de adormecer e quando acordar, tudo estar bem. "Tudo ficou escuro. Tão escuro que era quase impossível respirar e foi quando senti o gosto do sangue pela primeira vez. Senti também a viscosidade quando passei a mão pelo meu rosto tentando limpar os olhos e então eu  senti dor. Tinha um corte profundo no meio da testa e saia muito sangue. Naquela escuridão,  não era possível ver nada à minha volta. Escuro! Um cheiro ruim de mofo, a poeira fina grudando nas minhas mãos, coisas grudentas nos meus cabelos -TEIAS DE ARANHA! Um grito que não saiu -, morreu na garganta junto com o choro sufocado pelo sangue. A mãe era a salvação! Cadê a minha mãe?! - eu não queria ser engolida por aquela boca enorme e fedorenta de mofo e teias de aranha - devia ter milhões delas, com seus olhinhos capazes de ver na escuridão, todas rastejando na minha direção. Não consegui gritar. Senti o calor da urina molhando as minhas pernas. Fui me encolhendo cada vez mais em posição fetal, feito um bichinho rendido diante do pavor. Meu coração batia forte, acelerado Tum Tum Tum TumTum Tum -, minha cabeça doía, meu corpo girava no escuro e na lama de urina e poeira e de repente eu senti o vento soprando meus cabelos e os movimetos do balanço me levando cada vez mais alto e mais alto entre as risadas - eu não estava só. Eu era criança, estava num balanço, mas não estava só. Eu podia sentir as pequenas mãos tocando nas minhas costas me empurrando cada vez mais alto e nós riamos muito e o sol nos meu olhos, me obrigava a fechá-los. Então o balanço foi diminuindo e diminuindo até parar e eu abro os olhos e vejo as mãos estendidas: "Dê-me as suas mãos, as minhas são suas. Vem! Vamos correr!' -, segurei aquela mão e sai correndo". Então eu ouço: _Me dá mão, vem! Me dá a mão! E alguém segura com força a minha mão, mais precisamente o meu braço e me puxa violentamente me trazendo à luz do dia. Fui levada às pressas para o Hospital São Lucas. Minha mãe aos prantos tentava me limpar daquela massa de sangue, poeira, teia de aranha e urina enquanto eu -, eu só olhava o mundo e sentia o vento e o balanço pra lá e pra cá. Depois de muito choro, levei 6 pontos na testa, tomei uma injeção e voltei pra casa com um curativo enorme e nunca mais eu vi o meu dom Pixote com a bengala e a cartola. Nunca mais passei perto daquela portinhola que fechava a entrada embaixo da casa e onde eu tinha entrado para recuperar um brinquedo e ao sair, fui surpreendida pela porta que se soltou me acertando em cheio no rosto, se fechando a seguir, me mantendo presa no escuro por hum milhão de anos luz até ser enocntrada pela minha mãe e nosso vizinho, que me tirou de lá em choque. Anos depois, quando demoliram a casa de madeira, finalmente eu pude rever o meu brinquedo e o mantive comigo por mais alguns anos até que finalmente se perdeu e algum lugar entre o aqui e aquele lugar onde o balanço me levava ao céu cada vez que as suas mãos tocavam as minhas costas. Há muitos tempo eu não me lembrava disso, até mesmo porque a cicatriz na testa  passou a fazer parte de mim.Hoje eu me senti completamente só e com frio e senti medo, então me cobri com a manta e deixei a mão um pouco descoberta, esperando pela sua mão. Pela hora do almoço, fui liberada e voltei para casa. E cada vez mais, a certeza do que eu quero me toma por completo. Tá bom, você pode não acreditar em nada do que eu digo, mas eu sei o que eu sinto e o quanto tem de verdade em cada palavra esticada nesta linha chamada vida.



"O que está guardado no coração, é para sempre"


quinta-feira, 16 de junho de 2016

SEJA


Seja
Seja eu o que começou em mim -, seja eu, a presença e não o refúgio dentro de uma melodia qualquer. Seja eu, o começo do dia e muitas vezes a liberdade da noite no faíscar das estrelas, seja! Seja eu a oração, a saudade, a elevação, o enredo, a serenidade, o aroma, a pureza, as cicatrizes, as palpitações, o pensamento, a certeza, a gratidão, o abandono, a chuva, o mar, os ventos, as marés, os cavalos marinhos, o impossível, a compreensão, o olhar e a razão. Seja eu, a voz que te chama, o abraço que te acolhe, a mão que te ampara, o pretexto para o amor. Seja eu, a flor , o nectar, o pólem, a petala, o ovário, a semente. Seja eu o resgate do ontem, a coragem do hoje e a certeza do amanhã. Seja eu a imagem refletindo a minha história no espelho dos teus olhos - seja!



domingo, 12 de junho de 2016

MEU TIO SAUL

MEU TIO SAUL

Era tão bom quando eu me sentava ao seu lado e ouvia as suas histórias -, mesmo as mais loucas que um ser humano é capaz de inventar. Ele sempre com o olhar perdido no vazio entre a cidade e aquela casa, aquela varanda alta, aquele chão vermelho, o cachorro deitado aos seus pés, a fumaça do cigarro entre os dedos amarelados, a mão apoiada no joelho -, era ali, naquele espaço de silêncio que ele vivia as suas experiências sem prestar contas à realidade. Com a sua voz grave,  ele me contava fatos que a minha inocência não era capaz de assimilar e muitas vezes, ele segurava a minha mão com o seu jeito peculiar e apontava o meu dedo indicador, um ponto entre o céu e a terra dizendo: É pra lá que eles foram!-, eu olhava atentamente sem contudo, perguntar - Quem foi pra lá?! Quem?!-, na verdade eu sentia medo de perguntar qualquer coisa e me dispunha a ouvir. Então, de repente ele sorria e me perguntava se eu queria um doce ou um passeio no viveiro de mudas que ficava do outro lado da rua. Eu sempre respondia a mesma coisa - primeiro o passeio e depois o doce! E de mãos dadas, atravessávamos a rua  mergulhando num mundo de flores, mudas de árvores ornamentais e frutíferas as quais ele conhecia pelo nome científico. Além das flores, tinha os aninais - coelhos angorá, porquinhos da índia, gansos e patos. Os pequenos micos com seus olhos enormes, preás, cotias, jabutis, um lagarto que comia ovo, e um grande viveiro de pequenos pássaros e as barulhentas araras. Ficávamos por longas horas passeando à sombra do arvoredo. Muitas das vezes, era estação das frutas e eu me deliciava com carambolas, romãs, pitangas, jabuticabas, isso tudo, antes dos tais doces que eu não esquecia. Antes de ir embora, era a vez dos peixes ornamentais nos grandes aquários e os alevinos  nos taques cobertos com uma tela fina para evitar que as garças fizessem um banquete à céu aberto. Depois de nosso passeio ecológico, ele segurava a minha mão e caminhávamos em silêncio até a rua de cima, onde ele comprava os doces: canudinhos com doce de leite e banana kasutera os meus prediletos (ainda gosto!!) De volta à casa da minha avó, eu me sentava na área (varanda) e ele voltava a sua posição acocorada junto a parede do quarto e abríamos os saquinhos de papel pardo e nos entregávamos aos doces e risadas. Há um mundo misterioso, diante do qual os covardes se apavoram, um mundo que ele conhecia tão bem. Soube como entrar, mas nunca soube como voltar. 


só a saudade nunca tem fim

LUZ DOS OLHOS

LUZ DOS OLHOS

...diante do teu olhar, de toda indumentária os meus olhos se despiram e completamente nus entregaram-se. E tudo o que acompanhou este momento, refletiu-se em demasia no coração pulsante do universo. Houve sístole e diástole e a singularíssima afirmação de que precisamos um do outro. Naquela noite, o teu amor chegou em plenilúnio e a lua, feito um escudo no céu, refletiu o sagrado que exite por trás de cada existência____não me atrevi a desviar o meu olhar,  e envaidecida descobri no teu semblante, a luminosidade que a minha alma buscava. Encontrei na luz dos olhos teus, a minha própria luz e o amor se fez, dando-nos a numinosidade do momento e a fusão da nossa alma_____agora una.


para LAM